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D. Manuel Clemente é Cardeal

Janeiro 5, 2015

ManuelClemente

Foi ontem anunciado que D. Manuel Clemente, o Patriarca de Lisboa,  será feito cardeal pelo Papa Francisco, no seu segundo consistório que ocorrerá a 14 de fevereiro próximo. A notícia merece referência em Estado e Igreja pela origem histórica da nomeação: D. João V obteve da Santa Sé que o Patriarca de Lisboa fosse elevado à dignidade cardinalícia no primeiro consistório após a sua nomeação. D. Manuel não fora feito cardeal no primeiro consistório, pois D. José Policarpo, embora resignatário de Lisboa, continuava membro do Sacro Colégio com direito de voo numa eventual eleição papal, mas a ausência da nomeação cardinalícia provovou emoção quer em círculos católicos mais tradicionais, desgostosos com o que que lhes parecia um esquecimento imerecido face à prática da Santa Sé no preenchimento do Sacro Colégio e independentemente de qualquer herança regalista,  quer em republicanos regalistas; estes viam na omissão uma desconsideração do Estado português pelo Papado. O Sumo Pontífice eliminou assim o que certamente teria sido um nafasto abcesso de fixação.

A razão principal da referência â nomeação em Estado e Igreja é porém o papel crucial do Patriarca de Lisboa nas relações do catolicismo com o Estado português, na sua nova qualidade de conselheiro do Papa. A elevação de D. Manuel Clemente ao Sacro Colégio reforça-lhe a mão como intermediário entre o Estado e o Vaticano.

A nomeação é uma homenagem à pessoa de D. Manuel Clemente mas também à ação missionária do Patriarcado: a elevação ao cardinalato de D. Arlindo Gomes Furtado, bispo de Santiago de Cabo Verde, antiga sufragânea de Lisboa, sublinha este aspeto num consistório marcado pela criação de cardeais dos países em desenvolvimento e no qual por exemplo Veneza, um Patriarcado de honra como Lisboa, não foi contemplado com uma nomeação cardinalícia.

A diocese de Santiago de Cabo Verde, fundada em 1532, é a mais antiga de África entre as que se situam em Estados independentes e dispõem de clero próprio (desde o século XVII, pelo menos). Ceuta e Tanger, também fundadas por iniciativa portuguesa, são mais antigas do que Santiago de Cabo Verde; mas a diocese de Ceuta (Cádis e Ceuta mais exatamente) localiza-se hoje em Espanha, a potência colonial, e está integrada na conferência episcopal espanhola. A diocese de Tanger,  numa cidade gozando do estatuto especial de porto franco, está hoje localizada em Marrocos, um reino independente; o seu bispo é estrangeiro e está na dependência direta da Santa Sé.

Nota: Foi clarificada e corrigida a versão inicial do último parágrafo que rezava: «A diocese de Santiago de Cabo Verde, fundada em 1532, é a mais antiga de África entre as que se situam em Estados independentes. Ceuta e Tanger, também fundadas por iniciativa portuguesa, pertencem hoje a Espanha, a potência colonial,»

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2 comentários leave one →
  1. Janeiro 5, 2015 1:42 pm

    Um sacerdote e professor universitário escreveu uma amável carta eletrónica ao autor de Estado e Igreja; dela extraímos o seguinte trecho:
    Li com agrado o seu comentário sobre a designação de D. Manuel Clemente para Cardeal: alegra-me a notícia, que era do meu conhecimento desde ontem; associo-me ao seu comentário, pela pertinência do seu juízo, ponderado e certeiro. Por mim, considero que a dignidade de D. Manuel é a de arcebispo de uma Província Eclesiástica, pois para isso recebeu o pálio das mãos do Papa Francisco; a tradição que remonta a D.João V, para Patriarca, não nos honra muito, pois, se fosse isso, a Presidente Dilma teria razões para reclamar, em nome do ouro que andou associado a isso; quanto à questão de Cardeal é tema que merece mais diplomacia e discernimento, pois importará perguntar pelas razões que hoje, em regime eclesial (e não eclesiástico), estão em jogo. Estamos longe dos tempos da corte joanina e da corte pontifícia: a representação eclesial das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo justifica que o bispo de Cabo-Verde aí esteja ou que D. Júlio, antigo bispo do Xai-Xai, em Moçambique também. Quanto à Igreja Portuguesa alegro-me porque D. Manuel poderá ser fiel intérprete das ansiedades que este país do Finisterra vive. Veremos como evolui a concepção da hierarquia eclesiástica. A história da Igreja portuguesa tem fantasmas que deveriam obrigar a situar-nos no tempo e em situação crítica (…).

  2. Janeiro 5, 2015 1:47 pm

    Outro sacerdote envuiou ao autor de Estado e Igreja o seguinte e interessante comentário:
    Maneira curiosa de ver D. Manuel Clemente cardeal da Igreja. O Rui Machete e o Paulo Portas (não sei se deram por isso) devem ter ido logo rever o protocolo. Tão importante, pois ficámos “honrados” (cardinalato de honra) na lista dos países da “periferia” do mundo…globalizado. Sem o novo cardeal português, sentir-se-ia a falta de um conselheiro do Papa Francisco para que ele volte ao Palácio Apostólico…………..dos Olivais-Lisboa.

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