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Relatório de 2014: A Religião continua central na Relação Estado e Igreja no Mundo

Janeiro 7, 2015

LiberdadeReligiosaLivroNegro

Há 150 a 200 milhões de católicos perseguidos no mundo, afirma o Livre noir de la condition des chrétiens dans le monde, uma produção católica – mas Estado e Igreja gostaria de verificicar a fundamentação para o caso sírio (para ampliar, clique na imagem)

As relações entre o Estado e a Igreja continuam em 2015 a ser cruciais para a marcha da humanidade. É esta a principal conclusão do relatório anual de Estado e Igrejas sobre a relação mundial e portuguesa entre as duas instituições, em 2014. Como em anos anteriores, a principal fonte do relatório é a imprensa de informação geral.

A centralidade política do fenómeno religioso ressalta das palavras de Tony Blair, o contestado ex primeiro ministro britânico: «O extremismo religioso está na raiz das guerras do século XXI»(The Observer, 25 de janeiro de 2014). A conflitualidade estatal de origem religiosa manteve-se. No budismo emergiram reações antimuçulmanas, em particular no sudeste asiático. No Velho Continente, a rejeição do Islão que se baseava sobretudo na errada correspondência biunívoca entre esta religião e o terrorismo de massas, foi substituído pelos receios da «islamização da Europa». O que era acompanhado pelo renascer do antisemitismo, resultado da importação cultural e tática do conflito israelo-árabe. Na Índia, a vitória eleitoral do hinduísmo de Modi originou receios de violação da liberdade religiosa, partilhados por cristãos e muçulmanos. A Indonésia, o mais populoso país de maioria muçulmana, elegeu um presidente da República razoavelmente laico. A China comunista-taoista continua a não reconhecer a liberdade religiosa aos cristãos, mas, ao invés de descambar na perseguição, preferia continua a tentar um compromisso com a Santa Sé.

Nos Estados Unidos e na Europa ocidental persistiam correntes laicistas minoritárias e por vezes aguerridas, rejeitando qualquer contato entre o Estado e a Igreja, mas os tribunais superiores e internacionais tinham continuado a contrariar esta tendência e «o ateísmo está com problemas», reconhecia Terry Eagleton, um reputado inteletual marxista britânico; para ele, a mudança resultou dos atentados do 11 de setembro, que tornaram a religião «viral», pelo menos para os pobres e oprimidos»; o ateísmo de Richard Dawkins e Christopher Hitchens continuava atraente para «as classes compradoras de livros» mas não interessava as restantes, embora no Ocidente a frequência dos locais de culto parecesse continua uma queda de longo prazo (The Guardian, 27 de fevereiro de 2014).

O Papa Francisco tornou-se o principal impulsionador de políticas em termos mundiais, deixando a sua concorrente Nações Unidas a tratar de doces e salgados; a sua popularidade universal, alimentada por vastos setores laicos, lembrava a do Papa João XXIII, que no final dos anos 1950 lançara o Concílio do Vaticano II. A Europa e em menor escala os Estados Unidos eram cada vez mais colonizados pelo conflito israelo-árabe, que concebiam como revelador da verdade universal.

O Chefe de Estado do Vaticano, principal autoridade moral internacional

Foi rara a semana de 2014 em que o Papa Francisco não usou o poder do verbo – e ocasionalmente o do viajante – para influenciar a agenda mundial. Enumeremos alguns exemplos: em março, declarou que os mafiosos «acabariam no inferno», e esta alusão a uma instância celeste há muito encerrada (ou semi encerrada) foi bem vista, por o Sumo Pontífice ser popular e a Máfia impopular; em junho, excomungou a Máfia, com iguais efeitos; em junho ainda, condenou as «formas modernas» de escravatura dos ciganos; em julho, numa entrevista a Henrique Cymerman, para La Vanguardia, de Barcelona, acusou o mundo de ter transformado o dinheiro em Deus, de ceder «à idolatria do dinheiro» e sugeriu que o capitalismo era a causa da guerra: «combatem-se uns aos outros em guerras para consolidar situações financeiras de economias idolátricas» – o que parecia inspirado em V. I. Lenine, o comunista russo, segundo The Economist, de Londres; os comunistas roubaram à Igreja Católica a causa ou «a bandeira dos pobres» que, no seu entender, «é cristã», insistiu ainda naquele mês; em novembro, numa visita relâmpago ao Conselho da Europa, condenou com veemência a política de imigração da União Europeia, apelando para que o Mediterrâneo não se tornasse «um cemitério» de imigrantes e classificou a Europa de «velhas e gasta»; nesse mesmo mês, com o arcebispo de Cantuária, Justin Wellby, proclamou uma declaração contra a escravatura; em dezembro, o comunista cubano Raul Castro e o capitalista norte-americano Barack Hussein Obama felicitaram-no por ter sido o mediador do começo da paz entre Cuba e Washington.

Aquelas declarações anticapitalistas do Papa pareciam identificá-lo com a esquerda estatal e suscitaram reações. João César das Neves, economista e teólogo, escreveu em desafronta: «a esquerda gosta muito do Papa Francisco, mas interpreta como ataques a ricos as palavras dele em defesa» dos pobres (Diário de Notícias, 30 de junho de 2014). As críticas à União Europeia também chocaram: o Frankfurter Allgemeina Zeitung¸um respeitado diário conservador alemão, classificou-as de um elogio à Europa, mas era claro que tocava a escala que vai do respeito social à hipocrisia.

Em dezembro, o Papa Bergoglio recusou receber o Dalai Lama, que se deslocara a Roma para uma reunião de Prémios Nobel contra a ameaça de nova guerra fria; a justificação era a necessidade de manter as portas abertas com Pequim. Como vale mais ter graça do ser engraçado, esta intromissão da Reaklpolitik na tática vaticana não abalou a popularidade papal. Aliás, o propósito era pio: se Henrique IV disse que «Paris vale uma missa», para justificar a sua conversão realista ao catolicismo, Bergoglio justificar-se-ia proclamando que um bilião de missas vale bem meia hora com um Lama tibetano, mesmo Dalai (o qual aliás não censurou a recusa papal por sacrificar uma vantagem em prestígio pessoal ao aumento da liberdade religiosa na China).

Como ninguém é santo na sua própria casa, o Santo Padre não alcançava resultados imediatos no interior do catolicismo. O Papa Francisco convocou um sínodo sobre a família mas desdobrou-o numa primeira parte teórica, realizada em 2014, e noutra de adoção de medidas práticas, a concretizar em 2015. As votações sinodais revelaram uma maioria absoluta a favor da linha «inclusiva e misericordiosa» preferida pelo Papa no caso do casamento dos divorciados e do casamento gay, mas longe da maioria de dois terços, que a Santa Sé costuma requerer nos sínodos, e na maiotia de três quartos  exigidosna realidade pelo governo consensual da Igreja Católica. Anotemos que uma minoria de padres sinodais votou contra os documentos por os considerar tíbios. e pouco reformistas. A minoria conservadora foi estridente a criticar o Papa, sobretudo nos Estados Unidos: o Cardinal Raymond Burke afirmou que o documento sionodal não tinha base escritural nem magisterial, o ultraconservador Pat Buchanan acusou-o de «hereje», o que estava a um passo de pedir a sua destituição. Face às questões de civilização o catolicismo parece estar na mesma situação do anglicanismo há um par de anos: a maioria quer a atualização, uma minoria tem força para a bloquear.

É interessante registar que o catolicismo se divide hoje sobre a sua agenda social e não sobre uma temática especificamente religiosa, como o problema da liberdade e da graça.

Outro ponto de fricção intracatólico foi a luta do Papa contra a cúria romana, que criticou severamente por ocasião do Natal. Bergoglio limitou-se a estabelecer um novo Secretariado para a Economia, que será a entidade reguladora do célebre Instituto per le Opere Religiose (IOR), o banco do Vaticano, que permanece sob suspeita internacional por lavagem de dinheiro.

A popularidade mundial do Papa Francisco nem silenciou os seus opositores católicos nem parou a campanha internacional contra a pedofilia católica e dos padres católicos. Em fevereiro, o Comité dos Direitos das Crianças das Nações Unidas exigiu ao Vaticano a entrega de todos os padres pedófilos à justiça, criticando a sua atitude passada; então, o portavoz do Vaticano, o P.e Lombardi, acusou as Nações Unidas de estarem a passar as marcas; o aviso terá tido algum efeito, pois seguiu-se uma acalmia. Mas em maio o comité contra a tortura das Nações Unidas acusou o Vaticano de não aplicar a convenção contra a tortura no seu território no campo do abuso sexual.

O Papel matricial do Conflito israelo-muçulmano

Convém começar por assentar que no Médio Oriente cada ator estatal tem a sua religião: Israel o judaísmo (e minorias sunnitas e católicas); a Turquia o sunnismo moderado; a Arábia Saudita o sunnismo waabita; a ISIS o sunnismo fundamentalista, primo hiperativo do waabita; a Autoridade Palestiniana o sunnismo moderado e uma minoria católica; o Líbano uma aliança de sunnismo moderado, xiismo e catolicismo maronita; a Síria de Bachar al Assad o xiismo alauíta; o Irão o xiismo duodecimano; os aviões da NATO são cristãos – e por isso a ISIS nos trata de «cruzados». Na região, toda a contabilidade, incluindo os mortos em combate, é produzida em termos religiosos.

O conflito entre Israel e os países árabes de religião de Estado muçulmana desempenhou um papel matricial. Esse papel foi intensificado em 2014 por dois acontecimentos, ambos bélicos: a guerra dos extremistas islamistas, apoiados pelo Ocidente ao regime da Síria, apoiado pelos alauitas e respeitador da liberdade religiosa dos cristãos e a invasão israelita da faixa de Gaza.

Desde o final da guerra fria, o chamado Ocidente apoiava mais ou menos à socapa os autoritarismos moderados e laicos que no Médio Oriente combatiam o islamismo fundamentalista (o FLN nas Argélia, Ben Ali na Tunísia, Khadafi na Líbia, Mubarak no Egito). Essa política foi mudada pela Srª Hilary Clinton e pelo Presidente Hussein Obama: ao bombardearam a Líbia em 2011, acenderam a chama «Primavera Árabe». Esta primavera hibernou em toda a região, exceto talvez na Tunísia. Para surpresa de Washington, a Síria alauíta resistiu-lhe, com apoio russo em armas e dinheiro. A nova política ocidental da laicização à bomba exigia que os regimes muçulmanos fossem exibidos às opiniões públicas europeias e americana como bondosos, quer o fossem quer não. Em simetria, este novo «politicamente correto» precisava por isso de mostrar o Estado judaico como mau o que lhe dava uma base de popularidade no antisemitismo tradicional no Ocidente. Em 2014, o ataque israelita à Faixa de Gaza popularizou esta visão. Mas, como «o sonho da razão engendra monstros» (Goya), o Ocidente acabou a apoiar a ISIS, uma organização terrorista que, tendo alcançado a autonomia financeira depois de ter conquistado uns poços de petróleo, se autonomizou dos seus criadores ocidentais e sauditas e governa hoje uma extensa área, na Síria e no Iraque, em nome de um suposto Califado. Califa significa sucessor em árabe e é o regime de fusão Estado-Igreja que se sucedeu à morte do Profeta. Este título caíu nos Otomanos e foi nominativamente extinto nos anos 1920. A maioria muçulmana rejeita hoje esta extraordinária pretensão de um grupo de desconhecidos. Derrotada, a Srª Clinton foi à vida; o seu sucessor na chefia da diplomacia dos Estados Unidos, John Kerry, voltou a pôr os médicos a tomarem conta do hospital e apoiou o regime militar disfarçado no Egipto. Poucos o seguiram: Blair foi um dos raros a apoiá-lo; a intoxicação euroamericana é tal que parece sem princípios apoiar um governo islâmico autoritário que combata o terrorismo islâmico. Mas em relação à Síria Kerry continuou, ou teve que continuar, a política do heroinómano: para curar os malefícios da heroína, quis mais heroína; isto é: para curar o erro de ter feito guerra ao antifundamentalismo de Bachar al Assad, em nome da guerra antifundamentalista, pediu para reforçar a guerra ao antifundamentalismo dos sírios alauitas. O Presidente Hollande tem sido o superheroinómano desta pesada droga síria . Esta política levava a outras consequências contraproducentes: incapaz de suster a ida de jovens franceses para apoiar os seus aliados ocultos da ISIS, Paris passou a atacar a Turquia por os deixar passar. Ora os europeus tinham há anos enxotado a Turquia para o Médio Oriente e não tinham por isso autoridade moral para lhe exigirem o impossível. Assim, com uma cajadada só, Paris faz três inimigos: a Síria, a Turquia e os seus antigos protegidos da ISIS.

O Papa Francisco apercebeu-se deste papel matricial de Israel face aos árabes muçulmanos. Em maio, visitou Israel. Pousou para a objetiva em Belém à frente do muro com inscrições anti israelitas, numa paragem improvisada, o que gerou apoio palestiniano e viva reação de Jerusalém; para compensar, Bergoglio improvisou de novo, desta feita uma visita ao monumento às vítimas do Holocausto, o que gerou aplauso israelita.

Esta matriz gera o antisemitismo e o anti islamismo europeus.

Papa Francisco Muro

Na sua visita a Israel. o Papa Francisco pousou perante um muro com pinturas anti-israelitas, o que provocoou o protesto de Jerusalém

Antisemistismo europeu; França

Neste contexto, o antisemitismo é um elemento estrutural e inconfessado da tática do Ocidente. A Anti-Defamation Leage, dos Estados Unidos, divulgou uma sondagem realizada em mais de cem países mostrando que mais de 49% ignoravam o Holocausto; 49% dos muçulmanos eram antisemitas, mas este valor era avolumado pelos muçulmanos do Médio Oriente; entre os da Europa ocidental, este valor descia para 29%, apenas um pouco acima da média local.

Estes valores sem comparação com sondagens anteriores não provam um aumento do antisemitismo mundial. Outros factos, porém, vão nessa direção, no relativo à Europa ocidental. Em meados de julho, em Sarcelles, no subúrbio norte de Paris, uma multidão, com predomínio turco, assaltou a sinagoga local assim como comércios judeus e pela primeira vez exigiu a morte dos hebreus. O Presidente Hollande diluiu os assaltos convocando líderes religiosos mas Rachida Dati, ela própria magrebina e antiga ministra da Justiça do Presidente Sarkozy, condenou essa tática, acusando-a de reforçar o comunitarismo e de enfraquecer a laicidade à francesa. Tempos depois, também nos arredores de Paris, um casal judeu era assassinado, num aparente fait divers, que não era desprovido de conotação religiosa.

Anti islamismo e contenção do extremismo muçulmano na Europa

O anti islamismo pareceu reforçar-se nos principais países transpirenaicos. Era contrariado por forças defendendo a tolerância face aos muçulmanos. Nem sempre era fácil distinguir o anti islamismo, uma atitude intolerante, da legítima contenção do Islão fundamentalista, uma atitude tolerante. Na Grã Bretanha, em França, na Alemanha o anti islamismo tocava a mesma tecla: os imigrantes muçulmanos ameaçam a cultura nacional, a islamização em curso destrói as identidades nacionais.

Reino Unido

No Reino Unido, que até 20113 se tinha singularizado por uma política de portas abertas aos muçulmanos, foi evidente a mudança para uma atitude restritiva e fiscalizadora. Em meados de fevereiro, Jordan Homer, um convertido ao fundamentalismo islâmico, foi castigado com uma medida de segurança no tribunal de Old Bailey, em Londres. Em março, ameaças nacionalistas obrigaram ao cancelamento de um festival islâmico em Windsor, ameaçando-o com boicotes. Em abril, rebentou o grande escândalo: as autoridades asseguraram terem descoberto uma comspiração de fundamentalistas islâmicos para dirigirem o ensino das escolas religiosas muçulmanas em Birmingham, orientando-o num sentido intolerante. Em julho, um relatório oficial, conhecido graças a uma fuga, revelava «uma agenda islamista agressiva» e oculta, naquelas escolas. O caso ficou conhecido como o «Cavalo de Troia», uma designação acidental mas que sublinhava o risco de uma disfarçada invasão inimiga. O assunto alimentou os meios de comunicação social meses a fio e concretizou-se numa maior fiscalização estatal das escolas privadas, em particular das islâmicas.

França

A política de laicidade francesa foi confortada por uma decisão do Tribunal Europeu do Direitos  Humanos.que, em julho, decidiu que a lei gaulesa proibindo o uso do véu islâmico integral «não contraria os direitos humanos e tem um objetivo legítimo». O véu integral é a burka ou nikhab, que apenas deixa ver os olhos (se deixa). O Tribunal já aceitara a proibição estatal do lenço (e da cruz, e da kipa) nas escolas. Em 2013, a polícia francesa procedeu a mais de 400 interpelações por uso da burka.

A decisão do Tribunal não tranquilizou os franceses. A crise identitária dos jovens dos subúrbios acentuava-se (os manifestantes em Sarcelles eram sobretudo jovens). Muitos adolescentes e universitários franceses marchavam para a Síria, a fim de lá procederem à jihad, ao lado do ISIS (ou da sua crisálida anterior, que usava outro pseudónimo organizativo).

Por isso, entidades públicas e privadas multiplicaram as proibições de acesso a portadores de símbolos muçulmanos. Assim, a operação estival «Wissous Plage», nos subúrbios de Paris, proibiu-lhe o uso de sinais religiosos, mas um tribunal anulou essa decisão, em julho.

Em dezembro, a França e a Argélia assinavam um acordo para formar imãs na laicidade. Era uma medida regalista que convidava à ironia, mas o sunnismo não é por si antirregalista e a Argélia afogara no sangue uma rebelião islâmica, nos anos 1990.

Estas medidas não satisfaziam a opinião francesa, pois não estavam à altura do que muitos concebiam como uma ameaça identitária. Em junho, Natacha Polny, pedagoga e comentarista, sublinhava «a fratura entre os que estão integrados e os que não estão», interrogando-se como era possível jovens, depois de «doze ou treze anos nos bancos da escola republicana» francesa  torturarem um miúdo por ser judeu.

Já no dia de Reis de 2015, era anunciado que Michel Houellebecq, um romancista por vezes acusado de racismo, em breve publicaria um romance de ficção política descrevendo a França de 2022 governada por um poder islâmico; o romance intitula-se significativamente Submissão.o Front National¸de Marine Le Pen, que capitalizava nesta insatisfação, disse que o romance talvez fosse uma previsão realista.

HoullebecqSubmissão«É o Ocidente que se suicida», afirma o escritor francês Michel Houllebecq a propósito da presença do Islão na Europa ocidental. O seu novo romance Soumission prevê um governo islâmico em França daqui a sete anos.

Alemanha

Na Alemanha, tinham-se multiplicado sinais antisemitas e antislâmicos. Em outubro do ano passado, na zona leste, a antiga Alemanha comunista, começou um movimento de rua, o Pegida, que mobiliza os alemães contra a islamização do Ocidente. As instituições alemãs não reagiram. Na viragem do ano, a chancelarina Merkel atacou esse movimento, qualificando-o de racista e de extrema direita, inadmissível em território germânico; esta tardia (e excessiva) reação não deixará por certo de ser devida às sondagens que mostram a erosão à direita da base eleitoral do partido da chancelarina, a CDU, um movimento democrata-cristão.

Anticristianismo na Europa e na América; reações

Uma minoria de cristãos militantes continuou a queixar-se na Europa ocidental de ser perseguido pelo Estado. Algumas política lunáticas violadoras da liberdade religiosa legitimavam esta acusação; a proibição de celebrações públicas do Natal, por ofenderem a separação do Estado e da Igreja e/ou ofenderem outras crenças, avultam neste número. Surgiam também reações de defesa do cristianismo, nas quais era difícil distinguir a fé pessoal e a afirmação identitária face a imigrantes estrangeiros crentes dao Islão.

Reino Unido

A minoria de ativistas cristãos destacava-se no Reino Unido. Vejamos alguns exemplos. Em janeiro, um pregador evangelista, Tony Miano, foi preso na Escócia por criticar o casamento gay; era acusado de homofobia. Em abril, uma auxiliar de ação educativa de um infantário foi despedida por ter dito a um colega que a Bíblia encarava a homossexualidade como um pecado. Ann Widdecomb, uma antiga e mediática deputada, declarou que era mais fácil ser-se comunista ou nazi na Grã-Bretanha no imediato pós guerra do que cristão na de hoje. Em junho, foi revelado que uma trabalhadora cristã do Serviço Nacional de Saúde fora alvo de um processo disciplinar por ter dito a uma colega muçulmana que rezava por ela; foi acusada de «bullying». Todos  estes casos têm uma dimensão selenita que não é despicienda. Por certo em consequência do escândalo do «cavalo de Troia», uma sondagem revelava em junho que 60% dos britânicos se opunha ao financiamento público de escolas religiosas.

Manifestava-se também uma reação pró cristã e identitária. Em abril, o primeiro ministro, o tory David Cameron, escreveu um artigo no The Guardian declarando-se «mais confiante sobre o nosso estatuto como país cristão». Esta afirmação provocou por sua vez reações de rejeição. Um manifesto de inteletuais, incluindo vários prémios Nobel, censurou-o por dividir o país. Nick Clegg, o chefe liberal e seu parceiro de coligação no governo, defendeu a separação do Estado e da Igreja que, legalmente, não existe no Reino Unido.

Estados Unidos

Em maio, o Supremo Tribunal declarou que a municipalidade de Greece, uma cidade do interior do estado de Nova Iorque, não viola a separação do Estado e da Igreja por abrir as suas sessões com uma oração.

França

O movimento político católico foi forte. A «marcha pela vida» reuniu dezenas de milhares de manifestantes, em janeiro, na base da recusa da teoria do género, que seria ocultamente professada pela escola pública gaulesa e visaria acabar com a distinção menino-menina. Foi prosseguida pela «manif pour tous», que também se opunha ao casamento gay.

Na previsão da visita do Presidente Hollande ao Papa Francisco, um movimento de jovens reuniu um abaixo assinado de mais de 70 mil pessoas pedindo ao Sumo Pontífice para manifestar ao responsável francês o seu desagrado pela violação dos direitos humanos em França. O pedido teve algum êxito, pois o Secretário de Estado, D. Pietro Parolin, convidou-o a escutar e a dialogar com os católicos (sem êxito). Em abril, o próprio Papa exteriorizou-se contra as manipulações da escola sobre a família.

Perseguição aos cristãos no resto do mundo. Cresce a reação internacional

MeriamIbrahim

No Sudão, um tribunal condenou à prisão Meriam Ibrahim, considerando que ela deixara de ser católica por ser filha de um muçulmano. O caso provocou um escândalo mundial em 2014, que lhe valeu a libertação.

Talvez em relação com o reforço identitário na Europa, aumentou a reação de defesa às perseguições contra cristãos, em particular no Médio Oriente. É certo que as perseguições se intensificaram (conversões forçadas, deslocações impostas, prisões, assassinatos), o que também explicará um acréscimo daquela defesa. O próprio Papa Francisco tomou posição contra a perseguição aos cristãos, em junho; os cristãos sírios e jordanos vêem nele a sua última esperança. O arcebispo de Cantuária disse sensatamente que dar asilo aos cristãos do Médio Oriente significava extinguir o cristianismo nessas paragens e defendeu a política de «territórios garantidos» para os cristãos nos países árabes.

*

O relatório sobre as relações Estado-Igreja em Portugal de 2014 será postado nos próximos dias.

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