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Soares Loja critica interdição de a Igreja Católica dar Orientações de Voto

Maio 27, 2019

VotoOrientaçção

O Dr. Fernando Soares Loja, elemento da Comissão de Liberdade Religiosa e leader protestante,  dirigiu ao responsável de Estado e Igreja o texto que hoje partilhamos com o leitor. Expurgámos o texto das principais fórmulas pessoais,  introdutórias e conclusivas. O texto, num estilo pessoal direto e atraente, coloca problemas fundamentais ao nosso regime de relações entre o Estado e as Igrejas, em particular a Católica. Eis o texto:_

Li com muito interesse o seu post  intitulado Caso Basta: Patriarcado repete equívocos políticos do tempo do Estado Novo [para ler o post, queira rolar].

Aconteceu-me, porém, desta vez o mesmo que quando sou convidado a ir a casa de um amigo jantar e nem sempre compreendo o que me estão a pôr à frente para comer (e eu desde que me conheço sempre tive o mau hábito de inquirir). Quando era criança/adolescente a minha mãe ficava muito constrangida quando eu fazia isso, que era má educação, mas entre a má educação e a ignorância eu escolho a primeira … o que faz de mim um mal-educado com alguma informação acumulada. Da minha má educação peço-lhe adiantadas desculpas, mas sei que compreenderá a minha vontade de compreender melhor este mundo em que vou vivendo sem ainda o ter percebido muito bem.

Saberá o meu querido amigo que para além da má-educação inata eu tenho outra desvantagem: não nasci Católico, nunca vivi a experiência de ser Católico o que me coloca em clara desvantagem num país de cultura Católica. Na minha mente e cultura protestante a igreja somos nós, os crentes, não os dirigentes da igreja. Aquilo que na cultura Católica se chama “a hierarquia” é para mim um conceito laboral/profissional, não eclesiástico. Na minha cultura protestante a igreja são as pessoas e, portanto, a Igreja Católica são as pessoas que mais ou menos adoptam o pensamento comum aos Católicos e que foi sendo produzido e ensinado ao longo de séculos.

A minha primeira perplexidade é acerca da fonte do apelo ao voto em determinados partidos. É seguro que tenha havido apelo? E que a ideia tenha partido da hierarquia da Igreja? Dos bispos ou do bispo de Lisboa?

Não creio cometer uma inconfidência ao dizer que há leigos na Igreja Católica lutam por valores cristãos que se me queixam da falta de empenho da hierarquia na sua luta e que gostariam que a igreja saísse à rua e pusesse os pontos nos ii quanto ao que a Igreja defende.

Porque alguma coisa precisa de ser feita contra a desgraça de um país refém dos valores anti-cristãos de quem dita a orientação política em Portugal. Não somos um país amordaçado, como antes de 74. Hoje somos um país refém. Refém de um governo refém do BE. Portugal recusou as teses e sonhos do Dr. Cunhal para passados 40 anos cair, sem saber bem como e porquê, nas mãos de comunistas radicais disfarçados de progressistas.

Preocupa-me a mim e a muitos cristãos o silêncio das igrejas sobre o que se passa no nosso país quanto a temas tão caros ao cristianismo como a defesa da vida (contra o aborto e a eutanásia) e a defesa do casamento/família (contra o divórcio por dá cá aquela palha e a destruição do conceito de casamento como união para vida entre um homem e uma mulher).

Tenho dificuldade em compreender as críticas que são feitas à Igreja Católica por esta dar, se é que dá, orientação de voto aos seus fiéis. Eu, pelo contrário, defendo o direito das igrejas intervirem abertamente nos temas políticos: as igrejas são comunidades sociais unidas por um pensamento religioso comum. Essas comunidades não vivem fora da sociedade, fazem parte integrante da sociedade, contribuem com o seu trabalho, a sua cultura e os seus impostos para a vida da sociedade portuguesa. Então, pergunto, porque deveriam abster-se de pensar sobre o governo da cidade a que pertencem? Se os líderes da comunidade religiosa dão orientações sobre tantas coisas importantes da vida aos seus fiéis porque se deveriam abster de dar orientação quanto às ideias que são boas e às que são más para o governo da cidade?

Há quem argumente com o princípio da separação entre igrejas e Estado. Argumenta distorcendo o princípio da separação porque o princípio da separação importado da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos da América não se fez para impedir as igrejas de intervirem na vida social e política (e é ver-se o que as igrejas americanas fazem em período eleitoral e como aconselham os seus fiéis a votar em determinado candidato, com cartazes à porta dizendo “vote for …” sem pedirem licença a ninguém, nem se justificarem de nada). O princípio da separação foi formulado para impedir o Estado (o poder legislativo e o executivo) de interferir na vida das igrejas.

Como escreveu Thomas Jefferson o princípio da separação é um muro de separação (a wall of separation) que o Estado não pode galgar. Mas é o Estado que está impedido de interferir na vida das igrejas, não as igrejas que ficam inibidas de se interessar pela política e pelo destino do país.

Tenho muita dificuldade em compreender do ponto de vista filosófico e jurídico os fundamentos da tese da necessidade de abstenção por parte da Igreja Católica (e imagino de todas as demais) quanto à opção política dos seus fiéis.

Podem dizer-me: A razão do silêncio reside no respeito pela liberdade de consciência dos fiéis. E pergunto eu: em que é que o conselho de alguém com responsabilidades de liderança de uma comunidade de fé diminui a liberdade dos seus fiéis? Em que é que a orientação de voto colide com a liberdade de consciência do fiel? Se o líder espiritual é livre de aconselhar “não mates”, “não adulteres” ou “não roubes” não poderá dizer também “não contribuas com o teu voto para a morte dos inocentes ou para a morte dos velhos deprimidos ou dos doentes inúteis” ?

Imaginemos que em Portugal se funda um novo partido nacional socialista que tem no seu programa o genocídio de ciganos e de gays e de judeus. Devem os líderes espirituais abster-se de elucidar os seus fiéis de que é perigoso para o país votar numa tal força partidária? O líder espiritual aconselha e o fiel decide se segue ou não o conselho, mas o fiel ficou elucidado e vota em consciência.

Quando os sindicatos decretam a greve também não violam a consciência dos seus sindicalizados? Deveriam, mutadis mutandis, explicar as suas razões e esperar que os seus sindicalizados formassem a sua vontade a tal ponto que seriam as consciências dos sindicalizados a ditar o imperativo de, espontaneamente, pararem as máquinas ou desligarem os motores dos seus camiões. Mas não: decretam a greve e, mais, muitas vezes impedem de trabalhar quem quiser furar a greve.

Se os sindicatos podem interferir na vida social e política, (ao ponto para mim inconcebível de quase paralisarem sectores do país), porque não podem as igrejas dar a sua opinião sequer sobre quem melhor se identifica com os valores cristãos? As igrejas, entenda-se, as igrejas em Portugal. Porque as igrejas nos Estados Unidos, fazem-no às claras e sem contestação de ninguém e sem que alguém sinta a sua consciência ofendida ou limitada. E não creio, com o devido respeito pela cultural democrática Portuguesa que os portugueses tenha mais consciência do que é viver em democracia do que os norte-americanos, os quais vivem em democracia ininterruptamente desde a sua declaração de independência. Se os americanos sabem o que é a democracia há 243 anos e não acham estranho que as igrejas influenciem os seus fiéis quanto ao sentido de voto fazendo sessões de esclarecimento dentro dos próprios templos, porque é que alguns portugueses acham que as igrejas não podem dizer aos seus fiéis quais os partidos ou candidatos que defendem valores contrários aos valores cristãos e quais aqueles que defendem os mesmos valores? Será que nos nossos 45 anos de democracia sabemos mais de democracia dos que os americanos nos seus 243 anos?

As igrejas cristãs são contra a eutanásia, bem como as comunidades judaicas e as comunidades muçulmanas. Quando é sabido que há partidos que querem fazer aprovar em Portugal uma lei que permite a antecipação voluntária do momento da morte, não têm as igrejas e comunidades religiosas que se opõem à eutanásia o direito de esclarecer os seus fiéis de que em nome da coerência não devem votar em partidos que defendem valores contrários aos da sua igreja/comunidade?

Dir-se-á que as comunidades religiosas não deveriam orientar o voto dos seus fiéis porque as leis que determinados partidos defendem não são um ataque a essas mesmas comunidades religiosas.

Claro que uma lei que permite a eutanásia não é uma lei contra as igrejas cristãs, nem contra as comunidades judaicas ou muçulmanas porque essa lei não obriga os médicos a matar os doentes dessas comunidades especificamente. Mas é uma lei contra os valores que os cristãos, os judeus e os muçulmanos defendem. Então, não poderão as igrejas e comunidades religiosas recomendar aos seus fiéis: não votem nos partidos que defendem ideias que não são as nossas?

Não será uma incoerência, quase um indício de esquizofrenia, defender a vida e votar num partido que defende a morte antecipada?

Há uns anos preguei na minha igreja procurando dissuadir quem me quis ouvir de votar nos partidos que promovem valores contrários aos valores cristãos e no fim do serviço religioso amigos meus vieram dizer-me que iriam repensar o sentido do seu voto. Violei eu a consciência de alguém? De modo nenhum. Chegada a hora de votar cada um votou como quis e ninguém lhes perguntou em quem tinham votado. Serão os Católicos menos livres do que os Protestantes? Ou mais influenciáveis que os Protestantes ao ponto de ficarem inibidos de optar só porque o seu bispo os orientou a não votar em partidos que defendem valores não coincidentes com os valores Católicos?

Se os líderes dos partidos podem dizer aquilo que pensam das ideias religiosas, não poderão os líderes religiosos dizer das ideias e propostas políticas aquilo que delas pensam enquanto líderes religiosos?

No tempo de Salazar eu ouvia falar na lei da rolha. Temos depois do 25 de Abril uma lei da rolha só para os bispos da Igreja Católica e para os líderes das demais igrejas? Será que a liberdade de consciência e de expressão não é também para os líderes religiosos? Ou perderam os líderes religiosos a sua liberdade de consciência e de expressão com que todo o ser humano nasce quando foram ordenados sacerdotes?

Do que é que alguns partidos têm medo? Têm alguns políticos medo dos púlpitos? Não têm os políticos os seus próprios púlpitos? e bem públicos que eles são …

Todos gostamos de céu azul, embora as nuvens cinzentas nem sempre sejam mau sinal sobretudo quando uma boa chuvada faz falta.

Este episódio do apelo ao voto em partidos com políticas contrárias aos valores cristãos poderá ser “uma rara nuvem cinzenta no céu azul das boas relações entre o Estado e a Igreja Católica em Portugal”. Bem, e de que nos serve o céu azul se o azul for sinónimo de aborto, de divórcio por dá cá aquela palha, de “casamento” gay e de eutanásia ?

Estado e Igreja comentará proximamente o estimulante texto do Dr. Fernando Soares Loja.

 

 

 

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