Saltar para o conteúdo

Notre-Dame de Paris: o encontro do Estado e da Igreja

Abril 17, 2019

Ima catedral destruída por um terramoto

O incêndio da catedral de Notre-Dame, no início da Semana Santa, gerou uma imediata e alta onda de emoção francesa e também mundial devido essencialmente ao seu valor simbólico. E este valor decorre do encontro entre o catolicismo e o Estado. A alma da França foi atingida, disseram observadores laicos. Ninguém o teria dito se tivesse ardido a torre Eiffel. Essa reação é por isso relevante do ponto de vista da análise política das sociedades europeias contemporâneas.

O Ministério Público francês, quando ainda ardiam chamas na catedral, afirmou não ter provas da natureza criminosa do incêndio. Como teria provas se ainda não tinha tido tempo de investigar e faltava a reivindicação do ato por uma entidade terrorista. Com efeito, o incêndio não fora reivindicado publicamente e era improvável que, a haver reivindicação, ela fosse secreta. A prematura declaração do Ministério Público significa que ele investiga com o a priori de nada encontrar de estranho e por isso, se não encontrar indícios criminosos, essa ausência terá uma credibilidade reduzida.

Anote-se que a ausência de reivindicação, porém, não esclarece em definitivo pois há numerosos atentados que não são reivindicados, nomeadamente contra igrejas em França.

Se a opinião pública sentisse que o incêndio provinha de causas naturais, se Notre-Dame tivesse sido abalada por um tremor de terra, teria reagido assim? Não teria: teria sim pensado que era um dano material grave que urgia reparar, mas os tremores de terra mal abalam a alma. A força e o simbolismo da reação revela em contraluz que a opinião atribui ao incêndio origem criminosa.

A presença da religião na política em França revelou-se sem pedir licença ao laicismo francês. A France24, uma emissora televisiva oficiosa, passou as primeiras horas do relato do incêndio de Notre-Dame a tentar ocultar que o edifício incendiado era uma igreja católica. Uma entrevistada disse que tinha rezado perante o incêndio e o entrevistador mudou logo a conversa para a história de arte. Parecia cumprir instruções superiores. A meio da noite, a emissora mudou de tom e reconheceu o facto religioso, afinal Notre-Dame estava autorizada a ser uma igreja. O que aliás o Presidente Macron mencionara, embora em termos pouco felizes. Diz-se em francês: «Chassez le naturel, il revient au galop» (se expulsarmos a natureza, ela regressa em força). O que é desprovido de interesse em processo penal e pleno de significado civilizacional.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: