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Egito: Um Natal Copta Preocupado

Dezembro 26, 2012

Natalcopta2011Natal copta de 2011 em janeiro de 2011: na igreja de São Simão, no Cairo

O Egito, um país de maioria islâmica onde o ano passado decorreu uma «primavera árabe» antiautocrática,  aprovou uma constituição num plebiscito em que votou  um terço do eleitorado, números redondos. Os votos a favor rondaram 60%. Isto é: cerca de 18% dos eleitores egípcios aprovam o novo regime. É pouco. Menos de um quinto do eleitorado é com efeito pouco para lançar um novo regime – tanto mais que os quatro quintos em falta incluem os  egípcios laicos, outros moderados, como o velho Waaf, os coptas, e os muçulmanos salafistas. Se a Irmandade julga ter condições para operar uma reforma constitucional nestas condições, é ingénua ou executa uma agenda oculta.

Os coptas são cristãos egípcios; o seu nome deriva da designação do Egito pelos gregos antigos (Aigyptos > sem o ai- inicial  coptitos em latim). Consideram-se descendentes da população do Egito antigo e são hoje cerca de um décimo da população daquele país. Do ponto de vista teológico, foram muito tempo considerados monofisitas, isto é, partidários de uma só natureza de Cristo, a divina, e por isso foram perseguidos pelos cruzados; mas o Patriarca Chenuda III de Alexandria chegou a um acordo com o Papa Paulo VI e na verdade estão próximos do miafisismo: a natureza de Cristo é divina, mas «incarnada», o que lhe dá a dimensão humana. O miafisismo é sintetizado na frase de Cirilo de Alexandria (376-444): « μία φύσις τοῦ θεοῦ λόγου σεσαρκωμένη (mía phýsis toû theoû lógou sesarkōménē, « Una é a natureza (mia physis) incarnada de Deus o Verbo». A elaborada liturgia dos coptas leva a que sejam por vezes  confundidos com a ortodoxia. Há coptas católicos romanos e coptas evangélicos.

A constituição plebiscitada foi elaborada pela Irmandade Muçulmana, um movimento islâmico de direita, que negoceia a sua sobrevivência com os Estados Unidos. A Irmandade tem afirmado querer estabelecer uma democracia representativa de matriz islâmica. O que, a ser possível, seria desejável, sobretudo se fosse ainda um Estado de Direito.

Os coptas abandonaram a comissão constitucional, que redigiu o texto agora plebiscitado, dizendo não quererem suportar as pressões da Irmandade. É a primeira constituição egípcia elaborada sem a participação cristã.

Haverá democracia representativa no Egito?  Robert D. Kaplan, um estratega americano, escreve: «é provável que surja um regime islamista-criptonasserista, pois os militares usarão a atual vulnerabilidade da Irmandade Muçulmana para conseguirem um bom acordo». O jargão criptonasserista significa autocracia nacionalista – aliada ao islamismo («O Regresso do Nacionalismo Tóxico», no Wall Street Journal,de 23 de dezembro).

Se assim for, no próximo dia 7 de janeiro,  o Natal copta será um Natal preocupado.

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