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A Crise Leva o Catolicismo para o Cerne do Debate Político-social

Julho 12, 2012

Os pedintes, agora crismados sem-abrigo, voltaram às portas de igrejas de Lisboa. São outra forma de legitimar a intervenção social da Igreja Católica

No passado dia 9, o Correio da Manhã publicou um inquérito em linha aos seus leitores eletrónicos; a pergunta era: CRISE: Igreja deve tomar posição sobre austeridade? Quando o consultámos, respondiam sim 67% e retorquiam não os restantes 33%.

Inquéritos destes não assentam numa amostra representativa da população portuguesa, representam apenas os leitores que quiseram responder – e que estão entre os mais ativos.

Mas nem por isso deixam de concretizar uma legitimação da intervenção da Igreja Católica no domínio do Estado. Uma enorme legitimação, um plebiscito. Aquela resposta parece contradizer a teoria da secularização: para ela, as igrejas só têm o direito social de se pronunciarem sobre assuntos religiosos.

Mas será que a secularização estará na verdade a ser contraditada? Duas respostas compatibilizam aquele plebiscito com a teoria da secularização.

A primeira dessas respostas é: o catolicismo tem o direito de se pronunciar  porque os seus conselhos são recebidos com indiferença geral. Por isso, ninguém sente a necessidade de defender-se deles, dado serem irrelevantes do ponto de vista social.

Antes de darmos a segunda resposta, propomos ao leitor que leia as frases seguintes, ambas recolhidas na imprensa eletrónica de hoje:

*   O presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, disse à agência Ecclesia não haver espaço para aumentar a carga fiscal sobre os portugueses e defendeu a revisão do acordo com a troika  no sentido de alargar o prazo de pagamento da dívida pública.

* O Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, desafiou os cristão a encontrarem «caminhos novos» para o trabalho, que qualificou de direito, numa homilia durante a tradicional romaria ao santuário de S. Bento da Porta Aberta.

Estas afirmações eclesiásticas sugerem que o catolicismo está contra a política do governo em funções. Tanto mais que não são conhecidas declarações de responsáveis católicos a favor da atual austeridade; há-as, quando muito, de compreensão, por ela decorrer de um estado de necessidade.

Lidas estas frases, a segunda resposta está na ponta da língua: o plebiscito a favor da intervenção política do catolicismo resulta  apenas do apoio de algumas correntes de opinião do Estado, que querem a Igreja Católica como aliada. Nesse caso, o catolicismo agiria sem autonomia social e a sua intervenção social seria simples coadjuvante dos parceiros estatais em conflito. A secularização teria vencido. De passagem: entre os que responderam ao inquérito do Correio da Manhã, as correntes contra a austeridade governamental seriam 67% e as favoráveis 33%.

Do ponto de vista lógico, estas duas respostas são contraditórias entre si – mas talvez uma delas seja válida para certos respondentes e a outra  seja a preferida de outros respondentes. Aliás, podem ser ambas falsas, tanto do ponto de vista do inquérito de opinião como de uma análise objetiva do sistema político português. Na perspetiva da opinião, só estaríamos habilitados a responder depois de um estudo aprofundado de opinião; com efeito, talvez a austeridade governamental seja também aprovada por parte dos que apoiam a intervenção social do catolicismo. Do ponto de vista da análise objetiva, teríamos que aprofundar uma teoria geral da sociedade – e por isso, no que à teoria da secularização concerne, não teríamos trazido uma prova decisiva. Pelo menos com os argumentos que estão em cima da mesa.

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