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Padre degolado em França por Daech/Isis: Qual é o Inimigo?

Agosto 1, 2016

PadreHamel

Jacques Hamel, o padre degolado a semana passada por um terrorista islçâmico

O Pe Jacques Hamel, de 85 anos, que prestava serviço numa paróquia da Normandia (França, foi a semana passada degolado quando rezava missa no seu altar.  O revoltante  crime foi reivindicado pelo Daech/Isis, uma organização terrorista islâmica que domina largos territórios da Síria interior, com os métodos de um totalitarismo pré-industrial.

O Daech/Isis reivindicou o crime.  Parece redundante perguntar qual é o inimigo. Aquela organização está a perder o controle do seu território, desde que a Rússia de Putin  ajudou a Síria de Bachar-al-Assad, e dentro em breve será forçada a terminar a sua atividade criminosa. Há mesmo quem diga que a recente vaga de atentados, por ela promovida, é o estertor do criminoso moribundo. Sairá a causa, ficarão os efeitos. A pergunta não é pois redundante.

Tentemos ver um pouco mais além. O Estado francês  manifestou-se logo: segundo o seu discurso oficioso, quis descoroçoar os assassinos, impedindo-os de conseguir o seu propósito de lançar cristãos e muçulmanos uns contra os outros. Só que isso era desnecessário, pois cristãos e muçulmanos franceses vivem em paz e razoável cooperação.  Se queria o que dizia, o governo de Paris bem podia ter-se dispensado de atuar. Por certo o governo francês receava outro inimigo: receou que os cristãos respondessem ao assassinato com uma nova cruzada. Ou, se não quisermos ser tão crus: receou uma nova guerra de religião, por iniciativa cristã. Outro erro.

O Papa Francisco, nas suas palavras sobre o caso,  não referiu a dimensão de marírio de um sacerdote no altar, afirmou a necessidade de boas relações entre católicos e muçulmanos. Quis afirmart a fraternidade das religiões. Partindo de outros pressupostos e por outro caminho, de algum modo convergia com os receios da República Francesa. A Igreja de França, ontem, seguiu as suas palavras, promovendo celebrações ecuménicas, onde pôde.

É inverosímil supor que os católicos franceses comecem hoje uma guerra ao Islão. Isso ocorre em escala mínima em algumas cidades de algumas antigas colónias francesas de África, na fronteira móvel entre a África cristã e a muçulmana. Mas não à escala universal. Muito menos na Europa. Pelo menos de momento, Paris ainda não é Bamako.

O perigo não nasce nas religiões, nasce do Estado. O inimigo é outro e bem menos aparente:  o restabelecimento do cristianismo como religião de Estado. Se a ideologia da laïcité  falir em França, a que recorrerá a terra de Joana de Arc, no plano simbólico? Ao Estado cristão. Afirmações cristãs de direta ressonância estatal começam a pulular pela Europa, em particular a de leste, que se sente mais ameaçada pela imigração de populações islâmicas. Na Europa do oeste, por trás do chamado populismo ou extrema-direita, está o receio dos imigrantes e os imigrantes são na sua maioria muçulmanos.  Por isso, o biombo do populismo esconde uma oposição potencialmente ao Islão. Se as soluções em curso falharem, a que se recorrerá?

O inimigo não é a guerra de religiões, movida pelos cristãos, ou pelos muçulmanos como um todo,  é a transformação do cristianismo em religião de Estado. A receita para evitar esse perigo não é a laïcité, que é um produto tipicamente francês, de eficácia por provar no caso. A receita é a separação colaborante do Estado e das Igrejas.A modernização da Igreja de Estado é, no plano internacional, a «guerra das civilizações», para cujo risco alertava Samuel P. Huntington, e no plano interno uma autocracia mais ou menos domada. Os totalitarismos nascem do medo. Por isso, o nosso maior inimigo é medo que pode conduzir ao fim da separação entre o Estado e as Igrejas, pedra basilar das liberdades contemporâneas.

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One Comment leave one →
  1. Agosto 2, 2016 8:57 pm

    Uma leitora de Estado e Igreja enviou o seguinte comentário, que agradecemos e partilhaos com os leitores:
    «Racismo português? Não. Complexo de inferioridade permanente. Estive em Paris no dia seguinte ao jogo e até fui insultada no Centro Publicis quando comprava jornais. Falava com uma amiga portuguesa. Um sujeito bem vestido abordou – nos apenas para nos dizer que ODIAVA o Feder, que eu na altura, nem sabia quem era
    «Racismo português??? Coitadinhos dos franceses»
    Que diria a leitora de de alguém que dissesse: «sou tão virtuoso que não necessito de proceder a um exame de consciência diário». Teria a certeza que esse alguém precisava de um exame de consciência diário- O objetivo do post comentado não era analisar o racismo dos portugueses. Mas mesmo assim, deixemos uma pergunta: temos hoje em Portugal cerca de dez por cento de população alogénea. Haverá dez por centos de alogéneos em função de direção, quer no Estado quer na chamada sociedade civil? Claro que esse valor é muito inferior a dez por cento, pois empiricamente parece tender para zero. Se não houvesse racismo, seria esse o resultado: uma distribuição probabilíistica dos indivíduos pelas funções de poder, sem atender a raças e culturas. Aliás, o amável comentário não demonstra a tese sugerida: demonstra, sim, o chauvisnismo dos franceses.
    .

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