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Turquia: A Irmandade Muçulmana desiludir-nos-á outra Vez?

Agosto 7, 2016

 Erdogan

Veremos de novo este filme?

Ontem, o presidente Erdogan, da Turquia, promoveu em Istambul uma gigantesca manifestação de apoio e prometeu restabelecer a pena de morte, se o Parlamento e o povo quisessem. Erdogan convidou para a manifestação dois partidos da oposição, mas excluiu  o partido curdo apesar de este gozar de representação parlamentar. É reincidir nos erros partidaristas do passado – e brincar à unidade nacional, mas apenas otomana e não turca.

Erdogan está a aproveitar a repressão do falhado (e provocado?) golpe militar de 15 de julho para começar a estabelecer na Turquia um Estado de partido único e para firmar o seu poder pessoal. Os seus ataques ao antigo aliado, um teólogo e dirigente religioso islâmico Fethullah Gülem, exilado na Pennsylvania (EUA), lembram os de Staline a Trotsky, nos anos 1930. Se a Turquia restabelecer a pena de morte, condena-se a não entrar na União Europeia (UE). Por isso,  a agir assim, condenar-se a regressar à Ásia central – onde por certo será mal recebida. Erdogan apresenta esta velha posição da UE com uma imposição ditatorial dos europeus, que abusam da pobre Turquia e deixam os EUA, a China ou o Japão terem a pena de morte (deixar, deixa, mas nenhum destes países pediu para aderir à UE).

Esta tática é preocupante. Na Turquia, a Irmandade Muçulmana parecia respeitar o seu programa de coexistência entre o Islão do Médio Oriente e um Estado de Democracia representativa moderno. Há anos, no diário Público¸ Jorge Almeida Fernandes aventou que aquele partido seria uma Democracia Cristã europeia dos anos anos 1950 aclimatada ao gosto  do Médio Oriente (na Índia ou na Indonésia, o Islão é numeroso mas minoritário e convive bem com o Estado de Direito). Uma Irmandade Muçulmano tipo Democracia Cristã seria por hipótese um caminho do mundo áraboislâmico para a modernidade política e para a paz.

A Irmandade Muçulmana seria uma solução para um  grande problema europeu no capítulo das relações do Estado com as Igrejas: conseguir que o mundo áraboislâmico (os turcos não são árabes),  entrasse no Estado de Direito. As primeiras esperanças foram perdidas no Egito, por ocasião da defunta Primavera Árabe: com menos de um quinto dos votos, a Irmandade Muçulmana quis ter o poder todo do Estado. Teve mais olhos do que barriga. O que precipitou o golpe militar do general Sissi e a enérgica (mas coibida) repressão que se seguiu.

Estará o erro dos Irmãos Muçulmanos egípcios a ser repetido na Turquia?  O novo duce turco ainda não passou o Rubicão que conduz ao golpe de estado Islâmico. Talvez não: se o golpe de 15 de julho lembra os nossos 16 de março e 11 de março, Erdogan lembra Marcelo Caetano: fala grosso mas não sabe o que quer. Caetano gritava «África!» e queria dizer «Europa». Erdogan grita «Pena de morte!» e quererá   dizer«Europa». Veremos se Erdogan nos resolve o problema ou se teremos nós que resolver o problema de Erdogan.

*

Uma interessante interpretação portuguesa do golpe turco de 15 de julho em

https://www.publico.pt/mundo/noticia/turquia-autopsia-de-um-golpe-falhado-1739460

 

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