Skip to content

Tailândia: morre um Rei-Deus

Outubro 16, 2016

teilandiareicml

O rei Bhumibol e a sua encantadora esposa, a rainha Sirikit, visitaram Portugal no final dos anos 1950, quando o Estado Novo procurava o apoio de países conservadores do Terceiro Mundo para contrariar a ofensiva a favor da independência das colónias. A foto mostra o casal numa receção na Câmara Municipal de Lisboa, sendo saudado pelo seu  presidente, general França Borges

Morreu há dias o rei Bhumibol, da Tailândia, depois de um longo reinado de mais de 70 anos. A CNBC, uma cadeia de televisão dos Estados Unidos, classificou-o de «semideus». Aludia sobretudo ao clima de culto religioso que à volta dele a lei impunha. A frase é uma semiverdade. Mas Bhumibol era também um Deus porque no seu país o politeísmo continua a ter um papel forte e por isso aos reis são popularmente atribuídas caraterístícas divinas. Como se sabe, o Imperador do Japão era também considerado um Deus até que o general McArthur, chefe da ocupação militar norteamericana em 1945, o obrigou a pronunciar célebre mensagem radiofónica na qual declarou: «não sou Deus». Uma declaração forçada vale? Muitos japoneses julgam que não. No Império  do Sol Nascente, o shinto é uma religião politeísta. Na Tailândia como no Japão, muitos cidadãos perfilham mais do que uma religião.

Desconhecemos hoje na Europa e nas Américas esta relação ostensiva e pessoal  entre a divindade e um homem, por rei que seja. Mas convém lembrar que os Imperadores romanos, por efeito das suas conquistas asiáticas, se deixaram divinizar, no momento de morrerem. Por outro lado, o sagração dos reis, comum para lá dos Pirinéus, era uma forma  burocratizada de estabelecer um nexo particular entre a pessoa do rei e Deus.

A Tailândia é um «Estado tradicional contemporâneo». Neste tipo de Estados, o chefe de Estado, em princípio um Rei, exerce poderes superiores aos do monarca constitucional, e  goza de um especial contato com a religião (mas não tem que ser Deus). É o caso do nosso vizinho Marrocos, cujo rei é descendente do Profeta (ou dessa qualidade se reclama e como tal é aceite pelos súbditos). Vários países do Médio Oriente integram esta categoria, à qual pertence também Tonga, no Pacífico. O caso do Japão é pouco claro.

O próximo Rei da Tailândia será Deus?  Veremos.

*

Se o leitor quiser aprofundar esta noção de Estado tradicional contemporâneo, ainda que sem referência aprofundada à religião, queira consultar o livro de Luís Salgado de Matos (o autor do presente blogue) Como Evitar Golpes Militares O Presidente, O Governo e a Assembleia Eleita face à Instituição Castrense no Estado Parlamentar, no Presidencial e no Semipresidencial, prefácio de Jorge Sampaio,  Imprensa de Ciências Sociais, 2008. Queira começar pelo capítulo: «Os Estados Tradicionais e os de «Divisão de Poderes Sofrem Menos Golpes Militares»

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: