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Estado e Igreja no Verão: Segurança e Casamentos religiosos

Agosto 22, 2016

 

CasamentoReligiosoemMaçasdeDonaMaria

Casamento religioso: ontem como hoje, um fator de segurança

Estamos no verão. O verão é a estação dos casamentos.  Muitos dos nossos casamentos são católicos. Os casamentos celebram-se  na igreja paroquial pois os bispos, ao menos em Portugal, insistem nessa localização (o que desagrada aos promotores de palacetes para bodas que atraem clientela acenando-lhe com a capela do edifício, onde, evitando a dupla deslocação,   a cerimónia católica se realizaria e não realiza claro devido à citada posição episcopal, tantas vezes desconhecida dos noivos).

O Estado segue tática diferente da Igreja Católica, pois autoriza o funcionário do registo civil a celebrar o matrimónio bem longe da respetiva conservatória – desde que seja adequadamente remunerado,  o que parece da mais elementar justiça comutativa.

A Igreja Católica não troca a celebração na matriz paroquial por um estipêndio. Porque pretende valorizar a paróquia e o seu local sagrado. Há outras razões para essa atitude. No caso, o ponto é lembrar que ela adensa a malha administrativa que serve o território, aproximando-a do cidadão. É sabido que a Igreja só com extrema dificuldade extingue paróquias e repugna-lhe deixar sem pároco áreas extensas de território contíguo, ainda que escassamente povoado. Nestes casos, prefere usar extensivamente o seu pessoal eclesiástico e confiar várias paróquias de modelo tradicional a um mesmo pároco.

Esta tática eclesiástica é benéfica para a organização política pois reforça a ocupação do território e mantém laços de vizinhança e proximidade que aumentam o conforto social, se é que não aumentam a segurança social. Em França, é um lugar comum afirmar-se que o  Front National  aumenta a sua votação porque desaparecem as estruturas administrativas no escalão da freguesia: o jardim infantil, a escola do básico, a estação dos correios, o posto da segurança social, a dependência bancária acompanham a desertificação demográfica e aceleram-na, aumentando a angústia dos que não emigraram. Angústia social mas também securitária: a desaparição das administrações periféricas  causa o receio mais ou menos consciente de invasões demográficas.

Quem diria que os casamentos católicos surtiam aqueles indiretos efeitos securitários?

*

A foto foi recolhida em

http://quintaisisa.blogspot.pt/2016/01/macas-de-dmaria-casorio-da-familia-de.html?view=magazine

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  1. Agosto 23, 2016 12:19 am

    Estado e Igreja recebeu correspondência de quatro leitores, que partilha de seguida.

    Um militante cristão do setor social, escreveu: «O comentário que fez sobre o casamento religioso-católico fez-me recordar algumas reflexões antigas sobre o desenvolvimento local; tenho grandes apreensões acerca do seu futuro, com reflexos negativos no futuro do desenvolvimento humano. Estado e Igreja partilha essas interrogações. No relativo ao tipo de igreja, vale a pena anotar que os ismaelitas, para o seu grande centro de peregrinações na cidade de Najaf, no Iraque, se inspiraram do modelo dos novos templos protestantes dos Estados Unidos, grandes unidades arquitetónicas multifuncionais.

    Outras cartas tinham por objeto a matéria das licenças matrimoniais. Um sacerdote, com responsabilidades na administração diocesana, escreveu: «Há leituras e leituras…há paróquias e paróquias…há leis e cânones…há verdades e mentiras…há golpes e golpadas…há iguais e desiguais…Está tudo muito baço.»

    Uma leitora, católica ativa e conhecedora destes meandros, escreveu: «Se é verdade que o casamento na paróquia de um dos nubentes é a generalidade dos casos, também é verdade que na igreja católica o dinheiro abre algumas portas mais exclusivas, sobretudo se uma das famílias tem um amigo ou um familiar padre, que celebre a boda. Quanto às capelas particulares em quintas que, para sobreviverem e/ou se rentabilizarem, se abrem à organização de eventos, aí só podem ser celebradas bodas dos donos da casa e seus descendentes.» Estado e Igreja teve apenas por objeto a norma para as licenças quanto ao local do casamento, norma essa que continua por certo a ser cumprida na maioria dos matrimónios, como aliás a leitora reconhece, e não pretendeu proceder a uma análise social da atribuição dessas licenças. Estado e Igreja anota que se referiu a empresas de eventos e não a famílias que recorrem a eventos para manterem a sua casa tradicional.

    O sacerdote conhecedor da administração diocesana e a católica ativa levantavam ambos, com maior ou menor clareza, a questão do relacionamento da Igreja Católica em Portugal com a administração dos sacramentos, no caso do matrimónio. Estado e Igreja apenas anotou que a Igreja Católica , ao manter a regra do casamento na paróquia de um dos nubentes, renunciava a maximizar as receitas do matrimónio mas não escrever que renunciava a obter receitas da celebração dele, nem tentou analisar o comportamento económico das dioceses a este respeito.

    Outro leitor, simpatizante do cristianismo, admirador do Papa Francisco, e bem informado da vida católica, narra o episódio de um bispo que cortejou um determinado cidadão, enquanto ele lhe deu acesso a um valioso mecenato, e o deixou cair quando esse acesso deixou de funcionar. Pergunta se esse comportamento é cristão.

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