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O Caso da Vida Sexual de D. Carlos Azevedo, Bispo Católico

Fevereiro 22, 2013

VisãoDoCarlosAzevedoOs meios de comunicação social portugueses têm dado informações sobre a real ou suposta homossexualidade (e arredores) de D. Carlos Azevedo, ex-bispo auxiliar do Patriarcado e membro de uma congregação da Santa Sé, na sequência de uma notícia ontem publicada pelo semanário Visão.

D. Carlos Azevedo era padre da diocese do Porto, é um historiador conhecido, foi bispo auxiliar de Lisboa, falou-se nele como sucessor de D. José Policarpo no patriarcado de Lisboa e em Novembro de 2011 foi colocado num posto na cúria no Vaticano.

As questões de homossexualidade do clero católico romano são hoje um assunto crucial nas relações entre o Estado e a Igreja e por isso comentaremos a questão. Antes de comentarmos, vejamos os factos e sintetizemos as declarações de sacerdotes católicos. Comecemos porém por uma questão prévia.

Questão Prévia: Porquê agora?

Muitos se perguntam: porquê agora? Pelo menos uma emissora televisiva de sinal aberto afirmou que a notícia pretendia interferir na eleição do papa, barrando o caminho ao cardeal que é o atual superior do acusado, no Conselho Pontifício da Cultura do Vaticano. Que fantasia!  La Repubblica, o diário romano,   ecoou ontem notícias que o relatório dos cardeais  Julián Herranz, Josef Tomko e Salvatore de Giorgi sobre o Vatileaks incluia novidades sobre a homossexualidade na cúria vaticana

http://www.repubblica.it/esteri/2013/02/21/news/padre_lombardi_non_aspettate_commenti_su_vatileaks-53102731/?ref=HREC1-10

Estas novidades  teriam contribuído para a demissão do Papa Bento XVI, o que credibilizaria aquela fantasia. Pensar isso, seria acreditar numa ilusão de ótica. Quem lesse a imprensa portuguesa, sabia que a autodenominada Rede dos Cuidadores se oferecera há meses para denunciar casos sexuais de padres lusitanos. A Visão resolveu por certo aceitar a boleia. Era um furo jornalístico anunciado.

Álvaro de Carvalho, presidente da comissão instaladora daquela Rede,  informou que «esta matéria [acusação a D. Carlos Azevedo], por aparentemente não existir conduta criminosa, não foi objeto de denúncia ao Ministério Público (MP)» e justificou assim a respetiva denúncia pública: a Rede «não assobia para o lado se tal se verificar com adultos», apesar de estar «focada nas abordagens, seduções e abusos de menores». O presidente anuncia que em dezembro passado procedeu a várias denúncias ao MP, pelo que em breve teremos mais casos, reais ou imaginados. Numa televisão de sinal aberto, aquele presidente informou ontem que se tinha oferecido aos bispos para aconselhamento psicológico na escolha de candidatos a postos eclesiásticos, para evitar casos, mas que não tinha recebido resposta.

Os factos

É desejável começarmos pelos factos. Depois da peça da Visão, conhecemos os seguintes: em 2010, um sacerdote português foi à Nunciatura Apostólica em Lisboa declarar que D. Carlos Azevedo teria tido ou teria tentado ter com ele relações homossexuais nos anos 1980 num seminário da diocese do Porto quando D. Carlos era responsável nessa circunscrição eclesiástica. É desconhecida a ação da Nunciatura. Ignoramos ainda se a questão foi comunicada ao episcopado português. O declarante parece ser o padre que é o atual coordenador nacional das capelanias hospitalares.

DCarlosAzevedoD. Carlos Azevedo

Interrogado sobre a referida reportagem, D. Carlos Azevedo disse: «Nego totalmente a acusação de assédio sexual»; afirmou que a Nunciatura nunca o contatou sobre os factos referidos, pelos quais nunca ninguém o teria censurado. Se nega a acusação, D. Carlos afirma conhecer o acusador: quando conheceu a «pessoa em causa”, ela «era já adulta e grande” e o contacto havido «foi só um acompanhamento» no Seminário do Porto; acrescenta: «De maneira nenhuma tive qualquer relação com essa pessoa». D. Carlos declarou que voltara a contactar em Fátima a pessoa em causa depois de 2010, a data da denúncia; recusou dar «pormenores» sobre esse encontro mas, segundo a Lusa,  descreveu a sua posição na conversa então havida como «diretor espiritual e confessor»; disse ainda, parecendo referir-se ao denunciante: «As pessoas que acolhi, que me procuraram, feridas na sua história e que eu entendia, não as excluo do meu amor e da minha dedicação se me contactam. E conviver, estimar, sem exclusões, procurar caminhos de vivência feliz para quem experimentou limites dramáticos da condição humana, quaisquer que sejam, tem trazido suspeita e atitudes de ambiguidade que me fazem objeto de má-língua». Em geral, D. Carlos afirmou: «Remexer em assuntos de há 30 anos (…) não serve de modo ético a informação mas visa meramente sensacionalismo para destruir pessoas».

Comentários de eclesiásticos

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), em nota divulgada no mesmo dia em que foi publicada aquela  notícia da Visão, depois de referir que D. Carlos Azevedo, foi  «envolvido em acusações de comportamentos impróprios», afirma que ele conta com a «oração fraterna» do episcopado.

D. Nuno Brás,que sucedeu a D. Carlos como bispo auxiliar do Patriarcado, afirmou:  «a Igreja é constituída por pecadores»; a esta frase, à Graham Greene, acrescentou: «os pastores da Igreja são pecadores, uns mais do que outros, obviamente».

HmossecualidadeEraconhecidaOntem o Diário de Notícias noticiava mais comentários de sacerdotes sobre o caso: «O padre Carreira das Neves afirma que sabia que o ex-bispo auxiliar de Lisboa é homossexual e que «tinha problemas complicados». D. Januário Torgal Ferreira sabia desde 2007 que Azevedo «tinha tido um comportamento homossexual” (…) Sobre as acusações de assédio sexual agora divulgadas pela Visão, tanto Carreira das Neves, como D. Januário Torgal Ferreira, dizem que não eram novidade».

 Algumas observações

  • O funcionamento dos mass media  apresentou D. Carlos Azevedo como culpado. Assim serão em geral interpretadas as «orações» que os bispos lhes prometem, ainda que   lhe tenham oferecido a sua «solicitude», atitude que talvez exclua a culpa do destinatário. As suspeitas são confirmadas a posteriori por  ter sido inesperada a sua transferência para o Vaticano, quando em certo imaginário estava perto da glória terrestre de ser já Patriarca de Lisboa.
  • Culpado de quê? De abusar sexualmente de menores? De abusar do seu poder para fins sexuais com adultos? De ter tido atitudes sexuais com adultos que nelas consentiram? Neste último caso, estamos perante um ato lícito face à lei civil e a questão apenas interessará o catolicismo. A acusação, porque de acusação, se trata é pouco clara. As circunstâncias em que decorreu o ato acusado são obscuras. O comportamento de D. Carlos terá até sido coisa de nada. Os bispos afirmam: «de qualquer membro da Igreja se espera um comportamento exemplar». D. Carlos teria  tido por hipótese um comportamento um pouco menos que exemplar para um sacerdote católico mas desprovido de gravidade: estaria a penar por ser bispo e não por ser cidadão.
  • O Pe Carreira das Neves e D. Januário Torgal Ferreira parecem desconhecer o conceito de direitos humanos: dissertam em público sobre a vida sexual de um cidadão   (D. Carlos Azevedo) sem para tanto invocarem título, o qual seria necessário, pois trata-se da sua vida íntima, e não invocam razão de ciência para as graves afirmações que produzem; como sabem que ele é homossexual? Viram? Filmaram? Ou não viram mas ouviram dizer?
  • D. Carlos Azevedo parece ignorar também a noção de direitos humanos: não intima os acusadores a provarem as acusações, antes invoca para explicar o caso a sua posição de sacerdote católico – e justapõe-lhe uma descrição sentimental, legitimando a ideia que entre  o acusador e ele  está em curso o ajuste de contas de um caso sentimental (lícito ou ilícito, é indiferente para o presente argumento).
  • Não está excluída a hipótese de a Igreja Católica esconder factos. As declarações de o Pe Carreira das Neves e D. Januário sugerem que o catolicismo aceita para o seu clero a homossexualidade prática, e não apenas ideal, enquanto dos altares abaixo prega o rigorismo sexual para os crentes; mais sugerem que as preferências sexuais do Sr. D. Carlos eram do conhecimento geral do clero – que sobre elas nunca disse nada a ninguém. Os bispos previram por certo esta última hipótese pois escreveram na sua nota: «Contrariando as nossas expectativas, vemos que o nome do bispo D. Carlos Azevedo, atualmente em Roma, está envolvido em acusações de comportamentos impróprios» (sublinhado nosso). No caso, expetativas é uma palavra inesperada: os bispos procedem a julgamento de probabilidade? Se sim, sobre quê? Sem apoiar nem condenar, o episcopado coloca-se ainda numa posição equívoca quando declara não querer «julgar apressadamente». Haverá então algo para julgar. O quê?
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