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O Papa Francisco abre (finalmente) os arquivos de Pio XII

Março 7, 2019

PioXIINazis

O Papa Pio XII aceita as honras dos SS numa foto icónica e anedótica da sua relação com o nazismo tal como é vista por um biógrafo hostil, John Cornwall

O Papa Francisco ordenou há dias a abertura ao pontificado de Pio XII (1939-1958) do Archivio Segreto Vaticano. Estes anos incluem a Segunda Guerra Mundial e o cerne da coexistência do Papa Pacelli com o nazismo. Na época contemporânea, os arquivos da Santa Sé são abertos pouco tempo após a morte de cada Papa. A exceção foi Pacelli.

Quando o Papa Pio XII morre em 1958 goza de uma boa reputação mundial. Na guerra contra o nazismo e o fascismo, dera-se bem com o Presidente Roosevelt e ajudara a salvar a vida de muitos judeus. No apogeu da Guerra Fria opusera-se com vigor ao comunismo russo. A atitude em relação a ele muda com a peça O Vigário, do dramaturgo alemão Rudolf (Rolf) Hochhut, estreada em 1964, que o apresentava como um colaborador do nazismo, nomeadamente no Holocausto. Hochhut é ele próprio um defensor dos que negam a existência do holocausto.

O fecho daqueles arquivos vaticanos empobreceu a compreensão da Segunda Mundial e causou grande prejuízo à memória de Pio XII. Para todo o mundo, fechar o acesso aos arquivos do Papa Pacelli só era compreensível por o Vaticano saber que eles continham material comprometedor para o Papa. Claro que o Vaticano não sabia isso. Os arquivos do Papa Pacelli são dezenas de milhares de metros lineares e nenhum Monsignori os tinha lido na íntegra. Em resposta a Hochhut, o Papa Paulo VI nomeou uma comissão de quatro historiadores com acesso livre aos arquivos de Pacelli mas os quadrúnviros eram todos católicos e os doze volumes de documentos que a comissão publicou de 1965 a 1981 não tiveram o menor impacto sobre a opinião pública. Quando há poucos anos foi aventada a canonização de Pio XII, a oposição foi tão forte que o processo parou.

Não era necessário procurar em esconderijos arquivísticos as provas dos erros do Papa Pecelli face ao nazismo. O que ele fizera de mal estava à vista de todos: negociou em Roma com os nazis como se eles fossem um regime político justo e nunca condenou publicamente o genocídio dos judeus (nem ele nem nenhum chefe de Estado da época). De Portugal recebeu convites para residir em Fátima, e se necessário seguir para o Brasil, para recuperar a sua liberdade face à Alemanha hitleriana, mas recusou abandonar Roma, mesmo governada pelo ocupante nazi, que nela procedia ao Holocausto. Pacelli estava cônscio que a sua ação não era consensual e no seu testamento escreveu: «estou consciente dos defeitos, dos fracassos e dos erros de que fui imputável durante um período tão grave». O Papa Pacelli terá agido de bem com a sua consciência, mas os ataques posteriores não o surpreenderiam.

A decisão do Papa Francisco atenua os inconvenientes deste erro mas não os compensa inteiramente: haverá sempre quem pense que a Santa Sé precisou de mais de sessenta anos anos para eliminar os documentos comprometedores. Sobretudo se continua a seguir a técnica arquivística do século XIX, ainda aplicada aos arquivos do Papa Pio XI: em vez de disponibilizar todos os documentos usados pela Santa Sé naquela época, proceder a uma seleção prévia na qual são eliminados os documento considerados desnecessários e disponibilizar os remanescentes em volumes encadernados (os quais não contêm indicação da data nem dos critérios dessa seleção prévia),

2 comentários leave one →
  1. Maria de sa permalink
    Março 8, 2019 2:51 am

    No mundo em que se vive sempre com um dedo levantado contra a Igreja ,eis um dedo a abrir os Arquivos do Papa XII. Será um momento para esclarecimentos sobre uma época terrível ,ensombrada pelo poder nazista e se arrume de vez as sombras dúbias sobre o Papa Pio XII. Maria

  2. Março 8, 2019 1:37 pm

    Um sacerdote amigo de Estado e Igreja enviou-nos o seguinte comenário, que disponibilizamos para o leitor:
    Caríssimo amigo L. Salgado de Matos:
    Obrigado, uma vez mais, por considerações deveras pertinentes e lúcidas. Relativamente aos Arquivos de Pio XII, permito-me apontar: a) a fotografia de Pacelli com os nazis, conviria indicar que, ao tempo, Pacelli era núncio em Viena e não Papa e a presença dele era representação diplomática; b) a peça o Vigário é de 1964, tendo passado a gralha para 1664; c) o número de judeus apoiado por Pio XII eleva-se, segundo algumas estatísticas, a 800.000, dos quais 200.000 em França (de alguns tem-se testemunho directo, como o de Paul O. Kristeller, que ostentava o exemplar do passaporte que Pio XII lhe mandara entregar pessoalmente); d) diz no texto que “de Portugal recebeu o Papa convites”: gostaria de saber quem lhos dirigiu; na semana passada, o representante da PAVE entregou ao papa Francisco documentação relativa ao plano de Hitler para raptar Pio XII e executá-lo no Lichenchestein; aí se deu conhecimento que Pio XII, sabedor do plano, deu indicações de que se isso acontecesse, ele se demitia, os cardeais deviam reunir-se para nova eleição e deixava indicações de que o governo da Igreja podia reunir em Portugal; e) quanto ao tempo de abertura dos arquivos, há prazos estritos, até para respeitar confidencialidade de pessoas envolvidas e por outros critérios: de mais a mais, o tratamento arquivístico deve ser prévio à abertura; creio que, dado o melindre do tempo da Guerra, o adiamento de mais um ano é uma medida de prudência. Fico-lhe grato por me levar a rever isto tudo, mas muito grato lhe ficaria se me esclarecesse sobre a origem da oferta de asilo a Pio XII em Portugal.
    EstEstado e Igreja agradece os informativos comentários. A fotografia de Pacelli a receber honras de uma guarda militar aparaentemente nazi foi publicada com uma legenda crítica para demonstrar a parcialidade dos críticos (entre os quais Cornwall) e não para demonstrar osuposto filonazismo dele. Lembremos que Pacelli foi núncio em Berlim até 1929 , quatro anos antes da subida dos nazis ao poder. Por isso, se a foto foi tirada em Berlim, os militares envergam uniformes alemães mas não na variante nazi. A foto é de má qualidade e não permite uma boa visão mas nela não discernimos o menor símbolo nazi. O seu uso é uma ilusão de ótica e um efeito de montagem, que deve ser desmontado. Na edição da Penguin Books do livro de Rockwell, aliás, surge a habitual indicação da fonte dessa fotografia, em corpo pequeno_ foi tirada em Berlim, em 1929, nada tem a ver com os nazis.. Poucos a vêem. A ilusão dótica foi conseguida. Vale também a penna anotar que a foto revela sobre tudo uma dimensão hieráttica do protocolo, que era típica das do período entre as duas guerras e que nada tem de nazi. Por fim, se um diplomata em fuunções na Berlim nacionalsocialçista tivesse recebido honras de uma guarda nazi, nem por isso se tornava nazi: o embaixador da rauinha de Inglaterra ao qual a Guarda Replicana presta honrtas em Belém não se torna por via delas um fervoroso republicano. Não é esta a ocasião nem para uma apreciação aprofundada do +ontiificado de Pacelli nem para recordar o pouco que se sabe sobre a preparação da sua vinda para Fátima durante a Segunda Guerra Mundial. Sobre este tema, digamos apenas que a eventualidade dessa vinda era voz corrente entre o clero da diocese de Leiria nos anos 1950. Talvez a abertura dos arquivos de Pio XII permita fundamentar melhor essa convicção- Digamos por fim uma palavrra sobre a data de abertura e a realanoração dos arquivos de Pacelli;: se o Vaticano quer estabelecer a confiança no Papa Pio XII mandam a lógica e o bopm senso que abram esses arquivos tão depressa quanto possível e no estado em que o Papa Pio XII os deixou. É claro que todos os Estados têm o direito, e em certos casos o dever de não dar à consulta púnbllica certos documentos. Por respeito dos direitos de terceiros ou para defesa própria: Londres nunca divulgou os célebres cálculos matemáticos de Sir Arthur “Bomber” Harris que justificaram o bombardeamento das populações civis na Alemanha nazi. Mas, e, para bcontinuar com o exemplo britânico, Londres abre os seus arquivos 25 ans depois dosd acontecimentos. Ora já passaram mais de sessenta sobre a morte de *acelli. Mais demoras é voltar a estiimular a desconfiança.ado e Igreja agradece a indicação da gralçha, que já fopoi corrigida.

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