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Imprensa regional (católica) em Portugal: um fenómeno único

Fevereiro 10, 2014


SemanáriosCatólicosdeAtualidadesTiragemFonte: Alexandre Manuel,
Da Imprensa Regional da Igreja Católica, p.116. Notas: As tiragens são por edição.

A imprensa regional tem no nosso país uma expansão e uma credibilidade que são exceções no panorama europeu – e a imprensa regional católica partilha estas caraterísticas, conclui o Prof. Alexandre Manuel depois de um minucioso estudo publicado no livro Da Imprensa Regional da Igreja Católica, recentemente editado pela MinervaCoimbra.

AlexandreManuelAlexandre Manuel carateriza a imprensa regional católica como «vendida por assinatura, quase inteiramente dirigida por padres, com redações constituídas por profissionais de bom nível escolar e com uma tiragem da ordem dos 5000/6000 exemplares por edição»; nas suas redação trabalham poucas mulheres, mas este aspeto não os distingue do grosso da imprensa portuguesa. O somatório de centenas de títulos dá uma tiragem global elevada.  Estas conclusões resultam de um valioso inquérito que o autor dirigiu a essa imprensa. Alexandre Manuel distingue os jornais católicos cuja informação é sobretudo religiosa –por exemplo  A Voz da Verdade no Patriarcado, ou o Notícias de Setúbal, na diocese sadina –  daqueles que aliam ao noticiário e à opinião religiosos uma cobertura informativa das realidades políticas, culturais, desportivas: por exemplo O Almonda (Torres Novas, diocese de Santarém),  Badaladas (Torres Vedras, Patriarcado),  Correio de Coimbra, Correio do Vouga (Aveiro),  A Defesa (Évora),  A Guarda, Jornal da Beira (Viseu), A Reconquista (Castelo Branco), A Voz do Domingo (Leiria). É a este último grupo que consagra o essencial da sua investigação.

Estes semanários católicos de atualidade são diocesanos – e impressos em papel, embora muitos ofereçam edição na Web. A Igreja católica impulsiona jornais com outra periodicidade – mais de metade dos seus títulos são mensários – e esta tese também os enquadra. Contudo, os semanários de atualidades são decisivos, em particular para a relação entre o catolicismo e o Estado em Portugal.

O público da imprensa de inspiração cristã está envelhecido – quase metade  tem mais de 65 anos – e o seu nível cultural-social elevado; é masculino na sua maioria.

Alexandre Manuel estuturou a sua obra em três partes: caraterização da imprensa regional e local; introdução à sua história, que é uma preparação a uma história do jornalismo católico; relação entre o catolicismo e a comunicação social, em particular a imprensa escrita, no Estado Novo e depois do 25 de abril. Além de descrever a imprensa católica, a obra interroga-se sobre dimensões de crise, como o envelhecimento do leitorado ou a  débil estrutura empresarial da imprensa católica, o excesso de títulos e a falta de concertação entre eles – embora todos vão beber à agência Ecclesia. Essa crise parece manifestar-se na recente extinção de títulos tradicionais, como O Mensageiro, de Leiria, ou O Distrito de Portalegre, que chegou aos 126 anos mas não aos 127.

O autor sugere o estabelecimento de semanários supradiocesanos, de mais clara dimensão regional, resultante da colaboração entre títulos existentes. Na nota 74 na página 208, é afirmado: «Tudo parece indicar que as dificuldades para a concretização de um processo de imprensa comum a várias dioceses passam pelo facto de o principal órgão de direcção diocesano ser o bispo, que concentra em si o poder para  ‘para estruturar  e conduzir a actividade da Igreja em todos os aspectos’». Na apresentação da obra, que Estado e Igreja anunciou, D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa, referiu a nota 74.

AlexandreManuelImprensaRegionalDa Imprensa Regional da Igreja Católica O que é Quem a Faz e Quem a Lê  baseia-se numa tese de doutoramento com 267 páginas e numerosos gráficos; foi realizada no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e orientada por José Rebelo, um professor de Comunicação Social, que se tornou conhecido por ter sido correspondente de Le Monde, em Lisboa, desde o «verão quente» de 1975 até 1991. Alexandre Manuel além de universitário é ele próprio um jornalista consagrado e escreveu uma obra não só rigorosa e atual mas de também de leitura acessível e interessante – acessibilidade e interesse que pressupõem algum empenhamento do leitor. Sem termos em conta Da Imprensa Regional da Igreja Católica, será difíicil compreendermos a relação contemporânea entre o catolicismo, por um lado, e as organizações política e social portuguesas, por outro.

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