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A Ressurreição de Lúcifer

Junho 14, 2012

José Maria de França Machado, artista plástico e crítico de artes visuais, acaba de publicar um livro intitulado Lúcifer Uma História dos Diabos. São 130 páginas trepidantes e arrumadas em vinte e dois curtos capítulos,  numa edição Sempre em Pé.

França Machado transforma Satã, um ente celeste há décadas falecido, num personagem de ficção bem vivo que nos fala em discurso indireto livre: «Se Deus era o bem e ele o Mal, os dois não podiam existir sozinhos, porque só se conhece o bem por oposição ao mal e vice-versa». Esta curta amostra revela que França Machado escreve ideias com clareza e aborda com fair play aquele tema delicado. Lúcifer é o príncipe da luz e não o rei das trevas: é mostrado com simpatia, como uma espécie de vítima de Deus, ou da necessidade ontológica, é «a mais infeliz das criaturas», pois Deus, condenando-o a conduzir a humanidade para o mal, privou-o de livre arbítrio. Assistimos às refexões de Lúcifer, que por vezes resvala para França Machado, sobre Deus, sobre a Virgem Maria, sobre Jesus, sobre o mal, sobre o judaísmo, o Islão, a razão, a fé, o livre arbítrio, a violência, a teologia, a exploração do universo, o tempo e o universo físico, etc, sempre em tom ameno, jocoso e ao mesmo tempo sério, leve mas profundo. Esta síntese dos temas controversos da história universal podia originar um livro bacoco ou ofensivo de crenças e sentimentos mas, como nota o editor José Carlos Costa Marques, nele ressalta a «lucidez» e o «humor iconoclasta». O livro é um deslumbramento de inesperados raciocínios e gentis provocações, escrito numa perspetiva iluminista e racional que, num paradoxo final,  reconhece certas vantagens da fé.

O iluminismo abstrato de análise salta por cima de séculos de ciência social. Um exemplo: o que as religiões fizeram foi normalizar, segundo ritos estritos,  a forma de comunicar com Deus». Assim, a organização política é subsumida no livre arbítrio individual e dispensa as instituições Estado e Igreja.

Mas este Lúcifer não é um livro de ciência social, é um conto filosófico, à maneira do século XVIII: o  Zadig, de Voltaire, era a caricatura do livre-arbítro à moda de Leibniz; o Lúcifer de França Machado é a caricatura do destino. Se o leitor quiser pensar a nossa civilização e ao mesmo tempo divertir-se, leia este livro. Verificará se, apesar do racionalismo e do humor,  não há nele uma nostalgia do Deus «velho das barbas». 

Seja como for, é fascinante que haja um livro sobre religião que o leitor lê até ao fim sem saber se é um livro religioso ou não – escrevemos religioso, ortodoxo não é, de nenhuma ortodoxia. Dito de outro modo: o leitor fica sem saber se leu um livro da religião sobre o Estado ou do Estado sobre a religião. Esta ressurreição de Lúcifer é jocosa ou é uma ressurreição pura e simples, ainda que involuntária, talvez até contra a vontade do criador do personagem? O leitor julgará, o Diabo tece-as.

Se não encontrar este Lúcifer em livraria, o endereço seguinte explica-lhe como o encomendar para as suas férias de campo, praia ou cidade:

http://www.sempreempe.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=17&Itemid=61

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