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O Islão precisa de um Reformador tipo Lutero ou Calvino?

Abril 6, 2015

Ayan Hirsi Ali

Ayaan Hirsi Ali

Ayaan Hirsi Ali publicou recentemente um extenso artigo no Wall Street Journal sustentando que o Islão necessita de uma reforma como o catolicismo e o judaísmo conheceram. A ideia é apelativa, sobretudo para um público protestante.

Essa reforma consiste basicamente em emendar cinco pontos:

> O estatuto semidivino de Maomé, assim como a leitura literalista do Corão;

>> A supremacia da vida depois da morte;

>>> A Xária, a legislação canónica;

>>>> O direito de os muçulmanos individualmente considerados aplicarem a lei islâmica;

>>>>> O imperativo de desencadear a jiahad, ou guerra santa.

Ayaan Hirsi Ali é uma personalidade conhecida; vive hoje nos Estados Unidos, para onde foi dos Países Baixos, onde era deputada ao Parlamento e asilada política, um asilo que deu brado; nasceu na Somália eem 1969 e a sua família teve que emigrar por razões político-religiosas.
A autora distinge três tipos de muçulmanos:
• Os de Meca, pois em Meca o Profeta não forçava conversões;
• Os de Medina, que forçam conversões, embora aceitem o estatuto de caput diminutio para judeus e cristãos, como o Profeta faria  quando tomou conta do governo de Medina; para eles, impor a Xária é um dever religioso;
• Os reformadores, solicitando ela não ser considerada apóstata ou infiel e apenas como «herética». Segundo a autora, os muçulmanos de Meca, a vasta maioria, sentem-se pouco à vontade perante a pressão dos de Medina, que legitimam a sua ação com os textos do Corão.
Estes três grupos disputam a legitimidade para invocarem a Chahada, o primeiro dos cinco pilares do Islão: «’testemunho que não há nenhum Deus além de Allah e que que Maomé é o seu Profeta (mensageiro)’». Para a autora, a chahada é ao mesmo tempo um credo religioso e político.
Segundo ela, o judaísmo e o cristianismo ultrapassaram a interpretação literalista dos seus textos fundadores, que apelam à violência, hoje confinada a minorias irrelevantes, o que não ocorreu com o Islão; escreve ela : «os assassinos do Estado Islâmico e do Boko Haram da Nigéria citam os mesmo textos religiosos que os restantes muçulmanos pelo mundo foram consideram sacrossantos». A autora afirma ainda: «O Islão não é uuma religião de paz» porque «a apelo à violência e a sua justificação são explicitamente afirmados nos textos sagrados do Islão». Em abono da sua tese, cita dados sociais: as guerras e atos terroristas atuais  com intervenção do Islão são desproporcionadas quando comparadas com o peso daquela religião na população mundial.
Ayan Hirsi Ali é uma personagem controversa; numerosos muçulmanos consideram-na ateia, classificação que aliás consta da biografia que a Wikipedia lhe atribui; ser ateia não lhe retira autoridade inteletual, mas, para os muçulmanos, rouba-lhe autoridade religiosa. Não é possível analisar na presente sede aquelas teorias. Anotemos que os cinco pontos a reformar nem sempre oferecem uma compreensão rigorosa e são mais teológicos do que sociais; a sua classificação de muçulmanos não gera unanimidade; o ponto fundamental é que ela estabelece um nexo de causalidade entre os textos religiosos e a prática social: a Bíblia reformada seria mais pacífica do que a católica; ora esta tese é falsa: os católicos reviram os textos religiosos em menor escala do que os evangélicos, se é que os reviram, mas não são mais (nem menos) terroristas do que eles. Aliás, é ingénuo supor que o Estado e a Igreja se separaram na Europa devido à ação exclusiva da reforma religiosa: Filipe o Belo, rei de França, nacionalizou os Templários contra a opinião do Papa; os reis portugueses da Idade Média alimentaram numerosas querelas com a Santa Sé – e agiram em nome de poderes seus, estatais, e não em nome da religião. Afonso Costa acentuou muito este tópico.  Por outro lado, tem havido numerosos reformadores no Islão; o «Livro Verde» do defunto coronel Khadafi, e o resto da sua obra literária, lembra a reforma de Lutero (cortando com a tradição, para só aceitar o ensino da Sagrada Escritura) e a Bíblia de Jefferson – mas os seus resultados não são os que a teoria da autora requereria.  A questão está em descobrir um lugar para os religiosos nas organizações políticas contemporâneas. Este problema coloca-se do mesmo modo que em relação aos revolucionários defensores de uma ação violenta: a defesa intelectual da ação violenta é liberdade de expressão de pensamento, o que é protegido pela lei; a prática da ação violenta, essa é punida pela lei. Se a religião muçulmana conduzir à violação da lei, essa violação deve ser punida; se não conduzir, é indiferente ao Estado o seu conteúdo.  O que em nada  singulariza o Islão entre os eventuais violadores da lei. Mas, dado que o artigo de Ayan Hirsi Ali coincide com uma nova inversão de alianças islâmicas de Washington – abandonarem os sunnitas da Arábia Saudita para regressarem à aliança com os xiitas, dos tempos deo Presidente Bush –, é caso para pensar se o momento da publicação do artigo não sinaliza uma mudança nas prioridades do governo dos Estados Unidos: até agora, os Estados Unidos contrapõem o terrorismo fundamentalista islâmico ao resto do Islão, que encaram com a esmagadora maioria do crentes naquela religião; exigirão agora que as difentes comunidades islâmicas assinem uma declaração de reforma religiosa muçulmana?

*

O texto integral de Ayan Hirsi Ali está em :
http://www.wsj.com/articles/a-reformation-for-islam-1426859626?mod=WSJ_hp_Europe_EditorsPicks
Biografia da autora:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ayaan_Hirsi_Ali
Recensão de um livro recente da autora
http://www.nytimes.com/2015/04/05/books/review/ayaan-hirsi-alis-heretic.html?ref=books&_r=0

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2 comentários leave one →
  1. Soares Loja permalink
    Abril 13, 2015 1:08 am

    O que Ayan Ali parece não ter deixado claro é que Medina é o marco da afirmação de um movimento político-religioso que se impôs pelo uso sistemático da força. Sem Medina não haveria Islão.

  2. Abril 13, 2015 8:57 am

    Estado e Igreja agradece o conciso comentário do Dr. Soares Loja e permite-se que comentar o seguinte: se, nos planos lógico e histórico é exato que «sem Medina não haveria Islão», na história passada e presente encontramos numerosos exemplos do Islão pacífico (Índia, Indonésia, por exemplo), para não falarmos do nosso caso português.

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