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O Regresso da Cristandade

Abril 10, 2019

TronoeAltar

Estado e Igreja recebeu diversas críticas a Papa Francisco: condenara o capitalismo; apoiava os passadores da imigração clandestina para a Europa; apoiava a perseguição muçulmana aos cristãos. Estas afirmações tinham sido colhidas nas redes sociais.

Qualquer cidadão tem o direito de opinar sobre o Papa. Mas estas opiniões eram apresentadas como factos. Ora não são factos, são opiniões.

Estas opiniões revelam uma convicção interessante: o Papa esta contra o Ocidente, contra a NATO, contra nós europeus. Todas as opiniões são políticas e têm a ver com a atualidade mais atual. Têm a ver com as eleições europeias.

Esta curiosa opinião revela uma nostalgia da cristandade.

A cristandade é a identificação de um Estado com uma religião. No final dos anos 1950, muitos teólogos católicos, afirmavam que o Imperador Constantino estabelecera a Cristandade no século IV ao declarar o catolicismo a religião de Estado do Império romano. A cristandade é um dos opostos à separação entre o Estado e a Igreja. O concílio Vaticano II aprovou estas teses nos anos 1960: a separação da Igreja e do Estado tornou-se a ortodoxia do catolicismo, de mão dada com a liberdade religiosa.

O fim desta separação é o pior inimigo da liberdade, tal como hoje a conhecemos e em particular da liberdade religiosa.

O regresso da Cristandade está presente nas eleições para o Parlamento Europeu. Ela voltou a existir (ou continua a existir) para uma pequena minoria de europeus. Esperaríamos que ela fosse perfilhada por partidos que os mass media designam, aliás confusamente, por eurocéticos, extrema-direita, populistas, nacionalistas, etc. Na realidade dos factos, estes partidos são na sua quase totalidade laicos, sem a menor referência religiosa.

Deduzir-se-á desta ausência que é mínimo o risco do regresso da Cristandade? A dedução seria apressada, mesmo tendo em conta a queda da prática religiosa católica e o aumento das críticas ao catolicismo devido à pedofilia de parte do clero. Nos Estados Unidos e no Brasil as últimas eleições presidenciais foram ganhas por candidatos próximos deste fórmula, Trump e Bolsonaro. Regressemos à Europa: se um partido invocar hoje o catolicismo para defender aquelas teses, mesmo sem atacar o Papa, será desautorizado pela Santa Sé pois a isso a obriga o separatismo herdado do Vaticano II. O ambiente institucional é hoje contrário à politização das religiões e à confessional dos Estados. Por isso, da ausência deste apelo nada podemos deduzir sobre a força dos que anseiam por ele. Acresce que a opinião pública muda. Pensemos só que em França a Srª Marine Le Pen afastou o Font National (hoje Rassemblement National) da política católica, na qual o inscrevera o seu pai, o Sr. Le Pen. Mas este afastamento não é unânime. Marion Maréchal le Pen discorda da política da sua tia Marine. Uma das discordâncias é precisamente a relação com a política católica. Se a estratégia de Marine lhe der um quarto dos votos mas lhe recusar a menor porção do poder executivo, algo se passará no relativo à sua liderança e respetiva atitude face à Cristandade.

Por isso, os próximos anos do Papa Francisco terão a sua relevância para a política dos Estados europeia. Assim como a orientação do seu futuro sucessor.

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