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Eleições na Índia: após a Vitória do BJP, Receios Católicos (com um Salto a Goa, Damão e Diu)

Maio 19, 2014

NarendraModiDepoisDeTerVotadoNarenda Modi, o chefe do BJP, acabado de sair da assembleia de voto

Na Índia, o partido  Bharatiya Janata (BJP), dirigido por Narenda Modi,  ganhou as eleições para o Lokh Sabha, a câmara baixa do parlamento, com uma forte maioria absoluta.  Esta vitória está a suscitar rceeios das minorias muçulmana e cristã, que são respetivamente cerca de 13,5% e 4,5% da população da maior democracia do mundo.  Estas minorias votam em geral no partido do Congresso, o grande derrotado destaas eleições. «Por vezes, pequenos grupos de fanáticos preocupam-nos», confessou à agência Fides Albert D’Souza, arcebispo de Agra e secretário geral do episcopado indiano – mas acrescentou : «a Igreja continuará a rezar pelo novo governo».

Os receios derivam não só de o BJP ser um partido nacionalista hindú  mas sobretudo de Modi ser acusado de em 2002 ter organizado ou tolerado um enorme massacre de muçulmanos  no seu estado natal, Gujarate, vizinho de Damão e de Goa.

É exato que o novo nacionalismo hindú pode conduzir a extremos. Em Fevereiro deste ano, Dina Nath Batra, um diretor de colégio reformado, conseguiu que um tribunal indiano proibisse o livro The Hindus: An Alternative History, de Wendy Doniger,  editado em 2010 pela Penguin India (hoje propriedade da Bertelsman e que, não recorrendo, aceitou a sentença). Doniger, uma universitária norte-americana que investiga a cultura indiana, explicou há dias documentadamente como hinduistas nacionalistas tentam condicionar a investigação científica sobre o hinduísmo não só na Índia mas na própria América.

Não escapou porém ao leitor que D. Albert D’Souza exprimiu, além de receios, um mínimo de confiança no novo governo. Há razões para ela. No seu discurso de vitória, Narendra Modi  declarou preferir «a cura ao mal, a inclusão à exclusão, o desenvolvimento à divisão». Estas palavras sugerem que o BJP  agirá mais como um partido desenvolvimentista partidário do mercado livre do que como um partido nacionalista extremista.

GoaMapaSe examinarmos o comportamento do BJP nas recentes eleições em Goa, reforçaremos esta hipótese. O BJP ganhou-as em todos os círculos eleitorais onde houve presença portuguesa significativa – e que, como o leitor sabe,conhecem um peso significativo do eleitorado católico: Goa North, Goa South, Daman e Diu, Dadar and Nagar haveli. Para sermos mais precisos, em Goa, cerca de um terço do eleitorado é católico.  Goa South, onde fica Salcete,  elegeu um deputado católico em doze das catorze eleições anteriores (quase sempre na lista do Congresso).

O arcebispo de Goa e Damão, D. Filipe Neri Ferrao, publicou durante a campanha eleitoral um documento apelando ao voto dos cristãos em candidatos seculares e à rejeição dos comunitaristas   (tipo Congresso e tipo BJP respetivamente, esclarece Estado e Igreja);  e acusou o BJP de ter manipulado a Comissão Eleitoral para que as eleições locais se realizassem Quinta-Feira Santa, um dia pouco conveniente para os católicos irem votar.

Isso não dissuadiu o BJP de apelar ao voto católico: o Sr. Panikar, o seu principal chefe em Goa, fez campanha em Salcete, o bastião católico, ao lado de candidatos católicos,  recusou explicitamente a acusação de se lhes opor e lembrou o dinheiro que tinha dado para as comemorações de S. Francisco Xavier em 2013; falando na campanha em Salcete, acrescentou um argumento que diluia em localismo goês a presumível vitória nacional do BJP: «Dois deputados não farão diferença para a maioria no Centro mas serão importantes para o desenvolvimento de Goa». Se o BJP quisesse excluir os católicos, dificilmente lhes pediria o voto.

Outros fatores contribuíram para a vitória goesa do BJP. O Congresso escolheu mal os seus candidatos. Churchill Alemao, um dirigente católico e antigo chefe do Governo de Goa, abandonou o Congresso e concorreu por outro partido, o que retirou votos cristãos ao partido da família Gandhi. A campanha eleitoral foi tranquila e a participação (mais de três quartos de votantes) foi a mais alta de sempre o que surpreendeu os atores partidários de todos os quadrantes.

Pelo menos em Goa, parece que as virtudes englobantes da democracia representativa marginalizaram a dimensão exclusivista do nacionalismo indiano.

*

Um estudo informativo sobre a Índia, de Pankaj Mishra, um romancista e ensaísta indiano, muito crítico de Modi e do BJP, está disponível em

http://www.theguardian.com/books/2014/may/16/what-next-india-pankaj-mishra

Um artigo de Wendy Doniger sobre as tentativas de censura operadas por nacionalistas hindús, está acessível em

http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/india-censorship-batra-brigade/?insrc=whc

Um artigo sobre a campanha eleitoral em Goa pode ser lido em

http://indianexpress.com/article/india/politics/in-catholic-bastion-goa-cm-mutes-narendra-modi-rhetoric/

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