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Querela dos Ritos, Século XXI

Julho 25, 2012

O padre jesuíta Mateo Ricci, missionário na China do Padroado português do Oriente, em trajes de letrado chinês. Ao fundo ao alto Nossa Senhora e o Menino Jesus (a Fé), a meio à direita a esfera armilar (a Ciência e também as armas de Portugal)

No dia 6 do corrente mês de julho, em Harbin, importante cidade do norte da China, a Associação Nacional (ou Patriótica) dos Católicos da China promoveu a sagração episcopal  de um novo bispo católico. Os bispos sagrantes eram cinco e até ao passado dia 6 estavam todos em comunhão com a Santa Sé, a qual não autorizou essa sagração que, aos olhos católicos, se tornou ilícita e cismática. O Vaticano tinha tido conhecimento prévio da sagração e ameaçou os participantes com a excomunhão, caso ela viesse a consumar-se. A  China não cedeu mas deu um sinal de boa-vontade, adiando por uns dias a cerimónia, de início prevista para 29 de junho, dia da festa de S. Pedro e S. Paulo, padroeiros da igreja de Roma.

Este caso é importante mas não é urgente e por isso Estado e Igreja só hoje o aborda. Com efeito, o caso começa no século XVI.  Em março de 1578, o jesuíta italiano Mateo Ricci partiu de Lisboa para Goa e de lá para Macau, com a missão de evangelizar a China, numa articulação entre o Padroado Português e os Jesuítas.  Na época, só naquela cidade do rio das Pérolas havia chineses cristãos e aliás em pequeno número, todos ocidentalizados, ou seja, aportuguesados. Ricci aprendeu chinês, seguiu para este país onde conquistou a elite, tendo recebido o privilégio de ser o primeiro não chinês a entrar na Cidade Proibida; previra um eclipse do Sol, o que reforçara a admiração que o imperador lhe votava, admiração natural pois a China respeitava o saber.

Ricci explicava o cristianismo aos chineses em termos chineses: apresentava o Deus cristão como o  Céu, usando a terminologia de Confúcio; outros chineses referiam o sobrenatural por outras palavras, levantando complexos problemas de tradução. Ricci respeitava a cultura chinesa e procurava nela inculturar o cristianismo; por isso autorizava o culto do Imperador e dos antepassados, considerando-os cerimónias civis e não religiosas. Se o método de Ricci tivesse sido seguido, a China teria por certo sido convertida ao cristianismo, pelo mesmo caminho da França: a conversão do rei atrai a conversão do povo (sobre as diversas vias nacionais para o cristianismo ver Luís Salgado de Matos, O Estado de Ordens, Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa, 2004; ver p. 208 ss).

Mas o caminho de Ricci, que era o do Padroado português do Oriente, não continuou a ser seguido. Dominicanos e franciscanos preferia a teoria da tabula rasa, que levava a tratar os evangelizados como se fossem em absoluto ignorantes;consideraram esta doutrina cismática, qualificaram de paganismo o «culto» do imperador e dos antepassados e persuadiram a Santa Sé a condená-lo. Estes cultos eram designados ritos e por isso a questão ficou conhecida por «querela dos ritos». A vitória dos adversários dos métodos de Ricci e do Padroado não foi fácil mas conseguiram-na em 1707 quando um emissário do Papa Clemente XI foi à China comunicar ao Imperador a proibição dos ritos chineses. Em resultado, as missões cristãs foram proibidas na China, apenas tendo subsistido em Macau, e só voltaram no século XIX, protegidas pelas baionetas que também impuseram aos chineses o livre comércio do ópio.

É esta a visão que a China tem da atitude da Santa Sé em relação a ela e, do ângulo em que se situa, não parece andar longe da verdade.

Hoje a China pretende que a Santa Sé a consulte sobre a nomeação dos bispos chineses e a Santa Sé recusa essa consulta. embora a aceite em França, para não irmos mais longe. Os chineses sabem desta diferença de comportamento e sentem-se discriminados (sobre a nomeação de bispos: Matos, O Estado de Ordens, p. 228 ss).

O Papa Bento XVI escreveu em 2007 uma carta aos católicos chineses que é a trave-mestra da atitude do catolicismo face à China e desenvolve a atitude adotada pela Santa Sé em 1939; essa carta é  execrada pela parte antichinesa da cúria romana e da própria Igreja Católica na China, pois autoriza as relações com a Associação Patriótica, mas revelou-se insuficiente para permitir um modus vivendi estável com Pequim, que exige a rotura com a Formosa e a «cessação das interferências» da Santa Sé na China – em geral identificadas com o processo de nomeação episcopal mas que de algum modo classificam a Santa Sé com o imperialismo ocidental.

Assim, no século XXI, nas relações entre a Santa Sé e a China, o processo de nomeação dos bispos é o inesperado equivalente funcional do culto do imperador e do culto dos antepassados no século XVII.

*

Carta do Papa Bento XVI aos católicos chineses:

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070527_china_po.html

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