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O Presidente Hollande isola a Europa no Combate ao Terrorismo fundamentalista islâmico

Janeiro 18, 2015

CharlieHebdoJeSuisCharlie

A imagem acima ofende os muçulmanos, isola a Europa e reforça o terrorismo fundamentalista

Em França, o semanário satírico Charlie Hedbo e um supermercado judeu (que a comunicação social francesa designa enigmaticamente como kosher) foram alvo há dias em Paris de dois atentados assassinos e brutais por terroristas fundamentalistas islâmicos. O Sr. François Hollande, presidente da República francesa, promoveu em Paris uma manifestação mundial contra o terrorismo e, a seguir, patrocinou a difusão em França e no mundo da primeira edição pós-ataque daquele controverso semanário, reproduzida acima, e a adoção do slogan «Je suis Charlie», que passaria a ser sinónimo de oposição ao terrorismo fundamentalista islâmico. Estas duas táticas talvez favoreçam a reeleição do Sr. Hollande, que com elas passou de 17% das preferências do eleitorado do seu país para uns estonteantes 22%, mas são prejudiciais às boas relações entre o Estado e a Igreja no mundo, assim como ao combate ao terrorismo fundamentalista islâmico. Vejamos porquê.

É do domínio público que o Islão condena a representação gráfica de Deus e, por extensão, do Profeta; para um muçulmano, essas representações são blasfemas e por isso provocam uma reação de imediata rejeição. O Charlie Hebdo sabe disso e recorre por sistema a essa técnica. Que um semanário marginal a ela recorra levanta apenas um problema localizado de conciliação entre a liberdade de expressão, o respeito pela religião e os nossos interesses estratégicos, pelo que não custa a admitir que esse tipo de texto seja admitido (mas 43% dos franceses rejeitam hoje os excessos do Charlie Hebdo); que um Estado a adote como forma de demarcação face ao terrorismo fundamentalista islâmico suscita um problema de civilização e é vagamente suicida: o Estado francês não se limitou a admitir a liberdade do Charlie Hebdo (o que aliás não sucedera com a do seu antecessor, Hara Kiri jounal bête et méchant), impô-lo ao mundo como símb olo da nossa identidade. Está aqui o problema. Com efeito, o uso dessa técnica separa da Europa todos os crentes muçulmanos do mundo, que se sentem ofendidos e desrespeitados por nós, e coloca os terroristas fundamentalistas islâmicos em defensores da fé muçulmana face a um Estado que não a respeita – que é precisamente a posição que eles reivindicam. Por isso, Irão, Paquistão, muçulmanos africanos já começaram manifestações contra nós e indiretamente a favor daquele tipo de terrorismo. Estas manifestações anti europeias eram aliás previsíveis. Ora, só conseguiremos esmagar o terrorismo isolando-o da sua base muçulmana. O Sr. Hollande alargou a base social do terrorismo no mundo islâmico, reforçou-o e isolou-nos a nós.

O slogan «Je suis Charlie» cobre apenas a liberdade de expressão do pensamento sem qualquer limite. O que é triplamente criticável.

  • Primeiro: a liberdade de expressão, como qualquer direito, tem limites. Ora o slogan significa a liberdade de expressão sem limites, ofendendo religiões e homens. O Papa Francisco corajosamente anotou esses limites – e devemos sublinhar o corajosamente pois o pensamento único, alicerçado no medo e alimentado pela intolerância, recusa qualquer debate estratégico sobre o modo como o Estado deve enfrentar um terrorismo de matriz religiosa;
  • Segundo: a liberdade de expressão de pensamento é o nosso único cartão de visita como portugueses, como euro-atlânticos, como cidadãos do mundo? A religiosidade ou a espiritualidade, o respeito pela pessoa, o Estado Democrático de Direito, a solidariedade humana, a tolerância social, o desenvolvimento social e económico foram expulsos da nossa identidade como pessoas e como civilização em nome de um novo deus exclusivista, que dá pelo nome «liberdade de expressão»?
  • Terceiro: o slogan não cobre a totalidade dos atentados de Paris. Autoriza, por exemplo, o terrorismo antisemita – talvez por o antisemitismo continuar a ser popular em França e o Sr. Hollande preferir não o atacar de frente. Talvez por isso, os meios de comunicação social franceses, como um só homem (estranha unamimidade que sugere a existência de um oculto ministério da informação, manipulando em França a liberdade de informar em nome da liberdade de informar) refere o atentado ao supermercado judeu de Paris como sendo a um estabelecimento kosher, palavra pouco conhecida, sem a carga emotiva da palavra judeu e que por isso atenua a condenação do bárbaro atentado antisemita.
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6 comentários leave one →
  1. Fernando Soares Loja permalink
    Janeiro 19, 2015 12:39 am

    A França tem um problema sério para resolver e não sabe como: uma comunidade muçulmana que não se integra na sociedade francesa em geral. A República Francesa perdeu a sua soberania em 751 áreas do território francês a favor das comunidades islâmicas onde vigora a sharia. Talvez a adesão de François Holande ao lema Je suis Charlie o identifique como inimigo dos Islão aos olhos de muitos muçulmanos. Por outro lado, Holande afasta-se daqueles que crêem que o perigo não são só os terroristas, mas o Islão ele mesmo. Não deve ser mera coincidência o facto de tantos terroristas em tantas e diverisificadas regiões do Mundo agirem alegadamente em nome de Alá e para defesa de Maomé. É preocupante a falta de coragem de alguns políticos europeus para chamar os bois pelos nomes.

  2. Janeiro 19, 2015 1:17 am

    Estado e Igreja agradece o comentário do Dr. Fernando Soares Loja e concorda que muitos dirigentes políticos europeus são cobardes e que seria arrojado qualificar de coincidência a relação entre tantos casos de terrorismo e o Islão. O que não significa que não haja uma causa oculta ou diferentes causas. A França parece ser um caso de causa oculta: a França discrimina socialmente contra magrebinos e negros os quais pegam no Islão como bandeira identitária. Aliás, até ao Presidente Sarkozy, a própria religião islâmica sofreu de um tratamento legal de desfavor em França. Por isso, a mesquita não se considera em geral habilitada a condenar os opositores ao establishment – mesmo so extremistas. Ao contrário do que sucedeu em Portugal, onde o imã David Munir aconselhou a fazer as malas quem não não quiser viver numa democracia.

  3. Janeiro 19, 2015 4:29 pm

    Atrevo-me a dizer ao Dr. Salgado de Matos que:

    1) dizer que Hollande “patrocinou” o novo n.º do Charlie Hebdo me parece manifesto exagero. Se patrocício houve, do presidente francês e do p-m Valls (cujo discurso foi aplaudido no parlamento por unanimidade) — se patrocínio houve foi o da liberdade de expressão;

    2) as proibições do Islão apenas dizem respeito aos crentes dessa religião, e a quem lhes queira associar-se. Criticar ou impedir uma caricatura do profeta num jornal satírico é grotesco, pelo menos num país europeu;

    3) parece-me que o esmagamento do terrorismo, como diz, vai muito para além dum hebdomadário humorístico;

    4) o CH foi sempre desrespeitoso para com todas as religiões, e para com os poderes em geral. Nota-se mais com o Islão, pelas óbvias razões de que o Islão radical é totalitário e assassino;

    5) sim, a liberdade de expressão tem limites, quando apela ao ódio e ao crime. Desenhar o Maomé em pranto lamentando-se ser adorado por idiotas (por ocasião do caso dos catoons dinamarqueses), como o fez Cabu, não é apelo ao ódio, mas humor, e do mais fino (e passo ao lado da coragem desses autores, que a pagaram com a vida);

    6) a liberdade de expressão não é o nosso único cartão de visita, mas é um dos que mais nos podemos orgulhar, e que distingue o Ocidente dos sistemas ditatoriais;

    7) quanto à alegada “autorização” do terrorismo antissemita pelo slogan “Je suis Charlie!”, é uma inferência sua, em minha opinião um pouco forçada.

    Para terminar. atendendo aos argumentos do Dr. Luís Salgado de Matos, o cartoon de António do preservativo no nariz de JPII, ou a série de desenhos do Sam intitulados «Ai Jesus!» seriam, naturalmente censuráveis e, portanto, censurados.

  4. Janeiro 19, 2015 6:13 pm

    Estado e Igreja agradece o «atrevimento» de Ricardo António Alves, sendo indiferente que, ao contrário do de Camões, não seja um «cristão atrevimento». O post criticado focava dois tópicos: o moral (devemos ser tolerantes) e o estratégico (para destruirmos o terrorismo fundamentalista islâmico, devemos isolá-lo face aos islâmicos). O comentarista nem menciona a questão estratégica, o que talvez revele um défice de amor à vida, e concentra-se na liberdade de expressão. Para ele, basta invocar a liberdade de expressão para insultarmos à vontade: o Charlie Hebdo declara-se a favor da liberdade religiosa (ponto 4 do comentário), isso basta ao nosso comentador para considerar que está garantida a liberdade religiosa, escreva o semanário o que escrever. Que interessa a voz do queixoso? Nada. Para o comentarista a «liberdade de expressão tem limites, quando apela ao ódio e ao crime» (ponto 5) – mas no caso não estão preenchidos esses limites, pois a opinião dos visados (que considera odienta a representação visual do Profeta) é irrelevante face ao voto unânime no Palais Bourbon do extraordinário discurso do Sr. Valls, o primeiro ministro francês. Ora este discurso do Sr. Valls é mesmo a principal prova invocada por Estado e Igreja: nessa fala, o sr. Valls transformou um caso individual de exercício da liberdade de expressão num caso de Estado, pois transformou esse boneco na bandeira europeia face ao resto do mundo e em particular face ao mundo muçulmano. O ilustre comentarista não distingue um caso individual de exercício da liberdade de expressão (a capa do Chalie Hedno) do apoio de um Estado soberano à capa de um semanário marginal (o discurso do Sr. Valls e as conferências de imprensa do Sr. Hollande). Talvez por isso, o ilustre comentarista acusa Estado e Igreja de querer censurar o referido boneco. Ora o post comentado analisava especificamente o caso da eventual proibição do estafado boneco; citamos do post:«Que um semanário marginal a ela [à tática da representação visual do Profeta para provocar os muçulçmanos] recorra levanta apenas um problema localizado de conciliação entre a liberdade de expressão, o respeito pela religião e os nossos interesses estratégicos, pelo que não custa a admitir que esse tipo de texto seja admitido». Estado e Igreja pede ao ilustre comentarista que volte a observar o post que incrimina: importa-se de ver que ele começa precisamente pelo post que o seu comentário diz que Estado e Igreja quer censurar? Para a próxima leitura, Estado e Igreja pede ao ilustre comentarista um pouco mais de boa vontade ou de boa fé.

    • Janeiro 19, 2015 11:45 pm

      Creio, Dr. Luís Salgado de Matos, que a circunstância de ter sido dizimada uma redacção a tiros de metralha, e que isso significa, não apenas um desforço inaceitável e criminoso, mas um próprio ataque à tal liberdade de expressão que caracteriza as sociedades ocidentais, justifica, em minha opinião, que o Estado francês o assuma como atentado aos próprios fundamentos em que se alicerça. É, portanto, uma reacção também com alcance estratégico.
      Poderá dizer que é, desse ponto de vista, desproporcional e/ou contraproducente. Talvez. O que me parece é que o Governo francês de modo algum poderia tomar uma atitude que não fosse de firmeza, e que mostrasse claramente que a França (e, por extensão, o resto da Europa) não se deixava intimidar. O contrário seria catastrófico, internamente e a curto prazo.

      Do mesmo modo — e embora isso não seja matéria do seu post — também os profissionais do Charlie Hebdo não poderiam deixar de ter a reacção que tiveram, mesmo que com a representação dum Maomé piedoso e adocicado — boneco que, por sinal e se não erro, é posterior ao discurso de Manuel Valls.

      Diz que esse boneco foi transformado em bandeira europeia face ao resto do mundo. Talvez os pastores de cabras das montanhas afegãs ou os beduíno do deserto assim pensem; mas os líderes políticos, esses — al-Bagdadi incluído –, sabem bem qual é a verdadeira bandeira. E tanto assim é, que, dos sauditas aos palestinos, muito foram os que acorreram pressurosamente à manifestação de Paris, apesar da bonecada do CH.

  5. Janeiro 20, 2015 3:03 am

    Estado e Igreja agradece o comentário. Permite-se sublinhas que não condenou as atitudes do Charlie Hebdo mas sim a do Estado francês, que o arvorou em bandeira da civilização. E rejubila comn o reconhecimento que a reação de Hollande talvez tenha sido inadequada e mesmo contraproducente. Anota que a manifestação de Paris não foi convocada ao abrigo da bandeira Charlie Hebdo e talvez por isso nela participaram Governos que são em geral considerados comanditários do terrorismo fundamentalista islâmico. Estado e Igreja não pretendeu que a França não reagisse; muito pelo contrário: sem ser especializado em segurança, averbou as insuficiências da segurança gaulesa. Estado e Igreja regista que o nosso comentador, apesar das suas anteriores declarações em contrário resume a Europa ao Charlie Hebdo – e por isso não tem uma palavra para condenar o ataque dos terroristas fundamentalistas islâmicos ao supermercado judeu e os assassinatos aí perpetrados, aliás também colocados na obscuridade pelo Presidente Hollande. Não que alguém suponha ser o nosso comentador a favor desse assalto – mas, ignorando-o, redu-lo a uma insignificância. Ora o passado próximo e o presente da Europa mostram que matar judeus não é uma insignificância, a começar pelas ressonâncias religiosas dessa ação criminosa.

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