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Novo Escândalo do Vaticano Parece Resultar das Exigências do Estado

Maio 31, 2012

 A toupeira do Vatileaks é o cidadão da esquerda baixa, Paolo Gabriele, mordomo do Papa

O Vaticano volta a estar no centro de um escândalo. Parece provável que tenha sido  a instância estatal internacional que determina esse escândalo.

A seguir, resumiremos os factos conhecidos, enquadrá-los-emos, avaliaremos os seus efeitos e apresentaremos uma proposta de interpretação. Focaremos sobretudo a relação Estado-Igreja. Os factos são poucos, esclareçamo-lo desde já, e apenas é possível conjeturar.

Sumário dos factos

  • Na passada quinta-feira, dia 24 de maio,  o conselho de administração do Instituto delle Opere Religiose (Ior), mais conhecido por o Banco do Vaticano, votou a demissão do seu presidente Ettore Gotti Tedeschi, que fora nomeado pelo Papa Bento XVI para limpar aquele banco das suspeitas oficiais que ele branqueia  dinheiro sujo.  Sábado, 26, foi publicado o memorando acusatório produzido pelo Ior: Tedeschi era acusado de faltar por hábito a reuniões da administração, manifestar um «comportamento pessoal cada vez mais errático» e de organizar fugas de informação.  Carl Anderson, um norte-americano administrador do Ior e presidente dos Knights of Columbus,  uma grande organização  de leigos, afirmou que a demissão fora um risco calculado para melhorar a posição do Banco do Vaticano face aos organismos internacionais de fiscalização penal financeira.
  • No dia seguinte, sexta-feira, 25 de maio, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, revelou que quarta-feira 23 de Maio  a polícia do Estado do Vaticano prendera Paolo Gabriele, mordomo desde 2006 do Papa Bento Xvi, acusando-o de deter sem autorização em sua casa, sita no próprio Vaticano, documentos do Sumo Pontífice, e abrindo-lhe um processo. Bento Xvi declarou-se «afligido» pela situação, segundo algumas fontes; mas faltam informações fidedignas sobre a reação do Papa.
  • No fim de semana,  o jornalista Gianluigi Nuzzi publica um livro, intitulado Sua Santita, editado por Chiarelettere; o seu subtítulo é «os documentos secretos de Bento Xvi»;    o livro faz jus ao subtítulo pois dá à estampa numerosa correspondência para o Papa, em geral incriminatória do Cardeal Tarcisio Bertone, de 77 anos, o chefe do governo do Vaticano, com o título tradicional de Secretário de Estado; fora Nuzzi quem em Janeiro começara a divulgar fugas escandalosas do Vaticano; em 2009, publicara Vatican SpA, revelando escândalos financeiros vaticanos. Afirmou agora que fontes do Vaticano, que não revelou, lhe ofereceram a documentação e insistiu que não pagou um cêntimo por ela; afirma haver um grupo no Vaticano que quer acelerar o ímpeto reformador do Papa; diz: «sou eu quem deslegitima as Instituições Sagradas ou são aqueles que se autodeslegitimam com o assassinato de [Roberto] Calvi [um banqueiro ligado ao Vaticano, que apareceu morto em Londres, em 1982], com Emanuela Orlandi [filha desaparecida e não encontrada de um funcionário do Vaticano], com os massacres da Guarda Suíça, com o banco Ior?»

http://www.cadoinpiedi.it/2012/05/25/perche_il_vaticano_teme_sua_santita.html#imgpost

Estes factos produziram grande comoção em Itália e no mundo, em particular na Europa e nas Américas. «Caos no Vaticano», titulou o Washington Post, que sintetizava assim a situação: «lutas de poder, intriga e corrupção no mais alto nível do governo da Igreja Católica». «Nunca a Igreja Católica deu um tal sentimento de desorientação», escreveu  Alberto Melloni, historiador do catolicismo, no  diário milanês Corriere della Sera.

Enquadramento dos factos. Devemos partir da situação seguinte: o Ior é suspeito de práticas criminosas pelo Grupo de Ação Financeira Internacional (Gafi), apoiado na Ocde, e pelo comité Moneyval do Conselho da Europa; por isso o Vaticano precisa que aquelas duas organizações dêem ao Ior a certificação que aquela instituição financeira vaticana não branqueia dinheiro sujo. O Moneyval reúne em Julho próximo e apreciará o caso do Ior. A curto prazo, esta suspeita ameaça a estabilidade das instituições católicas romanas. Anotemos que o Vaticano recolhe em notas e moedas boa parte das suas receitas, o que o torna apetecível como instrumento bancário de branqueamento. Gotti Tedeschi é um banqueiro conhecido e competente, presidente do Santander em Itália; não estava a tempo inteiro no Ior; é apresentado como membro da Opus Dei. A Ansa, a agência noticiosa italiana, afirma que ele se declarou dividido entre «dizer a verdade e não perturbar o papa»; a Reuters relatou que ele comentou: «paguei pela minha transparência».

É matéria de interpretação o relacionamento entre aqueles factos. O Daily Telegraph começou por considerar «coincidência» a sucessão demissão > prisão. Parece coincidência a mais, mas não é certo que todos os acontecimentos participem de uma mesma conspiração.

Há um mês, o Sumo Pontífice nomeara uma comissão de cardeais para averiguar a origem de recentes e repetidas fugas de informação que aliás o punham pessoalmente em causa. As fugas começaram em Janeiro. Sem autorização do Vaticano, foram divulgadas cartas ao Papa  do arcebispo Carlo Maria Vigano, anterior adjunto do governador da Cidade do Vaticano, revelavam que ele pedia para não ser transferido para núncio em Washington, por ter denunciado vários escândalos da administração vaticana. O Cardeal Bertone era responsabilizado por este castigo e aparecia como patrono da corrupção vaticana. Outra fuga de informação recente fora que alguns cardeais tinha planeado assassinar o Papa.

Avaliação dos efeitos. O escândalo tem consequências negativas para o catolicismo.  A pessoa do Papa é atingida de modo direto. Ora, findo o Concílio, o catolicismo tem vindo a ser hiperpapalizado, em particular graças ao acentuar do papel mediático do Sumo Pontífice. O caso seguinte sugere a extensão dos estragos. Ontem, um inquérito on line do diário francês Le Figaro  revela que 52% dos respondentes consideram que ele diminui a autoridade da Igreja. Le Figaro não é um jornal anticatólico, pelo contrário.

Tentativa de interpretação. Estamos na fase inicial da publicitação do escândalo. O Vaticano ainda não respondeu. Comecemos por enumerar algumas conclusões soltas.

  • Pelas notícias dadas na imprensa italiana, os documentos secretos contêm revelações insignificantes, o que em si mesmo sugere que a Cúria apenas deve ser condenada por não saber autoproteger-se. As intrigas governamentais italianas serão pouco edificantes mas só apaixonarão os italianos. Dito de outro modo: a revelação dos documentos secretos é o facto, e o conteúdo deles é secundário.
  • A autoridade do Papa Bento Xvi não e contestada no catolicismo, embora nos últimos tempos se tenham  sucedido pequenos focos de contestação: integração da Fraternidade S. Pio X e escândalo do bispo negacionista Williamson; missa pré concílio Vaticano II; conflito em curso com as freiras dos Estados Unidos;
  • A desorganização da curia papal é referida há vários anos por todos os que com ela contatam.
  • Forçar uma demissão, para mais com precipitação, como  sucedeu com Gotti Tedeschi, é de todo em todo alheio aos métodos usuais da Igreja Católica e da cúria papal e por isso requererá adequada explicação.
  • O encadeamento prisão > demissão sugere que foram recolhidos em casa do mordomo  Paolo papéis incriminatórios de Tedeschi, mas podemos estar apenas perante uma aplicação da falácia post hoc ergo propter hoc (aconteceu depois de x, por isso foi causado por x).
  • O Cardeal Bertone, o chefe do governo do Vaticano, que há muitos anos é o braço administrativo do Cardeal Ratzinger e do Papa Bento Xvi, é muito contestada por vários setores da cúria. Pode a movimentação resultar de uma contestação organizada contra ele.  O jornalista Nuzzi apresenta assim a suas fontes: vários Monsignori atacariam o Cardeal Secretário de Estado por acharem que ele estava a ser mole contra a corrupção. Mas nada prova que neste particular o jornalista seja verdadeiro.
  • Há um lado não eclesiástico nas fugas: as justificações dadas por Nuzzi  e por ele atribuídas ao «grupo no Vaticano» são estranhas à linguagem  dos eclesiásticos.
  • O mordomo Paolo pode ter agido por conta própria, o que parece inverosímil por razões contextuais e só por elas: o mordomo pode pertencer a uma corrente fanática que…..
  • Além da conspiração eclesiástica e do ato isolado do mordomo, é de admitir uma conspiração  da autoria dos beneficiários não vaticanos da corrupção vaticana, seja qual for a materialidade desta.  Expliquemo-nos. A necessidade que o Vaticano conhece de obter a certificação internacional do seu banco, o Ior, decorre das exigências que o Estado internacional, por intermédio do Gafi e do Conselho da Europa, impõe à Igreja Católica. O Sumo Pontífice declarou aceitar essas exigências.  Se admitirmos que o Vaticano tem que agradar ao Gafi e ao Conselho da Europa, então esses beneficiários não vaticanos estarão condenados. E condenados estarão os monsignori seus cúmplices. Qual seria o seu comportamento racional?  Tentariam desestabilizar o seu inimigo, o Papa Bento XVI, e desestabilizar a cúria, na pessoa do cardeal Bertone; teriam assim alguns meses mais de vida, ou mesmo anos, continuando a usar o Ior para lavar dinheiro. A ser assim, tudo leva a crer que tenham conseguido. Esta hipótese é a que resulta melhor do critério cui prodest (a quem beneficia o escândalo). Mas este critério vale o que vale. Contudo, o Estado imporá clarificação ao Vaticano: pela sua posição no Gafi e no Moneyval saberemos em breve se   Gotti Tedeschi foi demitido por ter feito de menos, por ter feito de mais – ou por se ter enganado, ou por ter enganado.
  • Estas três hipóteses são compatíveis entre si; podemos mesmo admitir que o mordomo Paolo tenha agido por impulso seu, mas que uma das duas conspirações referidas, ou mesmo as duas,  tenha tido conhecimento das suas intenções.
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