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Terror fundamentalista islâmico: fechar as Fronteiras é desconhecer o Inimigo

Novembro 15, 2015

ParisNoite

Os ataques terroristas de sexta feira passada localizaram-se no eixo da vida noturna parisiense (dentro da linha amarela) – mais o estádio nacional (acima à direita). Um fim de semana em cheio para o jovem magrebino perversamente francizado (para aumentar o mapa, clique sobre ele)

Sexta feira à noite, um ínfimo número de terroristas ligados ao Exército Islâmico (também conhecido por Daech e ISIS) durante algumas espalhou impune o terror pelas ruas de Paris, matando 132 pessoas e ferindo mais de 300. O governo de Paris fechou as fronteiras. Esta medida é ilusória e revela que as autoridades são incapazes de diagnosticar a situação e de identificar o inimigo.

A melhor prova desta incapacidade europeia em geral e francesa em particular é os serviços de informação estratégica, apesar do que há algumas semanas ocorre no Líbano, não terem detetado que o Exército Islâmico tinha mudado a sua estratégia para levar o terrorismo ao exterior, e que os serviços de informação/policiais não detetaram no terreno o ato terrorista de sexta feira: «continua a ser pouco claro como é que uma conspiração de tamanha sofisticação e letalidade pôde ter escapado às agências de informação, tanto em França como nos outros países», comenta o New York Times. Talvez o caso seja mais grave. O desbocado primeiro ministro francês, o Sr. Manuel Valls, que se celebrizou a perseguir os ciganos franceses, disse ontem na televisão que estava informado dos atentados de sexta, o que, a ser exato e não apenas mais um exagero dele, revela a ineficácia do governo de Paris e absolve a eficácia dos barbouzes.

Fechar as fronteiras significa que o inimigo é exterior. Ora o único terrorista seguramente identificado até ao momento da redação do presente post, o Sr. Ismaël Omar Mostefaï, é um francês de Courcouronnes, uma localidade situada cerca de 30 quilómetros a sul de Paris. Parece provado que os terroristas estavam ligados a uma rede belga (a nacionallidade suposta da putativa mãe não é do caso, mas é supereuropeia). Talvez haja alemães metidos no crime. No meio das vítimas, alguém fez aparecer logo no sábado um passaporte sírio, de alguém recentemente imigrado, e um passaporte egípcio, mas ignoramos se se trata de encenação policial ou de um de um elemento marginal à organização terrorista. A organização terrorista de sexta feira é formada por europeus, na sua maioria franceses e situa-se no coração da Europa, ainda que invoque como motivação e razão o islamismo radical. Já o mesmo acontecera aliás no ataque ao Charlie Hebdo: os terroristas eram franceses.

A quase totalidade dos atores políticos atribui o horrendo ato terrorista em Paris ao islamismo radical. O Presidente Hollande incriminou por ele os «bárbaros do Daech». O arcebispo de Paris, cardeal André Vingt-Trois, atribuiu-o a «grupos fanáticos». O Papa Francisco afirmou que não há justificação para esses atos, «nem religiosa, nem humana». Ainda que indiretas, são claras as referências ao radicalismo islâmico. Hillary Clinton foi mais clara: a causa do atentado está na «ideologia ‘jihadista’ radical que motiva organizações como o Estado Islâmico (EI), um grupo terrorista violento, bárbaro, impiedoso». A única exceção é o Presidente Obama, que atribui o crime ao «terrorismo e extremismo», sem referir a religião, mas a omissão talvez seja atribuível à precocidade da declaração. Mais tarde, no G20, lá falou no Daech.

Será assim? Qual o papel da religião e, como diz Obama, do «extremismo»? O grande alvo do ato de terror foi o Bataclan. Este alvo é assinatura dos responsáveis; revela a sua identidade e motivações. O Bataclan foi durante anos e anos a discoteca in de Paris. É o sonho de divertimento de fim de semana dos jovens parisienses em ascensão social que, frequentado-o, bebem uns copos e ao mesmo tempo se sentem dignificados por subirem na vida. Embora na realidade da escala social tenha baixado nos últimos anos, o Bataclan continuou a ser o sonho dos jovens (magrebinos) das «banlieues», do Grande Paris, aos quais o Estado francês ofereceu uma instrução primorosa e ao mesmo tempo recusou a integração social, isolando-os por razões xenófobas e raciais. Aliás, o circuito dos atos terroristas corresponde à área de divertimentos noturnos na moda em Paris, mais o futebol, outra dimensão do sonho/pesadelo magrebino em França (ver o mapa inicial).

É esta a origem do terrorismo que ameaça destruir a França. O Estado francês criou em França uma contra elite magrebina à qual promete e não dá, à qual mostra as maravilhas da sociedade de consumo, mas que humilha porque lhe recusa a identidade francesa. Esta mistura é explosiva e a leitura radical terrorista do Islão é apenas o fósforo que incendeia a pradaria. Porque ninguém gosta de ser maltratado. As 132 mortes francesas foram consideradas necessárias pela tal contra elite magrebina na Europa para aniquilar o falhado sonho europeu que uma organização política lhe instilou, devido ao fascínio do dinheiro, mas sem lhes dar nem deixar ter uma identidade. Os jovens magrebinos radicais franceses destruíram na sexta feira esses símbolos do prazer e da riqueza europeus e disseram aos europeus amados/invejados/odiados: «instruíram-nos, recusam-nos a nova identidade para a qual nos instruíram, e nós conservamos a nossa identidade, superior à vossa, por isso odiamo-vos e destruir-vos-emos». Ora a identidade social (chamemos-lhe civilização, filosofia, maçonaria, cultura, democracia, chamemos-lhe seja o que for) é a religião. Por isso sem religião (isto é: sem identidade) não venceremos o terrorismo. A origem do terrorismo não está no estrangeiro, algures entre o deserto árido e a selva tropical, está no nosso interior, nas nossas almas e nas fissuras da nossa identidade política.

Dito de outro modo: três séculos de secularização mostram ser inexistente uma política sem religião, isto é, sem identidade.

*

O texto acima insiste sobre o fecho das fronteiras, dada a topologia do presente blog, consagrado às relações Estado e Igreja, e não aos problemas de segurança. Mas a delicadeza do tema impõe alguns esclarecimentos adicionais, com menos respeito pelas regras metodológicas dos blogues. Uma análise na perspetiva da segurança referirá também a instauração do estado de emergência em França, um estado de exceção inaplicado desde o combate do general de Gaulle à OAS, a organização dos coronéis franceses contra a independência da Argélia, em 1961. Em termos de eficácia repressiva, este estado apenas dá a vantagem de permitir saltar por cima dos juízes independentes para efetuar buscas e prisões. Passa pela cabeça de alguém que um juiz francês recusará prender um suspeito de terrorismo se houver um mínimo de fundamento? Ou alguém pretende em França  dar desde já ao terrorismo a suprema vitória de lhe permitir inverter os nossos valores do processo penal? Aliás, a medida será inútil: a maior parte dos agentes de anteriores atos terroristas fundamentalistas islâmicos estavam já referenciados pelos serviços de informação europeus os quais, com as polícias e a organização política, foram incapazes de os neutralizar. O que também acontecera com os autores do atentado ao  Charlie Hebdo e ao supermercado kosher (judeu ortodoxo). Veremos se o mesmo não ocorre com o atentado de sexta feira. Para já, sabemos que o terrorista Sr. Ismaël Omar Mostefaï, o francês de Courcouronnes, quem sabe se de ascendência algarvia, era um velho conhecido dos serviços de informação franceses. Ontem, ao começo da noite, a própria televisão francesa (a France24) mostrava o pânico que então varreu a a praça da República. António Esteves Martins, o correspondente da RTP, dizia em direto que os polícias franceses mostravam mais medo do que os manifestantes. A França mandou ontem bombardear mais um obscuro lugarejo na Síria interior apresentado pour le besoin de la cause como a capital do terrorismo (o equivalente simbólico da invasão norte-americana do Afeganistão depois do atentado às Torres Gémeas) mas esse movimento apenas terá aumentado o medo dos franceses – bem treinados pela inépcia dos responsáveis dos seus serviços de segurança e pelos delírios da máquina de propaganda estatal. Os terroristas dominaram as ruas de Paris várias horas, sem que ninguém os tenha combatido. No terceiro dia depois dos atentados, a França ainda não conseguiu mobilizar um só soldado, apesar da pomposa e triste retórica da sua guerra contra o Dech, permanentemente repetida pelos Srs Hollande e Valls. Os polícias, que reforçaram o contingente em Paris, vieram da banlieue. O leitor compreende o medo dos franceses: é que eles também vêem televisão.

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2 comentários leave one →
  1. maria Belo permalink
    Novembro 16, 2015 11:01 am

    É um texto muito forte, como o seguinte sobre a Síria. Só não percebo porque diz que a identidade social é a religião. neste caso? Ou sempre? Maria Belo

  2. Novembro 16, 2015 1:56 pm

    O Economista Português agradece o comentário da doutora Maria Belo e procura a seguir responder à sua pergunta. Tradicionalmente, a religião identificava uma dada organização política, pois os deuses eram da tribo ou da cidade. Por isso Roma obrigava os seus súbditos a jurarem lealdade ao imperador divinizado – e sabemos os conflitos que essa exigência provocou com os cristãos. O cristianismo é por certo a primeira religião que recusa a identificação étnica e também por isso Marcel Gauchet o qualificou recentemente como «religião de saída da religião». No campo da ciência social, Émile Durkheim o caraterizou a religião primitiva como a identidade social.. É a religião que diz o eu da organização política. Numa teoria trifuncional da organização social, inspirada em Platão e Aristóteles, a religião é o elemento simbólico da organização política, em interação com os outros dois elementos estruturais de qualquer organizaçãom política: o securitário e o reprodutor. O que identifica uma da organização política não são as armas de que dispõe (elemento segurança) nem as mercadorias em circulação (elemento reprodutor) mas sim as suas crenças a respeito de si própria (elemento simbólico), o eu social: se este se avaria, a organização política avaria-se. Em larga medida por influência do cristianismo, o elemento simbólico deixou de ser, ou de ser apenas as a religião tradicional, e passou a ser aquilo a que Gabriel Almond e Sidney Verba, num livro célebre, chamaram «a cultura cívica».

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