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França: acabaram os Católicos de Esquerda?

Março 23, 2015

IgrejaéàDireitaCartoon

– Onde é a Igreja? Por ali, à direita. – Nada disso! Já basta de preconceitos, a Igreja é tão de esquerda como de direita (desenho de La Croix)

Em França, «já não há esquerda cristã visível e atuante em política, concluía o sociólogo da religião Jean-Louis Schlegel num livro que publicou com o historiador Denis Pelletier, A la gauche du Christ. Les chrétiens de gauche en France de 1945 à nos jours (Seuil, Paris, 2012). Nos passados dias 12 e 13 do corrente mês, um colóquio universitário no Institut d’Etudes Catholiques, de Paris, propunha-se examinar a questão.

O ano passado, o historiador Jacques Julliard dissera não saber bem o que era um católico de esquerda, embora reconhecesse a importância política do catolicismo. A questão da designação foi debatida: o historiador Vincent Soulage defendeu que «católico de esquerda» era uma designação normal nos anos do «tudo é político», as décadas de 1960 a 1980. Mais disse que esses militantes tinham conseguido uma «deslocação eleitoral dos católicos para a esquerda», sobretudo «evidente» naquelas décadas. o politólogo. Philippe Portier prefere «católicos de abertura» por oposição a «católicos de identidade». A designação «católicos progressistas» foi considerada compreensível no plano social (promoção do laicado, das mulheres). Dominique Potier, deputado do PS e um dos raros políticos interessados no tema, julga que «o cristianismo dá-se mal com os adjetivos» e que a expressão «falta ao respeito tanto ao cristianismo como à esquerda».

A ideia de abertura e de colaboração com outras políticas parece ser uma caraterística dos católicos de esquerda franceses, e alguns atribuem-lhe a causa do seu insucesso.

O politólogo Jean-Marie Donegani citou um estudo mostrando que os católicos franceses se situam tanto mais à esquerda quanto maior é o seu empenhamento na vida da Igreja. O que é tanto mais curioso quanto, nos últimos anos, os estudos quantitativos revelam que os católicos franceses se posicionam mais à direita (embora menos do que a maioria dos franceses) e que movimentos de militantes católicos naquele país adotam causas que não são tipicamente de esquerda, como o combate à «teoria do género» ou ao casamento gay.

Schlegel apresenta-os de modo diferente: cristão que votam à esquerda e interessam-se pouco pelas questões eclesiásticas.

Foi observado que numerosos católicos se opõem às políticas de utilização do corpo ou de intervenção para pôr termo à vida.

O cristianismo de esquerda desapareceu em França nos anos 1980. O Presidente François Mitterrand execrava-o e afastava-o do poder (Jacques Delors, Michel Rocard). Depois disso, os laicos institucionais cessaram os seus ataque ao catolicismo, o que contribuiu para diminuir a energia partidária da dimensão religiosa. Por outro lado, os «catholiques de gauche» tinham conseguido que o catolicismo francês, mais politizado e eleitoralmente mais à direita do que o português, se tornasse partidariamente mais equilibrado.

Uma associação, Les Poissons Roses (os peixes cor-de-rosa), pretende reavivar essa tradição, ligando-os ao PS. Não se trata aqui de elencar forças de esquerda católica francesas, mas registemos que subsiste o histórico semanário Témoignage Chrétien e que muitos movimentos sociais (a favor dos imigrados, por exemplo) são de inspiração católica.

Mais informação em

http://www.icp.fr/fr/Organismes/Faculte-de-Sciences-Sociales-et-Economiques-FASSE/Actualites/Les-chretiens-de-gauche-en-France-de-1945-a-nos-jours

http://www.la-croix.com/Religion/Actualite/Les-chretiens-de-gauche-se-cherchent-un-avenir-2015-03-16-1291689

http://www.lavie.fr/debats/chretiensendebats/cathos-de-gauche-a-gauche-d-ouverture-progressistes-20-03-2015-61431_431.php

https://colloquechretiensdegauche.wordpress.com/ (blog de apresentação do colóquio)

http://chretiensdegauche.com/ (blog «À la table des chrétiens de gauche»)

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6 comentários leave one →
  1. Feliciano Montero permalink
    Março 23, 2015 9:53 am

    Gracias por la información sobre el coloquio en el I.C. de paris sobre Los catolicos y la izquierda
    Anticipo del que se celebrara en SciencesPo en Paris el 21 y 22 de mayo, organizado por Rainer Horn, sobre el Catolicismo progresista europeo en el contexto del Vaticano II

  2. Março 23, 2015 3:33 pm

    Uma leitora enviou ao autor do blog o seguinte comentário:
    «Interessante. Parabéns. Mas, afinal, acabaram ou não os católicos de esquerda em França? Aqueles que “se opõem às políticas de utilização do corpo ou de intervenção para pôr termo à vida” são católicos à direita ou de direita? Os “movimentos sociais (a favor dos imigrados, por exemplo) são de inspiração católica” de esquerda? Este papa é de esquerda? Se a “esquerda” se define pela defesa da igualdade, solidariedade, inclusão social…Cristo é de esquerda e todo o cristianismo nas suas diversas variantes (incluindo a católica) também. O problema é a história das relações Estado/Igreja no universo cristão ocidental antes, mas sobretudo, depois da Reforma. Se a “esquerda” também se define pela defesa das questões ditas “fracturantes” poderá haver um catolicismo de esquerda? Não estará o problema nas diferentes interpretações da relação entre a fé, a religião e a moral? »
    Breve comentário de Estado e Igreja: Os «católicos de esquerda» existem em França em menor número e sobretudo com menos centralidade do que nos seus anos dourados. Os que se opõem às políticas de utilização o corpo e de pôr termo à vida talvez sejam de esquerda – por se oporem ao alargamento da mercantilização e da globalização, tantas vezes consideradas inimigas da esquerda. «Cristo é de esquerda» social, mas talvez não seja de esquerda política. Por isso houve ontem em França católicos que, que, por solidarismo, votaram no «Front National».

    • Março 24, 2015 3:46 pm

      Estado e Igreja recebeu novo comentário da mesma leitora, que agradece e reproduz:
      «É Cristo que é de esquerda social ou são os valores da esquerda social que se aproximam dos valores cristãos?
      «A esquerda social é diferente da esquerda política? Poderemos falar numa esquerda política sem valores sociais? Não serão os objectivos da esquerda política senão proporcionar os meios para a concretização dos valores da esquerda social? »
      Estado e Igreja agrade o comentário e, sempre brevemente, responde: dizer que «Cristo é de esquerda social» é uma fórmula choque para dizer que uma leitura imediata dos evangelhos sugere uma ação de redistribuição da riqueza a favor dos pobres, mas não sugere nenhuma fórmula política; aliás, é curioso verificicar que numerosas fórmulas de direita política e inspiração cristã são solidaristas e solidarismo é sinónimo de esquerda social; é claro porém que esta interpretação social-solidarista dos Evangelhos não é a única (o calvinismo não a partilha, ou não a partilha no mesmo sentido que o catolicismo) e que Cristo rejeita qualquer interpretação política do seu ensinamento, pelo menos no contexto social em que agiu, mas os seus seguidores não consideraram, pelo menos depois do Im+erador Constantino, que tivessem sido proibidos de nEle se inspirarem para a sua ação política. Esquerda política sem esquerda social será por exemplo um regime de democracia representativa sem nenhuma dimensão de redistribuição de riqueza; é outra fórmula choque, destinada a facilitar um ««thought experiments».

  3. Março 23, 2015 3:41 pm

    Um leitor escreveu ao autor do blog
    « O tema é aliciante. Como também o elenco de autores que têm vindo a
    público e ali são citados, com as suas opiniões. Nem todos com o mesmo
    valor. A questão é claramente complexa: primeiro, pelas pretensas
    “certezas” históricas, que povoam a maioria; depois, a desenvoltura
    com que se traduzem conceitos sem qualquer cuidado com a consistência
    da sua substância.»
    Estadoo e Igreja agradece e procurará por seu lado reunir mais informação sobre o assunto que se insere de pleno no seu mandato: as relações entre a política e a fé, entre o trono e o altar, como antes se dizia, entre a organização estatal e a religião.

  4. Março 23, 2015 3:44 pm

    Estado e Igreja recebeu o seguinte testemunho, que agradece:
    «É preciosa a informação sobre católicos de esquerda. Tenho reflectido bastante sobre o assunto, para cujo esclarecimento é fundamental a informação que recolheu.»

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