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João Neves Correia >>> Um pároco na tormenta de Barbacena

Outubro 7, 2013

BarbacenaJoãoNevesCorreiaJoão Neves Correia nasceu no distrito e diocese de Castelo Branco, mais exatamente no Fratel – uma aldeia berço de inesperada proporção de homens célebres, como o Dr. Joaquim Sérvulo Correia, reitor do Liceu Camões, ou o Engº José de Araújo Correia, ministro da República e duradouro parecerista da Assembleia Nacional do Estado Novo  sobre a Conta Geral do Estado; veio ao mundo a 15 de abril de 1878, ordenou-se sacerdote  em 1900 na arquidiocese de Évora, da qual morreu cónego, em dezembro de 1953. Parece um perfil banal: um dos numerosos filhos da cristianíssima Beira que emigraram para o seminário de Évora, por o Alentejo ser pobre em vocações sacerdotais. Seria surpreendente que aquele nome,  ignorado pelo Google,  dissesse algo ao leitor. O leitor reparou na fotografia acima? O Pe Neves Correia tem um ar  atual na postura e no sorriso enigmático   –  e até no olhar ansioso e nos lábios decididos. Este caso dará que falar, como o leitor já verá.

FratelLivrodaMargaridaSérvuloCorreia

Fratel, o paraíso perdido do Pe João Neves Correia

Contudo, o Pe João Neves Correia  foi um dos personagens fulcrais de um dos grandes processos judiciais do fim da Monarquia e do princípio da República: o caso do foral de Barbacena, uma freguesia do concelho de Elvas, cujos habitantes se valiam de direitos de origem medieval sobre os baldios, que lhe eram contestados pelos proprietários, os Andrade, um dos quais, de seu nome Rui, foi deputado do monárquico João Franco e acalentava o pesadelo megalómano da herdade de Fontalva.

Barbacena

Ora o Pe Neves Correia foi pároco colado de Barbacena desde outubro de 1906, no final da Monarquia, quando à paroquialidade era inerente a presidência da Junta de Freguesia, e por isso viu-se envolvido no conflito; depois da separação do Estado e da Igreja, em 1911, com a República,  continuou a dedicar a sua vida a defender os seus paroquianos, até à derrota judicial  – quando nada o obrigava a tal defesa. O advogado do caso era o Dr. António Lino Neto, já então uma personalidade pública, e que seria mais tarde presidente do Centro Católico Português. Os republicanos tinham a princípio tomado o partido dos  populares. A 10 de maio de 1911, A Capital, um jornal democrático da esquerda, escrevia na sua página 2 que Rui de Andrade não tinha razão. Mas, poucos anos mais tarde, o país assistiu ao paradoxo de a justiça republicana reconhecer a um grande proprietário monárquico direitos contra o povo de Barbacena – direitos  que a Monarquia sempre lhe negara. Os Andrades detestavam o Pe Neves Correia, pois consideravam que sem ele a resistência do povo de Barbacena breve seria vencida. Porém, o arcebispo de Évora, D. Luís Eduardo Nunes, apoiou-o sempre.  A ser assim, o modesto pároco terá sido um ator de primeiro plano de um episódio marginal, mas simbolicamente marcante, do novecentos português.

Por isso – e não só por isso – o Pe Neves Correia foi recentemente objeto de um livro, cuja capa reproduzida está à disposição do leitor:

BarbacenaCapaA autora, Margarida Sérvulo Correia, que já escrevera As viagens do Infante D. Pedro, sob a orientação do Prof. Luís Krus,  analisa até à página 132 o enquadramento sócio-geográfico e a articulação Beira Baixa-Alto Alentejo,  com destaque para o Fratel,  descreve as terras de Barbacena, sintetiza o conflito, sumaria as estratégias judiciais de ambas as partes e destaca o pároco Neves Correia, cuja vida foi transformada numa  grande cruz por esse conflito duradouro e violento em que só foi envolvido por interpretação extensiva e generosa do seu múnus paroquial. Às quase quatro décadas, que vão de 1915, a saída de Barbacena, à morte do Pe. Neves Correia, são consagradas cerca de um décimo do total das páginas da monografia. O texto lê-se com facilidade e até com paixão, pois  ação é a de um romance de capa e espada, entremeada de violências, golpes prepotentes e rasgos de grandeza.  Margarida Sérvulo Correia escreveu dois livros em um: a quase biografia do Pe Neves Correia e a primeira monografia rigorosa sobre o caso de Barbacena. A ambos os títulos interessará todos quantos estudem a história político-social portuguesa no primeiro quartel do século passado. Numerosas fotografias, por vezes amadoras mas razoavelmente legíveis – entre as quais as do Fratel e de Barbacena, acima reproduzidas – , amenizam e densificam a leitura da obra.  Vêm depois da quase biografia cerca de 300 páginas de documentos que a autora transcreveu e o benemérito Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa mandou imprimir. Embora centrada no caso de Barbacena, Margarida Sérvulo Correia escreveu a única quase biografia de um pároco de aldeia no século XX em Portugal. No final do presente post, o leitor encontrará o índice da obra. Margarida Sérvulo Correia não só aproveitou bem a bibliografia secundária  – o que é infelizmente raro na historiografia contemporânea portuguesa –, não só  dispôs dos arquivos do Pe Neves Correia, seu tio-avô. como frequentou outros arquivos – como o Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças, o Municipal de Vila Velha de Ródão,, os distritais de Castelo Branco e de Évora,o da igrejade Nª Srª da Graça, em Barbacena, o do Liceu Nacional de Castelo Branco e o do Seminário de Évora, o familiar de Maria José Martins, e o do Prof. António Lino Neto. Esta frequência de arquivos é também um exemplo para muita da nossa historiografia contemporânea, que acha mais cómodo ignorá-los e limitar-se a comer comida mastigada.

JoséManuelSérvuloCorreiaEsses arquivos foram conservados pelo irmão da autora, Dr. José Manuel Sérvulo Correia,   fundador do PPD/PSD ou da geração de fundadores,  amigo de Sousa Franco, governante na área social, docente de Direito, conhecido advogado e mecenas do arquivo da família. Do qual, por certo, ainda haverá muito a extrair para o estudo das relações entre o Estado e o catolicismo, assim como para a vida deste, no século XX português.

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