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O Modo da Religião no Tempo francês do Conflito israelo-palestiniano

Julho 28, 2014

ManifPelosCristãosDoOrienteNotreDame2014jul27Milhares de manifestantes defenderam ontem os cristãos do Iraque e da Síria, no adro de Notre Dame, em Paris. A imprensa francesa refere que estavam representadas tanto a esquerda como a direita

Faz hoje oito dias, Estado e Igreja interrogou-se sobre o sentido da violência nas manifestações francesas contra a ação da Tsahal, as forças armadas israelitas, na Faixa de Gaza. Hoje, coligirá algumas respostas francesas, sem pretensões de exaustividade nem de uma interpretação duradoura, antes procurando iniciar uma reflexão.

Alguns comentadores salientam a fraqueza da França: o país deixa-se dividir por um facto que lhe é exterior, proíbe manifestações e é incapaz de impedir a sua concretização bem como de punir os infratores. O semanário Le  Point defende a tese da fraqueza.  Jean-Pierre Mignard, próximo do Presidente Hollande e codiretor do semanário Témoignage Chrétien, aborda-a a propósito dos «prolongamentos» do conflito israelo-árabe em França: «é tanto o problema deles como é o nosso. Aliás, a França esteve sempre no coração tanto do mundo judeu como do mundo árabe». Este toque nacionalista e ao mesmo tempo banalizador, porém, está longe de delimitar o problema e parece aceitar um comunitarismo que está longe da ideologia oficial da República Francesa.  Convergentes com estes comentários são as críticas à política de integração dos imigrantes: os maghrebinos (ou parte deles) não se tornaram franceses.

Talvez deva ser interpretado como fraqueza da França o silêncio a que se remeteu o Front National, de Marine Le Pen.  Seria de esperar que um partido que se quer francês condenasse com veemência a violação da ordem pública por causa de um conflito estrangeiro. Nada disso. Este silêncio é devido à sua divisão interna entre os pró-isrealitas e os pró-árabes. Ainda há dias, o Sr. Jean-Marie Le Pen, atacou os judeus e foi criticado pela filha, Marine. Entre os pró palestinianos do Front é influente Alain Soral, um polémico ensa+ista e artista francio-suíço que há alguns anos abandonou aquele partido. A maioria da extrema direita francesa parece aliás inclinar-se  para o apoio aos palestinianos e aos árabes. No outro extremo, o esquerdo, ocorre o mesmo: a vê o palestiniano como a supervítima, merecedora de todo o apoio. O que causa problemas àquela extrema esquerda que defende o casamento gay ou a libertação da mulher: como conviver com organizações políticas árabo-islâmicas que não reconhecem esses direitos e perseguem os que tentam obtê-los?

Outros comentadores relevam o antissemitismo dos manifestantes pró-palestinianos. Laurent Joffrin, antigo diretor de Le Nouvel Observateur, um semanário socialista, editorializa em Libération: «uma esquerda conformista há muito evita ver que existe há anos nas franjas de uma certa juventude – nos arredores das cidades em particular –  um antissemitismo de um novo género, que segue tristemente na peugada das ideias castanhas difundidas pela extrema direita tradicional»; os acontecimentos de Gaza são apenas o seu «revelador»; as ideias «castanhas» são as nazis. Alain Finkielkraut, um inteletual judeu francês celebrizado pelas suas intervenções em defesa dos bósnios, escreveu em Le Figaro: «em nome da luta contra a islamofobia. subestima-se o ódio aos  judeus e à França». Esta identificação retórica judeus-França remete também para o problema da integração.

A questão do antissemitismo aproxima-nos da que levantámos a semana passada: qual o papel da religião no conflito primário, o israelo-árabe, e no secundário, o francês dele derivado, do qual nos ocupamos? A maior parte dos comentadores evita abordar este problema, pelo menos de modo explícito. Vários intervenientes assinalam que a «massa dos muçulmanos e as autoridades que os representam» (Joffrin) condenam o extremismo violento. Sobre o fundo da questão, não há acordo. Para a maioria da opinião publicada, a questão é política.   Mignard  escreve: o conflito israelo-árabe é «político e territorial, datando quanto ao essencial de 1948», e previne: é preciso cuidado para não confessionalizarmos este conflito, cuja solução não será encontrada por meio de orações comuns, mesmo que sejam do Papa, Shimon Peres e Mahmoud Abbas».  Joffrin nega a natureza religiosa da mobilização da extrema-esquerda. Laurent Bouvier, um politólogo universitário próximo do Partido Socialista, também: para ele, o apoio da extrema esquerda à causa palestiniana «não é fundamentalmente de natureza religiosa».

Há quem afirme a dimensão religiosa do conflito.  Frédéric Saint Clair, consultor de comunicação do antigo primeiro ministro Dominique de Villepin, firma: «a dimensão teológico-política do Estado de Israel inscreveu nos seus genes o laço entre judaísmo e sionismo». A afirmação é inexata – o sionismo é um dos movimentos nacionalistas europeus do século XIX e o Estado de Israel admite cidadãos católicos ou muçulmanos – mas é reveladora do que muitos pensam sem afirmarem.

É mais fácil negar a dimensão religiosa no conflito do que pensá-lo sem ela. O Presidente Hollande convocou para o Eliseu os representantes das confissões religiosas, o que era reconhecer a sua influência. Mignard escreve que as orações não resolverão o conflito mas acrescenta que «os religiosos podem desempenhar um papel apaziguador». O que, mesmo se se referir ao conflito derivado, não deixa de ser algo contraditório.  Bouvier negou a influência religiosa mas acrescentou: «mesmo se esse apoio[da extrema esquerda aos palestinianos]  conduz, como hoje vemos, a uma mobilização e a um combate  ao lado de pessoas que têm claramente preocupações religiosas». Isto é: só a nega para a extrema esquerda franco-francesa.

Se não é claro para a opinião publicada em França o modo da relevância da religião  no tempo francês israelo-árabe, se a existência desse modo parece perturbá-la, parece certo que com a agudização deste conflito emerge uma afirmação da identidade católica: há alguns anos, teria sido possível uma manifestação de defesa dos cristãos no Iraque como a que ontem encheu o adro da catedral de Notre Dame, em Paris, documentada na foto de abertura do presente post?

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