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Havana e Nova Iorque: o Papa Francisco em torno do Intransigentismo

Setembro 28, 2015

PapaFranciscoHavanaNovaIork

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Emile Poulat, o grande historiador francês do catolicismo (1920-2014), desenvolveu o conceito de intransigentismo católico: seria a intransigência face ao mundo moderno, assente no reforço do dogma e na recusa das instituições políticas modernas, em particular da democracia representativa. Era uma corrente reagindo contra a Revolução Francesa e recusando qualquer concessão à sociedade moderna por real ou supostamente contrariar o dogma. O intransigentismo abjurava o laicismo, isto é, o afastamento do catolicismo da esfera pública pelo uso da força do Estado. O nosso miguelismo, até aos anos 1850, seria um bom exemplo desta atitude. O mesmo já não se diria do tradicionalismo português que, sem concessões quanto ao dogma, sempre foi plástico no relativo às instituições políticas e em geral patriota, se não nacionalista.
Hoje, um dos aspetos mais visíveis dele será a recusa da comunhão aos divorciados. Parece evidente que o Sumo Pontífice não se sente confortável com essa recusa, seja qual a posição que a seu respeito cada um de nós tome (Estado e Igreja não se pronuncia sobre assuntos de fé ou de dogma). E por isso os católicos intransigentistas nem sempre se sentem confortáveis com o Papa Bergoglio.
Podemos encarar a triunfal visita de Francisco à Cuba comunista e aos Estados Unidos capitalistas como uma vitória da autonomia da religião no século XXI e um triunfo pessoal. A sua estratégia temática nesta visita é interpretável como uma tentativa de tornear o intransigentismo. O Papa preparou-a de longe lançando uma encíclica substancial sobre a ecologia, que desbravava terreno novo e o benquistava com o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; arvorando a bandeira ecologista, o Papa era moderno sem poder ser acusado de modernista. Antes condenara sem sofisma os padres pedófilos e impusera que fossem castigados (sort of). No estado atual de Cuba, a visita pontifícia não é nenhuma nova «apertura a sinistra», é a vitória da diplomacia papal. Há uns anos, poucos diriam que o Papa, um Papa, conseguiria congraçar o comunismo cubano e o capitalismo americano. Num certo sentido, era uma inesperada vitória do intransigentismo. Os triunfos do catolicismo no século, que alguns vêem também como triunfos sobre o século, desmentem o laicismo e sempre agradaram aos intransigentistas. A visita americana destinar-se-ia a abrir caminho ao Sínodo sobre a família? Porque continuar a recusar a comunhão aos divorciados será mal visto pela sociedade atual e nesse sentido será o contrário da sinal da visita americana americana.

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2 comentários leave one →
  1. Rodrigo Meireles permalink
    Setembro 28, 2015 9:31 am

    Uma leitura lúcida e cuidada sobre a reabertura da Igreja e do Papa Francisco aos “sinais dos tempos” proclamados pelo Concilio Vaticano II, e pelo antecessor Papa João XXIII e logo “esquecidos”, e que são agora reactualizados.

  2. Setembro 28, 2015 4:33 pm

    Estado e Igreja recebeu alguns comentários, que a seguir partilha com os leitores.
    Um dirigente leigo escreveu-lhe: « Ainda bem que abordou a «recusa da comunhão», no quadro do «intransigentismo». Na verdade, essa recusa – que vai ser muito difícil ultrapassar – baseia-se em insuficiências várias, nomeadamente de: interpretação teológica de textos bíblicos; conhecimento da realidade, no que se refere à vida matrimonial e à própria dignidade humana; consciência das dimensões mais profundas e pessoais – ou misteriosas – da relação com Deus…Aguardemos com alguma esperança… apesar de tudo.»

    Um sacerdote, antigo assistente da Acção Católica, escreveu o seguinte:
    «Quanto à leitura das visitas do Papa Francisco, alinho com o essencial
    do que dizes. Mas acho que a situação da Igreja/mundo não é fácil de
    análise nem se conforma com preto/branco…sim/não.. Talvez haja
    “sinais” , que, a prazo, podem vir a ser facilitadores para uma
    leitura mais clara do que se vai passando, à volta do carisma de um
    Papa, convenhamos, diferente.»

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