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Dia Nacional do Peregrino: Manobra eleitoral ou Estatização do religioso?

Junho 30, 2014

Peregrinos

Sexta feira passada,a Assembleia da República aprovou uma resolução recomendando ao Governo que estabeleça o Dia do Peregrino, a 13 de Outubro, porque entre nós «existe uma forte tradição na realização de peregrinações cristãs direccionadas para os mais variados locais de culto, com destaque para aquelas que se decorrem no Santuário de Fátima,» e porque «importa também valorizar o motivo que o levou a fazer essa jornada, determinante para a sua vida, onde muitas vezes se procura o sentido da própria existência, como um percurso interior».  Quase não houve votos contra. Os relatos jornalistísticos, abaixo referenciados, nos quais Estado e Igreja se baseia, são contraditórios entre si  sobre quem apresentou o projeto de resolução (o PP ou o PP/PSD) e relatam o evento de modo sumário.  As abstenções e votos contrários parecem ser ambos do PS, mas ignoramos os seus fundamentos, caso  os tenham publicitados.

Os fundamento da resolução merecem reparo pois, sugerindo que são a favor do peregrino de fé cristã, de fato são a favor da identificação do «sentido da própria existência» – o qual, como é sabido, pode de boa fé nada ter a ver com a fé cristã em geral e com Fátima em particular – nem com os outros locais de peregrinação sitos em território português, pertençam eles a que religião pertencerem.

O estatuto do peregrino é um ilogismo num Estado de Direito: beneficiará ele de direitos que não caibam aos cidadãos não peregrinos? Ou, em simetria, será  será desvalorizado? Ou terá que pertencer a uma Ordem dos Peregrinos, aprovada pelo Governo ou pela própria Assembleia? Ou o Estado dará um «cartão de peregrino»? Dará a quem o pedir? Haverá exame da Proteção Civil para receber tal cartão? Sem ele nao haverá direito a peregrinar? Ou será um insignificância, tipo um slide  no tempo de antena do governo?

Num certo sentido, é  indiferente quem propôs e quem apoiou esta resolução pois é ela absurda. Absurda pois obrigaria a separar os peregrinos cristãos portugueses dos estrangeiros. Ou, descontado o período de caça aos gambuzinos que atravessaremos até às próximas eleições legislativas e presidenciais,  não será absurda? Será um convite à socapa para convidar à violação da liberdade religiosa, ou violando-a mesmo. Miscigenando motivos cristãos com motivos acristãos, a resolução estabelece um princípio de fiscalização estatal da prática religiosa – sob o pretexto falacioso de a apoiar. Um apoio que, tanto quanto é do domínio público, nem Fátima  nem a Igreja Católica nem nenhuma outra confissão religiosa pediram e que, dado sem ter sido pedido e sem necessidade visível, só pode fazer-lhes mal.

A nacionalização do peregrino deve ser evitada – como qualquer outra estatização do fenómeno religioso. E deve ser evitada quer seja simples e condenável manipulação da fé dos cidadãos, quer seja o começo de uma estratégia estatizante de mais longo fôlego.

 

Relatos da imprensa:

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/parlamento-aprova-dia-do-peregrino

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/nacional/portugal-parlamento-aprova-criacao-do-dia-do-peregrino/

http://www.publico.pt/politica/noticia/criacao-do-dia-do-peregrino-divide-bancada-do-ps-1660757

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