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A «Encomenda Prodigiosa» da Patriarcal à Capela Real de São João Baptista, na Igreja de São Roque >> Crítica à Parte 1

Setembro 30, 2013

EncomendaSRoqueO Museu Nacional de Arte Antiga e a Igreja e Museu de S. Roque uniram esforços para realizarem uma exposição dupla: a Encomenda Prodigiosa foi feita pelo Rei D, João V a artistas romanos para a sua capela real, transformada em Basílica Patriarcal, situada perto do paço da Ribeira, e para a capela de S. João Baptista que o mesmo Rei Magnificente instituiu na Igreja de S. Roque. A Basílica Patriarcal ardeu no terramoto de 1755 mas a capela sobrevive e é extraordinária. Como aliás toda a igreja de S. Roque, na posse da Misericórdia da Lisboa, que a mantém impecável – e a cujo provedor, o Dr. Pedro Santana Lopes, hoje ministro da Cultura in partibus infidelium, devemos por certo o impulso para esta exposição bifronte. Ontem, no último dia da sua abertura ao público, Estado e Igreja foi ver a  parte da exposição sita nas Janelas Verdes: a mais difícil, pois mostrava apenas a memória infinitamente triste de uma maravilha ardida vai para três séculos.

O conteúdo da exposição ia ao cerne do relacionamento entre o Estado e a Igreja em Portugal no século do Iluminismo, numa fase de mudança no sentido do regalismo, antecipando o que é atribuído a Pombal, e que terá dado o pontapé de saída para separar do catolicismo boa parte da elite – e onde tanto há a estudar com um programa moderno de pesquisa. Esta parte da exposição tinha belas peças mas suscita alguma perplexidades: uma legenda fala da tiara do patriarca de Lisboa mas o que está à vista é uma mitra ornada com minas novas. A tiara é uma coroa, um símbolo da realeza, que os Sumos Pontífices usaram até ao papa Paulo VI e que conservam nas suas armas. Está representada a seguir, numa imagem extraída da Wikipedia.

TiaraPapalA mitra simboliza a proteção do seu utilizador contra o mal, deriva do capacete militar, e é hoje símbolo quase exclusivo do papa e dos bispos. A seguir o leitor vê uma mitra, de trás.

MitraVistaDetrasTiara e mitra cobrem a cabeça mas têm sentidos bem diversos: a primeira representa o rei, a segunda o defensor da fé. O joanino patriarca de Lisboa imitava o papa: tinha direito a sede gestatória, que aliás abre a exposição, e foi autorizado a usar tiara nas suas armas, o que já era uma rara e singular distinção – mas, que se saiba, não foi autorizado a usar tiara na sua cabeça, pois não era rei nem papa, embora D. João V quisesse do seu patriarca lisboeta uma imitação de papa. Por isso era impossível que na sala da exposição estivesse uma tiara patriarcal: é um objeto inexistente. D. Tomás de Almeida, o primeiro patriarca, usou daquele privilégio nas suas armas (reproduzidas abaixo), mas poucos dos seus sucessores lhe seguiram as pisadas.

DTomásdeAlmeidaArmasPaçoDaMitraOsPatriarcasdeLisboap17

                    Fonte: Os Patriarcas de Lisboa, ed. Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa – Aletheia, 2009, p. 17

Uma legenda numa sala da exposição rezava assim: «Cardeal Patriarca de Lisboa», o que pressupõe haver cardeais de Lisboa, quando só os há de Roma (em Lisboa há Patriarcas). Pormenores deste tipo dão ao visitante o sentimento que os  organizadores da exposição não promoveram um trabalho multidisciplinar, com especialistas de direito canónico e das histórias do catolicismo, do Estado, das mentalidades. Estado e Igreja tentou adquirir o catálogo, para verificar estes lapsos – e outros – mas não conseguiu pois o Museu não lhe vendeu o exemplar que tinha disponível ao pé da caixa, no piso da exposição. É também obscuro o conceito da exposição: Encomenda Prodigiosa  sugere que eram prodigiosos os artefatos encomendados – mas quase não há informação sobre eles – ou que era prodigioso o mecenas – mas sobre o Rei Magnânimo pouco mais há do que alguns retratos a óleo e nada sobre a sua psicologia de mecenas das artes ou da religião.  D. João V e a Religião seria um título menos pósmoderno e mais exato – tanto mais que Mafra também aparece na mostra e não está incluído na Encomenda. A maior e a melhor parte dos objetos expostos são religiosos. Mas numerosas legendas têm conteúdos políticos; o visitante é aliás recebido com uma frase que afirma ter havido uma «cultura de isolamento da Restauração». É uma afirmação surpreendente e para a qual não é oferecida nenhuma justificação.  O que sugere que os organizadores  amadureceram insuficientemente os problemas das relações entre o trono e o altar. Estado e Igreja voltará ao caso depois de ter visto a exposição em São Roque, a Parte 2.

*

Para visitar a exposição em São Roque

http://www.museu-saoroque.com/pt/home/em-destaque.aspx

Sobre a capela de São João Baptista

http://www.snpcultura.org/tvb_triptico_Espirito_Santo.html

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