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A Polícia francesa na Crise das Relações entre o Estado e a Igreja

Outubro 24, 2016

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No passado dia 8 de outubro, duas viaturas da polícia francesa foram atacadas com coqueteils molotov e com tijolos no departamento do Essone, nos arredores de Paris. Dois dos agentes ficaram em estado grave. O atentado foi logo atribuído a terroristas islamistas mas os seus autores continuam por identificar.

O  leitor estranhará que um caso de polícia, por violento e lamentável que seja, receba acolhimento num blogue consagrado às relações entre o Estado e a Igreja. É acolhido porque revela uma crise simbólica  da polícia francesa e da própria França. O símbolo é produzido pelas instituições «igrejas» e a segurança, no caso, é assegurada, pelo Estado, por meio da polícia. O símbolo social liga as igrejas ao Estado e é fonte de identidade de uma dada organização política.

Relancemos então os factos posteriores ao atentado. No começo da noite de segunda-feira passada,  uma manifestação  ilegal de agentes da polícia arrancou do hospital onde é tratado uma das vítimas daquele atentado. Numerosos carros da polícia e centenas de agentes a pé ocuparam imediatamente os  Campos Elíseos,  a grande avenida de Paris que é o palco predestinado das manifestações nacionalistas ou patrióticas. A manifestação era conduzida à margem dos sindicatos de polícia e reivindicava mais meios e punições mais fortes contra os terroristas. Os polícias repetiram essas concentrações ilegais  todas as noites da semana passada. Da capital alastraram a numerosas outras cidades. O governo socialista começou por tentar puni-los e recuou, pois essa tentativa reforçara a mobilização policial. A esta desautorização governamental, seguiram-se apoios às manifestações ilegais por parte de algum candidatos às primárias presidenciais da direita.  Entretanto, um número crescente de parisienses tem exteriorizado apoio àquelas manifestações. Hojeou aamhã, o Presidente Hollande receberá os polícias revoltados.

Que pensar destes factos? É expetável que polícias se solidarizem com colegas gravemente feridos no cumprimento dos seus deveres – mas já não o é que os sindicatos policiais não consigam canalizar esses sentimentos  nem que os agentes se declarem incapazes de garantir a segurança dos cidadãos e passem da aplicação da lei à violação da lei. A transformação dos garantes de ordem em fautores da desordem é em si mesma sintoma de crise social grave, quando ocorre em tal escala e em em tais circunstâncias. As reivindicações dos polivias-manifestantes são impossíveis de satisfazer ou inconsequentes.  A reivindicação de mais meios está fora de causa pois os polícias manifestavam   superioridade no local do crime, não tendo sabido proteger-se a si próprios de um inimigo mais fraco. O que são mais meios? Um terceiro carro para proteger os dois primeiros? Há uns meses, o segundo carro da polícia protegia o primeiro.   Penas mais pesadas nada resolverão, exceto, e este exceto é hipotético, se a França se transformar num Estado totalitário. As reações dos políticos, de direita ou de esquerda, revelam desnorte, simétrico do dos polícias. Tudo acabará com a promessa de mais meios para a polícia e o esboço de um novo sindicato. Será esta crise resolúvel com dinheiro?

A crueldade dos ataques terroristas e a gravidade da ameaça proíbe-nos de seguir o caminho da fuga, lacrimejando e demonizando o inimigo, e nos obriga à objetividade e a uma abordagem de conjunto. É notória a incompetência da polícia francesa, nomeadamente no campo da defesa de proximidade. Os polícias agora atacados não souberam defender-se. Já o célebre Charlie-Hebdo estava na lista dos locais protegidos pela política e os terroristas entraram na sua redação sem que ninguém lhes barrasse o caminho. Em Nice, o Passeio dos Ingleses não tinha nenhuma barreira de segurança à entrada. e por isso o camion terrorista nele entrou sem obstáculo. Durante meses, os mass media franceses intoxicaram os cidadãos informando-os que todos os terroristas já eram conhecidos dos serviços de informação – sem perceberem que essa informação era desmobilizadora pois confessava indiretamente a incapacidade policial.

Por tudo isso, os polícias franceses deveriam requerer melhor formação técnica e um enquadramento mais competente na luta contra o terrorismo urbano.  Essas reivindicações seriam sensatas e, para usarmos os conceitos  de Max Weber, um célebre cientista social alemão, seriam «racionais em relação ao fim»: o fim é destruir o terrorismo extremista islâmico, para isso é necessário uma polícia preparada. Mais meios, mal usados, de nada servem. Contudo, nem os polícias franceses nem os seus dirigentes políticos são capazes de semelhante atitude. Por serem ignorantes? Claro que não. Por viverem uma crise de identidade: sentem-se impotentes perante a atual vaga de terrorismo. Essa impotência elimina-lhes a razão de ser, desmoraliza-os e transforma-os no contrário do que a organização política espera deles. Na linguagem funcionalista, diríamos que a polícia francesa e a França estão a entrar em anomia, numa  quebra das normas.  Um psicanalista diria por certo que os polícias julgam que o pai foi morto pelos terroristas islâmicos e querem matá-lo de novo, pois não conseguem fazer o luto. Recorramos a outros conceitos. A crise de competência revela a crise do símbolo: os polícias franceses e os políticos seus dirigentes não sabem em que acreditar, deixaram de acreditar em si mesmos e nem se apercebem disso. Se não acreditarem em si mesmos, não vencerão os terroristas.  Sem um símbolo forte , não há segurança forte. Por isso, «para derrotar o terrorismo», devemos «chamar o padre ou o maçon». Porquê o padre ou o maçon? Porque as igrejas eas maçonarias são as principais produtoras e distribuidoras de símbolos e de identidade nas nossas organizações políticas. Claro que a curto prazo, a França está seguríssima: a gendarmerie impediu os polícias de causaram desacatos e eles acataram. Mas a gendarmerie, como a nossa GNR, é uma força militar. Como o símbolo é fraco, a instituição castrense já entrou na política francesa.Entrou pela porta pequena; entrou apenas a manter a ordem pública. Para a semana, talvez autorize  a polícia a assaltar edifícios públicos. Onde já vimos isto? O filme era a preto e branco, não era? Saberemos o que sucede à França, na próxima semana, nos próximos meses e, se tiver vida e saúde, nos próximos anos. O mundo está a mudar.

*

O texto acima é o comentário de um caso concreto, enquadrando-o na relação entre o Estado (nesta situação responsável pela segurança interna) e a Igreja. A frase «para derrotar o terrorismo», devemos «chamar o padre ou o maçon» é extraída de um estudo sobre o assunto, na perspetiva da segurança, que, para vencer o terrorismo, recomenda  ainda o recurso à estatística. Eis a referência desse estudo, que aqui é dada para quem queira aprofundar a problemática:

Luís Salgado de Matos, «To Defeat Terrorism, Study  Statistics and Send for the Priest or the Free-Mason», pp. 69-78, em  Diogo Pires Aurélio e João Tiago Proença (organizadores),   Terrorism: Politics, Religion, Literature,  Cambridge Scholars Publishing, 2011

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