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O Regresso dos divorciados > o 1º Teste do Papa Francisco face à Igreja e ao Estado

Junho 2, 2014

Casamento Católico

A atitude do catolicismo perante o divórcio é uma das fronteiras com o Estado contemporâneo. Como é sabido, o Estado aceita o divórcio, com facilidade crescente, ao passo que a Igreja Católica o assimila a um pecado mortal e veda aos divorciados o acesso à comunhão.  Esta proibição contribui por certo para a vaga em curso de esvaziamento dos templos católicos e para a crescente indiferença de numerosos católicos perante as orientações da hierarquia.

Em fevereiro, o cardeal Walter Kasper admitiu a hipótese de os divorciados serem readmitidos  à comunhão, o que concretizaria na prática a aceitação do divórcio pela Santa Sé, fosse qual fosse a modalidade  teológica escolhida. Desde então, intensificou-se o debate interno ao catolicismo.

Um dos modelos invocados para a flexibilização do casamento católico é o da Ortodoxia, onde o segundo casamento é aceite. O tema já fora levantado no Concílio do Vaticano II.  Elias Zoghby, um bispo greco-melquita, disse na aula conciliar, a 29 de setembro de 1965, «os padres da Igreja Oriental procuraram dissuadir as viúvas e os viúvos de um segundo casamento, seguindo o conselho do Apóstolo, mas nunca desejaram privar a esposa inocente, injustamente abandonada, do direito de voltar a casar». A Ortodoxia  atende às palavras do Evangelho de S. Mateus:  «aquele que se divorciar de sua mulher – exceto em caso de união ilegal – expõe-na a adultério e quem casar com a divorciada comete adultério» (5,32; cf também 19,9).  O catolicismo ocidental preferiu seguir São Lucas 16,16-18, que não inclui a exceção «exceto em caso de união ilegal», e por isso parece estabelecer uma regra sem exceção. Porém, o catolicismo tem dissolvido casamentos: além da anulação canónica, o privilégio paulino (que permite a um cônjuge convertido ao catolicismo divorciar-se do que não o acompanhe nessa conversão) e o privilégio petrino (que autoriza sem condições o Sumo Pomtífice a anular um casamento).

É curioso que hoje Sandro Magister, no seu blog de catolicismo conservador, procure desvalorizar a prática do casamento ortodoxo.

As palavras de Zoghby provocaram vivo debate que foi fechado, dois dias depois, quando o Cardeal Charles Journet, um teólogo suíço, interveio na Aula conciliar para rejeitar o divórcio; as suas palavras foram acatadas pois sabia-se que intervinha por impulso do Papa Paulo VI.

Em 1965, o Papa Paulo VI matou-as no ovo as expetativas em relação ao divórcio mas deixou que elas se desenvolvessem sobre o controle da natalidade  e pagou um preço elevado quando, três anos depois, as afogou na Humanae Vitae, que proibiu a pílula.  Hoje, o Papa Francisco acalenta expetativas sobre o reconhecimento católico do divórcio – e, se não as satisfizer, terá um preço a pagar pois é duvidoso que o mundo atual aceite sem reagir que o catolicismo rejeite no seu seio o direito ao divórcio. Se as satisfizer, talvez também tenha outro preço a pagar: no já citado blog, o Pe. Carlo Buzzi menciona a esse propósito a possibilidade de um cisma conservador. Esse preço – e o concomitante prémio – não serão apenas relativos ao catolicismo internamente considerado mas também e talvez sobretudo às suas relações com o Estado.

*

O post de Sandro Magister está em

http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1350806?fr=y

Texto do Pe. Carlo Buzzi:

http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1350799?fr=y

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