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Combate Autocracia Laica – Jihadismo Taliban na Síria

Agosto 30, 2012

Mapa etno-religioso da Síria, publicado pelo Wall Street Journal

A guerra civil na Síria prossegue, com o seu cortejo de tragédias, que vão continuar pois, tal como na guerra civil de Espanha (1936-1939), cada um dos lados procura bater o outro em crueldade. Os mass media ocidentais apresentavam há uns meses o terrorismo na Síria como uma provocação do governo de Assad, apresentam hoje como sendo nacional o movimento que se lhe opõe. Curiosa mutação: afinal sempre havia oposição violenta ao regime do Baath, afinal talvez as bombas tivessem mesmo sido postas por terroristas e não fossem a suposta provocação do Baath. Multiplicam-se as informações que numerosos opositores do regime sírio vêm do exterior e são jihadistas, defensores de um regime tipo taliban, práticos no uso da bomba e da metralha.

Há cada dia notícia de mais casos de perseguição a cristãos por parte dos rebeldes sírios, apoiados pela Europa ocidental e os Estados Unidos. E nenhuma por parte do Baath, cujo principal fundador, Michel Aflak (1910-1989), foi aliás um médico sírio de origem cristã. Fundado em 1947, o Baath queria transformar o mundo árabe numa só nação; exerceu o poder apenas na Síria e no Iraque. Aflak cortou com o Baath quando este foi militarizado. É fora de dúvida que o regime sírio é uma autocracia – mas é uma autocracia laica e secular, onde não conhecemos perseguição religiosa. O Wall Street Journal publicava ontem um artigo tentando apresentar o regime sírio como a milícia de uma mini-seita, os alauitas. Como os mass media americanos prometeram a queda rápida do Baath, agora sentem a necessidade de explicarem porque se enganarem – e a explicação pelo alauismo é tão boa ou má como qualquer outra.

Os alauitas são um cisma chiita; a sua designação significa «seguidores de Ali», o primo e genro do Profeta;  praticam uma sociedade secularizada: bebem alcool, as mulheres não usam véu; a sua religião tem uma dimensão secreta.  Os alauitas sobreviveram nas montanhas e só começaram a instalar-se na planície quando a França colonial os promoveu para contrabalançar os sunnitas maioritários, depois de 1918. Existem ainda alauitas no Líbano e na Turquia. Muitos sunnitas consideram-nos herejes. Mas os chiitas iranianos apoiam-nos – e convocaram mesmo para hoje uma reunião mundial dos Países Não-alinhados em Teerão a fim de darem ao Baath sírio um  respaldo internacional.

A tese do WSJ  parece ser uma deturpação: os alauitas são em maioria a favor do Baath, mas também o são os cristãos, os druzos, os ismaelitas e, no plano étnico, os curdos; os sunnitas laicos ou secularizados também o apoiavam e muitos continuam a apoiá-lo, tanto quanto podemos discernir pelo domínio do território, contrastado com o mapa religioso: Aleppo fica em território sunnita e o Baath ganha terreno.  Homs também fica em terreno misto do ponto de vista religioso, embora cercado pelo mar sunnita,  e o Baath parece ter conseguido reocupar o terreno. Pensada em termos religiosos, a base do regime será sempre superior a um quarto da população e não os míseros 12% que o Wsj lhe dá, pois apenas conta os alauitas e talvez os conte por baixo.

Contudo, os governos e os  mass media ocidentais continuam a defender a vitória dos rebeldes – sem terem a menor garantia que eles fundarão uma democracia representativa laica. Seria mais lógico os países da Nato defenderem a democratização do regime laico do Baath do que incentivarem o lado teocrata fundamentalista numa guerra civil.

O artigo do Wsj está disponível em

http://online.wsj.com/article/SB10000872396390444506004577617420413468652.html

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