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Papa Francisco: o Ídolo dos Media falhou na Geórgia?

Outubro 3, 2016

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O Papa diz a famosa missa das três mil pessoas no estádio de Tbilissi

O Papa Francisco desembarcou sexta-feira passada na capital da Geórgia, Tbilissi, um país monoliticamente cristão ortodoxo, foi recebido pelas autoridades estatais e religiosas, disse missa  para cerca de três mil pessoas num estádio da cidade;  prosseguiu depois a sua visita ao Cáucaso visitando ontem o Azerbadjão, um país vizinho quase totalmente muçulmano e razoavelmente respeitador da liberdade religiosa. No dia seguinte, sábado passado, Der Spiegel, um semanário noticioso alemão, titulava: «Francisco na Geórgia O Papa préga a filas vazias». O subtítulo anunciava «tensões» entre a Santa Sé e a Igreja local o que teria «ensombrado» a visita. O texto afirmava que o Vaticano esperara uma delegação ortodoxa  para o serviço religioso no estádio que fora recusada pela Igreja local.

Num ápice, Der Spiegel passava o Papa Francisco de vencedor a vencido, de ídolo dos media a padre derrotado. O hebdomadário germânico teria razão?  O britânico The Guardian, recorrendo ao serviço da agência noticiosa Reuters, acentuou no título que o Papa se dirigiu a «uma pequena multidão»; em subtítulo referia a recusa pela igreja local do serviço ecuménico mas acrescentava uma explicação para a ausência de massas humanas habituais nas viagens de Francisco:  a Geórgia era «esmagadoramente» cristã ortodoxa.  O jornal estranhava o otimismo vaticano quanto ao número de presenças na missa, pois no começo da semana passada o Patriarcado georgiano anunciara que, devido a «divergências às dogmáticas», não participaria numa cerimónia religiosa ecuménica. A oposição à visita papal, que se manifestara nas ruas, à chegada e antes da missa, era apresentada como sendo oriunda de um pequeno grupo cristão ortodoxo «de extrema direita», cujos membros gritavam: «o Vaticano é um agressor espiriiual».

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Os religiosos georgianos anti- Vaticano vestem como a extrema-direita europeia e os seus cartazes em inglês indicam a quem se dirigem e talvez quem os sponsoriza

O diário londrino não apresentava a visita como um fracasso, ao contrário do semanário alemão, e referia que o Papa acentuara a defesa do casamento, para agradar ao conservadorismo da igreja ortodoxa georgiana; com o mesmo fito, renunciara ao proselitismo, de que alguns ultras o acusavam. A Al-Jazeera, a cadeia de «news» televisivas financiada pelo Quatar, tinha um repórter no local, Robin Forestier-Walker, e destacou em título que  a igreja georgiana «desprezara o Papa». O odiento caia sobre  os ortodoxos georgianos, mas o Papa era derrotado, pois não conseguira evitar a ofensa. A Euronews, a cadeia de televisão que se gaba de europeia, titulava em inglês: «Na primeira visita do Papa Francisco à Geórgia, nem todos ficam contentes». A derrota papal era moderada. Já o título francês da mesma cadeia dava o Papa por moderado vencedor: «o Papa Francisco celebra uma missa ao ar livre, a Igreja Ortodoxa está ausente». O texto justificava de modo expresso a ausência das multidões pela fraca presença católica no país.

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Encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca Illia II (foto: Euronews)

The New York Times publicou o título mais favorável ao Sumo Pontífice:  «Francisco navega no terreno rochoso da Geórgia Ortodoxa»; escrito por repórteres da casa, foi também a reportagem mais documentado. O diário nova-iorquino lembrou que o Papa João Paulo II fora friamente recebido na Geórgia em 1999 e apontou o pope David Isakadze como responsável da contestação religiosa. O jornal foi dos poucos a salientar que o Patriarca georgiano Ilia II, velho e doente, saudou o Papa como «querido irmão», proferiu declarações ecuménicas e  condenou o pope contestatário. A BBC, a cadeia de televisão estatal britânica, relevou em titulo que o Papa falara para «um estádio quase vazio», alinhando entre os que  apresentavam o Sumo Pontífice como um derrotado de Tblissi.  Le Figaro, um diário parisiense, em artigo escrito por antecipação, qualificou a viagem papal à Geórgia como «assimétrica», uma palavra pouco feliz para dar uma ideia assisada: distinguir as viagens papais em país cristão das que se desenrolam em terras de outras maiorias religiosas. Zenite, um serviço informativo católico, destacou a dimensão ecuménica e deu relevo à troca de comunicações entre o Papa Francisco e o Patriarca Ilia, que a imprensa internacional ocultara com cuidado.

O Papa Francisco foi vencido na Geórgia? Esta versão é exagerada ao ponto de ser falsa. São evidentes os enganos da Secretaria de Estado da Santa Sé e da diplomacia papal: esperaram encher um estádio para 30 mil pessoas e reuniram um décimo desse número; acreditaram receber uma delegação do Patriarcado para uma cerimónia ecuménica e tiveram que se contentar com cristãos ortodoxos de base e alguns popes avulsos, que aliás o Sumo Pontífice valorizou na sua alocução – até para tirar a base às acusações de proselitismo que lhe foram dirigidas por uma minoria da extrema-direita georgiana. Os erros do primeiro tipo, sobre a participação  na missa, talvez fossem evitáveis se a Secretaria de Estado soubesse da existência da ciência social e distinguisse entre estimativas de 20 mil católicos na Geórgia e as suas próprias, cinco vezes mais elevadas (por certo um simples somatório dos batizados). E se soubesse avaliar a capacidade de mobilização religiosa católica, em véspera de eleições políticas gerais. O segundo tipo de erros mostra que a diplomacia vaticana não agarra o große Spiel contemporâneo e a ele voltaremos. Aqueles erros tiram brilho à viagem e deram pretexto para a campanha de imprensa mas o Papa dialogou na realidade dos factos com o Patriarca Ilia II, valorizou o papel ecuménico da «túnica de Cristo», uma relíquia georgiana  – e não é a primeira vez que não há avanços neste diálogo entre o ocidente e o oriente do cristianismo. Quando Der Spiegel refere «tensões» entre as duas igrejas, está a enganar os seus leitores: as tensões eram o aspeto menor de uma colaboração que lhes foi ocultada.

O episódio vale também para mostrar quão frágil é a popularidade lançada pelos mass media. É a televisão que populariza o Papa Francisco, não é o Papa Francisco que populariza a televisão. Como a imagem de Francisco é forte, conseguiu desta feita evitar a lógica do «pensamento  único» que hoje domina a cena europeia e norte-americana.  Mas, no primeiro embate, só em parte o evitou.  No curto prazo, os meios de comunicação social eclesiásticos pouco podem face aos do Estado e, mais genericamente, aos mass media.

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Mapa político do Cáucaso (fonte: Wikipedia)

Até agora não falámos de política. As divergências religiosas entre o catolicismo e a ortodoxia (que vêm desde o Credo dos Apóstolos) são mais do que suficientes para explicar o que se passou  na Geórgia. Mas os incidentes são passíveis de uma leitura política e geoestratégica. Como o leitor recorda, a Geórgia foi desde o final do século passado alvo de duas secessões, ambas apoiadas pela Rússia, a Ossétia do Sul e a Abcásia. A atual classe dirigente georgiana conseguiu entrar para o Conselho da Europa (1999) e, com menos êxito, tem batido à porta da União Europeia e da NATO, a aliança militar euro-americana. Por isso, tanto o chefe de Estado como o Primeiro Ministro georgianos receberam o Papa de braços abertos e desautorizaram de modo expresso as críticas hiperminoritárias que lhe foram dirigidas. O Presidente da República participou mesmo na famosa missa do estádio. O Papa reconheceu-lhes a «soberania» mas, como também pretende reforçar o diálogo com o Patriarcado de Moscovo, não falou em «invasão russa», a frase preferida em Tbilissi. Por causa deste contexto, devemos perguntar se a derrota imaginária do Papa Francisco não é necessária a Der Spiegel  para atacar o Patriarcado da Geórgia – e, por via dele, o Patriarcado de Moscovo, que com ele mantém boas e complexas relações. Porque a Alemanha está em conflito armado com a Rússia na Ucrânia. É curioso que a  posição mais parecida com a de Der Spiegel tenha sido a  de Al-Jazeera. É sabido que que a Rússia não é dos Estados mais polares entre os emiratos do Golfo. Terá a diplomacia vaticana, ao preparar a visita do Sumo Pontífice à Geórgia,  equacionado este große Spiel e  as suas relações com os mass media?

 *

Endereços dos artigos acima comentados

http://www.spiegel.de/panorama/gesellschaft/franziskus-papst-predigt-in-georgien-vor-leeren-raengen-a-1114878.html

https://www.theguardian.com/world/2016/oct/01/pope-francis-addresses-small-crowd-of-3000-at-service-in-georgia

http://www.aljazeera.com/news/2016/10/orthodox-church-snubs-pope-francis-georgia-161001161658569.html

http://www.euronews.com/2016/09/30/pope-francis-takes-first-trip-to-georgia-but-not-everyone-is-happy

http://fr.euronews.com/2016/10/01/georgie-le-pape-francois-celebre-une-messe-en-plein-air-l-eglise-orthodoxe

http://www.nytimes.com/2016/10/02/world/europe/pope-francis-georgia.html?_r=0

http://www.bbc.com/news/world-europe-37530407

http://www.lefigaro.fr/actualite-france/2016/09/29/01016-20160929ARTFIG00388-le-pape-francois-en-georgie-et-azerbaidjan.php

https://zenit.org/?l=portuguese

 

 

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One Comment leave one →
  1. Outubro 4, 2016 2:59 am

    Um sacerdote enviou a Estado e Igreja o comentário seguinte:
    «Saúdo a peça relativa à visita do papa Francisco à Georgia. Segui o
    acontecimento na sua totalidade através da internet. Foi o que os
    jornais em geral relataram. As leituras é que revelam um
    desconhecimento da história , o que é sempre um handicap quando se
    quer fazer um juízo valorativo , escondem intenções de mau espírito ,
    próprio de um jornalismo “à la mode” e sobretudo omitem a coragem e
    humildade de Francisco fazendo o que mais ninguém se dispõe a fazer,
    mesmo quando enchem a boca com palavras sonantes, como paz, diálogo,
    ecumenismo, proximidade, etc. Senti-me impelido a rezar com Francisco
    e partilhei dos seus sentimentos naquela visita, quaisquer que eles
    fossem. Um jornalismo que minimiza o que é grande……perde tempo e
    não sabe o que anda a fazer.»

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