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Presidenciais nos Estados Unidos e em França: o Regresso da Religião

Outubro 9, 2016

fillondevilliers

François Fillon e Plhippe de Villiers, dois protocandidatos de direita a presidente da República francesa

Há algumas décadas, a «teoria da secularização» tornou-se dominante nas Universidades  da América do Norte e da Europa ocidental: com o aumento do rendimento individual, diminuía o peso social da religião. O aumento do rendimento acabaria por a afastar completamente do «espaço público». Será assim? Os Estados Unidos elegerão um presidente no mês que vem, a França elegerá o seu no próximo ano. Em ambas as eleições, a religião desempenha um papel importante.

Nos Estados Unidos, o candidato Donald Trump colocou o Islão no centro da campanha. Em França, estão a decorrer as «primárias da direita», copiadas das estado-unidenses e que permitem ao eleitor escolher entre vários candidatos a candidatos. Pelo menos dois deles já atacaram o Islão político. François Fillon, antigo primeiro ministro do Presidente Sarkozy, define o inimigo principal como «o totalitarismo islamista»  e afirma haver «um problema ligado ao Islão».   De Villiers, um «soberanista», que obteve mais de 6% nas eleições europeias,  afirmou há dias: «a islamização da França é a bóia de salvação eleitoral do Presidente Hollande», que para tanto pretenderia transformar a França num grande Kosovo. E acrescenta, numa fórmula provocatória: «a França não tem vocação para ser a filha mais velha do Islão». Fórmula provocatória pois contrasta com «a filha mais velha da Igreja», o título católico tradicional daquele país.  A religião é o Islão, nestes três casos. Mas o Islão é uma religião e a sua politização implica a valorização do papel político das outras religiões, automaticamente chamadas a pronunciarem-se sobre o papel do religioso na cidade.

O reforço do papel da religião como tema eleitoral não significa que os atores religiosos se tornem atores políticos. Nos Estados Unidos, as originalidade de Trump tornaram-no repugnante para muito eleitorado religioso, católico ou protestante, o que será por certo acentuado pelo recente vídeo que documenta as suas gabarolices sexuais. Em França, porém, vale a pena anotar que o gaullista social Fillon e o legitimista De Villiers lançam ambos (diferentes) raízes no catolicismo político.

Mesmo em alguns dos países mais ricos do mundo, os factos políticos de hoje contrariam a teoria da secularização e, para o afirmarmos, não precisamos de concordar com as teses partidárias acima referidas. O funeral académico daquela teoria não deve ser produzido no presente post.  Aliás, ela enfrentou sempre uma minoria de opositores académicos, que agora se vêem confortados.   Esta evolução não abala secularistas universitários  menos brutais, como o francês Marcel Gauchet: para ele, a religião não acaba com a modernidade, o que acaba é a organização política baseada na religião. Mas isso não está em causa: até agora a separação entre o Estado e as Igreja não foi posta em causa em nenhum país europeu ou americano. É mesmo um prazer requintado ver o político da Vendeia De Villiers a defender a República Francesa.

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2 comentários leave one →
  1. Outubro 10, 2016 3:13 pm

    Um leitor comunicou-nos a seguinte e breve reflexão:
    «Creio que o cristianismo, sobretudo na Igreja Católica, poderia aproveitar melhor o «regresso da religião» para se libertar dos resquícios de poder temporal; as igrejas-estado não favorecem o diálogo entre ‘Estado e Igreja’.»

  2. Agostinho Jardim Gonçalves permalink
    Outubro 10, 2016 4:10 pm

    O que abunda em questões mal postas falta em aprofundamento teológico , no que toca sobretudo ao cristianismo, que é a religião “subentendida”, mesmo quando tanta gente “nervosa” se refere ao islão , que é um outro fenómeno. Conheci o Gauchet e não creio que lhe agrade ser chamado para a berlinda. J.

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