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Papa Francisco: A Estratégia de Caetano?

Setembro 23, 2013

MarceloCaetanoModelo estratégico para o papa Francisco?

O Papa Francisco deu uma entrevista a La Civiltà Cattolica, a revista cultural dos jesuítas italianos, que foi transcrita pelas publicações homólogas de outras nacionalidades, como a Brotéria entre nós. A grande imprensa fez-se eco da entrevista. Estado e Igreja analisá-la-á na exclusiva perspetiva das relações entre ambas estas instituições.

A entrevista começa com uma dimensão autobiográfica, analisa o papel da Companhia de Jesus, à qual o Papa pertence, disserta sobre questões de organização eclesiástica e de estratégia evangelizadora mas evita qualquer palavra direta sobre o Estado exceto: «nunca fui de direita»; atribui essa ideia ao seu anterior «modo autoritário de tomar decisões». Essa frase é um inciso papal num contexto religioso mas não parece lícito concluir que o Papa ignora que a frase será interpretada em termos de política do Estado. Anotemos que a tradução da Études francesa traduz por «conservador», o que eufemiza, ao contrário da Brotéria. Contudo, a autodefinição papal é apenas negativa, pois não se mostra nem diz de esquerda ou de centro – mas mesmo essa definição negativa chocou os jesuítas franceses. Da entrevista aliás não ressalta que o Papa Francisco se interesse por questões estatais ou políticas em sentido amplo e rigoroso.

A entrevista  contém poucas frases sobre a relação entre a Igreja Católica e a organização social.  Esses  temas, que aliás a imprensa diária destacou, são os seguintes: «Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo». Os outros são: «Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente».

Comecemos por registar que a entrevista é apenas europeia e norte-americana: a problemática asiática, do Médio Oriente, africana ou mesmo latino-americana   não ressume nas suas páginas. A América Latina que por elas passa é a de Jorge Luís Borges e não a de Jorge Amado.

O papa Francisco escolheu os célebres temas de civilização e tomou sobre eles uma atitude moderada. Isto sugere que o catolicismo evitará afrontamentos com o Estado, que no Atlântico norte só podem hoje emergir dessas questões civilizacionais.

Sugere, sugere apenas. Essa atitude moderada consiste em manter o dogma intangível e atenuar os seus efeitos práticos negativos pelo tradicional recurso jesuíta à casuística, concretizada na confissão ou na pastoral.

O Papa Francisco, em termos de estratégia, remete-nos para Marcelo Caetano, cujo primeiro slogan foi «A evolução na continuidade», e que pretendia manter toda a dogmática salazarista rejuvenescida e liberalizada. Como todos sabem, aconteceu a Caetano o que Erasmus, em The Economist, suspeita que acontecerá ao papa Francisco: «não cai» nem no campo tradicionalista nem no progressista e por isso pode acabar exasperando ambos».

*

A entrevista do Papa Francisco é uma conversa que o leitor culto segue com agrado. Se quiser descarregá-la  em português

http://www.broteria.pt/component/content/article/101-entrevista-exclusiva-do-papa-francisco-as-revistas-dos-jesuitas?showall=1

e no original italiano

http://www.laciviltacattolica.it/it/quaderni/articolo/3216/scarica-gratuitamente-il-quaderno-n-3918-che-contiene-lintervista–a-papa-francesco/

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One Comment leave one →
  1. Zé Barreto permalink
    Setembro 23, 2013 11:07 pm

    «Nunca fui de direita» é apenas uma refutação das acusações de que foi alvo por parte de dois jesuítas quando era Bergoglio e, novamente, quando se tornou papa Francisco, por parte de um jornal argentino, que o acusaram de cumplicidade com a ditadura de Videla e Cia.

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