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O Corpo de Deus em Fase de Transição

Junho 7, 2012

D. José Policarpo, no dia do Corpo de Deus, na Sé Patriarcal.

Ontem ocorreu o último Corpo de Deus que foi feriado oficial da República portuguesa, na série iniciada há mais de meio século.  Por acordo entre a Santa Sé e o Governo, durante os próximos cinco anos o feriado estatal será suspenso – e depois a situação será reexaminada pelo Estado português e pela Santa Sé.

A festa religiosa ocasionou declarações de bispos sobre a situação política e social portuguesa. O que é adequado pois aquela celebração evoca a encarnação crística – celebra a presença de Cristo na Eucaristia – , e por isso tem uma dimensão bem terrestre.

Os jornaisdo dia do Corpo de Deus publicavam declarações do bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira,  censurando com dureza o elogio por ser paciente dirigido ao povo português pelo Dr. Passos Coelho na terça-feira passada. D. Januário  declarou-se «profundamente chocado», considerando que, para o Primeiro Ministro,  o nosso povo era «tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico»; concluiu: «Apetecia-me dizer: vamos todos hoje para a rua. Não vamos fazer tumultos, vamos fazer democracia».

Na celebração litúrgica,  na sé de Lisboa, o Sr. Patriarca  disse à homilia: a solução da crise presente só será encontrada com uma «revolta cultural», no respeito pela dignidade da pessoa humana. Outra fonte refere «reviravolta cultural», conceito diferente, mas semelhante no inconformismo. O apelo foi feito num encontro católico-ortodoxo subordinado ao tema a «reflexão cristã sobre crise atual que a Europa atravessa». O sentido das palavras do Sr. D. José Policarpo é mais reflexivo mas parece sugerir um re-exame global dos fundamentos filosóficos da organização política.

O anúncio da suspensão do feriado estatal do Corpo de Deus provocou confusões. Assim, o Diário de Notícias, com base numa notícia da Lusa, titulou: « Corpo de Deus celebrado hoje pela última vez». O diário não distingue o feriado estatal da festa religiosa. Para o ano haverá celebração religiosa do Corpo de Deus, vamos a ver em que moldes – mas haverá. Se for seguida a sugestão de D. Januário, a procissão começará na praça pública e acabará na igreja.  Das palavras do Sr. Patriarca, não parece que possamos deduzir nada em contrário destas inovações litúrgicas.

E.T. A seguir àquelas palavras de D. Januário, o Correio da Manhã revelou os vencimentos que o Estado lhe pagava, na sua qualidade de bispo castrense. D. Januário atribuiu a revelação a malevolência governamental, provocada por aquelas declarações. Vale a pena anotar que estes ataques a D. Januário manifestaram por vezes algum desconhecimento das relações Estado-Igreja Católica. Com efeito, D. Januário ora era considerado bispo no ativo ora reformado. Num certo sentido, está em ambas as situações: passou os 70 anos, o Estado reformou-o e por isso já não dirige o serviço militar/estatal de assistência religiosa; mas não passou a idade canónica e a Santa Sé continua a considerá-lo bispo das Forças Armadas e exerce essas funções.

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