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Domingo o Papa Bergoglio condenou a Máfia como nenhum Sumo Pontífice a condenara

Junho 23, 2014

SantoAmbrtósioImperadorAjoelhadoSanto Ambrósio de Milão com o Imperador a seus pés: o modelo para o Papa Bergoglio? (pormenor de um óleo de Pierre Subleyras)

O Papa Francisco consagrou a semana passada a aspetos das relações entre os católicos e o Estado, ou a organização política. Ontem, à Ave-Maria, condenou a tortura, qualificando-a de «pecado mortal». Ontem também, na Piana di Sibari, uma aldeia da Calábria, excomungou a pertença à Máfia, cuja versão local é a ‘Ndrangheta: ela é «a adoração do mal e o desprezo pelo bem comum».   Sábado, na cadeia romana de Castrovillari,  condenou a violência contra as ciranças.Sexta-feira, falando na sala Clementina do Palácio Apostólico à Conferência Internacional para a Aplicação das Lei das Drogas, condenou o uso, delas mesmo sendo apenas recreativas. Na missa  faz hoje oito dias, lembrou Nabote, que foi assassinado apenas porque o rei Nacab lhe cobiçava a vinha – e evocou Ambrósio, arcebispo de Milão, que não hesitara em enfrentar o Imperador romano.

A atualidade papal da semana passada começara por ser dominada pela entrevista de Bergoglio a La Vanguardia, para a qual Estado e Igreja chamou a atenção, e na qual voltou a atacar o capitalismo em termos mais do que inequívocos e para muitos anglo-saxónicos inaceitáveis.  The Economist, um respeitado semanário londrino, sublinhou a identificação entre o capitalismo e a guerra, operada pelo Papa Francisco, e encontrou-lhe um antecessor: Vladimir Illitch Lenine, o mítico dirigente do comunismo russo. As declarações mais recentes de Bergoglio trilham um caminho suscetível de aplauso generalizado e por isso podem ser vistas como uma adaptação tática. Exceto no relativo a santo Ambrósio, claro.

Não deixa de ser curioso que, a haver adaptação, o Papa a opere no terreno social e não no estritamente teológico. As recomendações sociais de Bergoglio têm uma base teológica mas aplicam-se ao mundo e não à  Igreja. É curioso registar que, sexta-feira passada, quando o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, se encontrou com o bispo de Roma, a re-reconciliação da Santa Sé com a Church of England foi feita em torno do combate comum ao tráfego de seres humanos – e não à volta  de um aprofundamento dogmático. Re-reconciliação porque os anglicanos acolheram com desagrado a iniciativa do Papa Bento XVI de estabelecer em 2009  uma prelatura católica na qual os anglicanos descontentes com a ordenação de mulheres teriam o direito de entrar em massa.

O episódio mafioso é o mais relevante da semana. Nunca um Sumo Pontífice fora tão longe como Bergoglio na condenação da Mafia. A excomunhão é simbólica, e não resulta do assim designado processo canónico mas nem por isso é menos vigorosa: é dirigida aos próprios mafiosos, para os isolar das suas comunidades, segundo fonte vaticana.  Em 1993, o Papa João Paulo II  limitara-se a dizer aos mafiosos que «um dia eles enfrentariam a justiça de Deus» e a Mafia respondeu meses depois com bombas em igrejas católicas em Roma.

A encenação da condenação mafiosa aumenta-lhe o destaque. Ela foi  proferida na localidade onde foi recentemente assassinado Nicola “Coco” Campolongo, uma criança de três anos, filha e neta de mafiosos. Para assistir à missa em Sibari,  a Igreja mobilizou largas dezenas de milhares de pessoas, com cuidado aparato. Sábado, na cadeia de Castrovillari, encontrou o pai de “Coco”. Era difícil ir mais longe na dramatização.

Qual a sequência próxima da excomunhão da Máfia? O Sumo Pontífice insistirá na mobilização sistemática contra a Máfia, iniciando uma nova fase do seu pontificado? Ou passará a outros tópicos?  Tanto mais que essa condenação desagrada a qualquer governo italiano, pois nenhum gosta de ver o seu país identificado com coisas tristes.

Pondo a questão outros termos: Bergoglio toma como modelo as doçuras de João XXIII face à sociedade contemporânea, ou as durezas de santo Ambrósio de Milão para com os seus coetâneos?

*

Texto do Economist:

http://www.economist.com/blogs/erasmus/2014/06/francis-capitalism-and-war

Encontro com o arcebispo de Cantuária:

http://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/could-the-archbishop-and-the-pope-really-reunify-the-church-9552879.html

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