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Descredibilizadas as Acusações ao Papa, Catolicismo no Banco dos Réus

Setembro 2, 2018

Vigano

Quando o acusador elogiava o cardeal acusado (foto divulgada pelo Catholic News Serice e retirada do Vatican Insider)

Ao regressar da sua visita oficial à Irlanda, no último domingo de agosto, o Papa Francisco foi alvo de um pedido de demissão por ser acusado de encobrimento no caso do cardeal D. Theodore McCarrick, arcebispo de Washington, acusado de numerosos crimes sexuais. O acusador arrogava-se autoridade para proferir a acusação: era o antigo núncio papal em Washington, o arcebispo D. Carlo Maria Viganò. O Papa recusou comentar a acusação, sugerindo que a lêssemos, e afirmando: ela fala por si. Começava assim a mais grave crise do catolicismo atual e era provocada pelas relações dele com o Estado por causa da atitude em relação a crimes sexuais cometidos por eclesiásticos católicos.

Uma semana depois, as acusações do ex Núncio parecem pouco críveis. O próprio Viganò elogiou em público o cardeal acusado. Viganò insistia que o Papa Bento XVI castigara McCopr,ick mas as suas declarações provavam que essas alegadas sanções não tinham sido aplicadas, pois o cardeal yankee concelebrara com Bento XVI além de, como vimos, ter sido elogiado em público pelo próprio Verganò. Este remetera-se ao silêncio mas teve que o interromper para se defender. Disse em sua defesa não ter tido meios como núncio para aplicar as sanções do Papa Bento XVI o qual as queria secretas. O New York Times, um diário pouco simpático ao Papado, já apontou as contradições do antigo Núncio. Que quase não teve seguidores nos meios católicos, exceto alguns poucos bispos do Estados Unidos que recorrem à linguagem de código: devemos examinar as acusações de Verganò.

Assim, estas acusações deixam ileso o Sumo Pontífice, o primeiro Papa a p8unir publicamente o cardeal abusador. Aliás, já nas suas declarações iniciais, o ex Núnico, ao ser interrogado pelo Papa Francisco sobre o cardeal McCarrick, declarara (as aspas são do antigo Núncio); «Santo Padre, ignoro se conhece o Cardeal McCarrick mas se perguntar à Congregação dos Bispos há um grande dossier sobre ele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e padres e o Papa Bento ordenou-lhe que se retirasse para uma vida de oração e penitência». Como o leitor reparou, o antigo Núncio, além da má-criação de dar conselhos ao Papa, não lhe disse que considerava McCarrick autor de abusos sexuais pelos quais fora condenado por Bento XVI. O ex núncio aplicou ao Papa Francisco o princípio «enganar com a verdade»: disse que o cardeal tinha um grande processo na congregação, o que é verdade de todos os cardeais, mesmo os mais santos, e acusou-o de corromper os seus seminaristas, uma acusação standard aos bispos, mas não especificou como os corrompia. Por isso, o antigo Núncio em Washington acusou o Papa Francisco de lhe ter preparado uma «armadilha» quando o interrogou sobre um assunto de serviço. A acusação de armadilhar era uma projeção freudiana: ele é que armadilhara o Papa.

As acusações não tocam a pessoa de Bergoglio mas minam o catolicismo. Não está provado que Bento XVI tenha punido McCarrick. Se o puniu nas condições referidas  pelo ex Núncio, a situação é preocupante: o Papa puniu condenando ao isolamento e concelebra com o condenado? O Papa pune por um crime social (não por uma heresia) e mantém secreta a condenação? O Pa+a consente que uma punição secreta seja desrespeitada? Na verdade, as acusações do ex núncio Verganò deixam ileso o Papa Fraancisco mas ferem o catolicismo: mostram-no dividido por ódios mesquinhos, desorganizado, incapaz de combater os abusos sexuais e sem a vontade necessária para esse combate.

Alguns factos sugerem que já começou a reação anticatólica pelo lado do Estado. Esta reação será por certo mais forte nos países o onde os abusos sexuais do clero católico foram mais fortes (foram ou continuam a ser, ignoramo-lo) . Nos países latinos , como o nosso, estes desmandos terão sido mais fracos do que nos anglo-saxónicos. Eis três exemplos.

  • No Guardian, um respeitado diário londrino, Polly Toynbee, filha do grande historiador homónimo e apreciada opinion maker, escreveu que o Estado tem sido demasiado tolerante para os desmandos sociais das religiões (e especificou que não se referia apenas ao catolicismo);
  • Na Irlanda, as autoridades declararam que consideram insuficientes as medidas tomadas  pela Igreja Católica contra os autores clericais de abusos sexuais. É o esboço de um conflito mais grave;
  • Na Austrália, uma comissão estatal aprovou uma série de recomendações à Igreja Católica, na sequência da descoberta de numerosos crimes sexuais por ela cometidos e escondidos. Entre elas está abolir o segredo da confissão. O catolicismo australiano aceitou numerosas dessas recomendações mas recusou esta. Será possível defender a transparência e dar automaticamente a absolvição aos autores de crimes sexuais continuados? O Estado aceitará nestes casos o segredo da confissão que para ele é cumplicidade ou encobrimento de um crime hoje tido por particularmente repugnante?

 

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Primeiras declarações do antigo Núncio em Washington:

https://www.lifesitenews.com/news/former-us-nuncio-pope-francis-knew-of-mccarricks-misdeeds-repealed-sanction

Segundas declarações do antigo Núncio em Washington

http://www.lastampa.it/2018/09/01/vaticaninsider/vigan-benedict-did-not-want-public-sanctions-because-mccarrick-was-retired-MADPNcxY8kj7hUGzP355xJ/pagina.html

Texto de Polly Toynbee

https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/aug/28/religion-ireland-catholicism-abusers

 

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