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Catolicismo Português: Notícias do Seu Enfraquecimento Muito Exageradas

Abril 18, 2012

Nota: Valores percentuais, no final de 2011. Fonte: Agência Ecclesia, tomando por base a sondagem de 2011.

Foi ontem apresentado à reunião da Conferência Episcopal Portuguesa, em Fátima, um estudo sobre o comportamento religioso da população portuguesa da responsabilidade do Centro de Estudos de Religiões e Culturas (Cerc) da Universidade Católica Portuguesa, apoiado num trabalho do centro de sondagens daquela Universidade. Este estudo de opinião destina-se a substituir as antigas contagens da população presente na missa dominical, que eram realizadas de dez em dez anos, em cima do ano do censo da população. Comentamos esse trabalho com base nas notícias da imprensa, apesar de nem sempre serem de confiança: nelas vimos a frequência da missa situada entre um quinto e metade da população.

Todas as notícias que lemos salientam a diminuição quantitativa do catolicismo. Entre 1999 e 2011 teria passado de 89% a 80% da população, no responder dos inquiridos, que são quatro mil residentes em Portugal, com mais de 15 anos. Também lemos que teriam passado de 86,9% a 80,1%. Alguns órgãos de comunicação social destacam o crescimento do protestantismo. Protestantes e evangélicos teriam saltado de 0,3% da população em 1999 para 2,4% em 2011; os Testemunhas de Jeová de 0,9% para 1,4%. Os crentes de outras religiões de 0,2% para 0,7%.

Estas informações merecem um exame metodológico. Há taxas de crescimento que se afiguram inverosímeis. Assim, o número de aderentes dos Testemunhas de Jeová teria crescido 5,5% ao ano. É muito, embora em rigor não seja impossível. Os protestantes e evangélicos teriam visto os seus efetivos multiplicados por nove em onze anos, o que dá uma taxa de crescimento anual rondando os 90%. Talvez seja verdade, mas parece impossível. O mais provável é estarmos perante dois universos não comparáveis, o de 1999 e o de 2011; ou dois modos diferentes de sondar. Ainda que o crescimento dos evangélicos na periferia de Lisboa tenha sido rápido. O que vimos da metodologia sugere que eram inquiridos os residentes, e não só os portugueses, mas não esclarece se havia tradução para quem não falasse português. A questão surge devido aos valores atribuídos aos muçulmanos e aos ortodoxos. Com efeito, a sondagem assenta numa amostra de cerca de 4000 pessoas, superior à habitual e permitindo reduzir o erro amostral; de fato, tem o erro máximo de amostra de ±1,6% para um grau de confiança de 95%. Se supusermos que a população residente  maior de 15 anos anda pelos oito milhões, qualquer confissão com pelo menos 128 mil pessoas deveria aparecer. Surgem aliás confissões com efetivos muito abaixo daquele valor. Assim, no gráfico inicial os muçulmanos aparecem como sendo cerca de 24 mil e os ortodoxos como cerca de 40 mil. Já vimos estimativas de 200 mil muçulmanos em Portugal e 60 mil parece ser um valor sensato. Qual a credibilidade daqueles c. 24 mil? Os ortodoxos, tendo em conta o volume de imigrantes ucranianos e romenos entre nós, talvez ultrapassem o valor que lhes é atribuído no gráfico. Seria também conveniente registar no gráfico os efetivos das confissões que se situam dentro da margem de erro amostral.

O estudo de opinião faz um esforço notável para distinguir o catolicismo da prática do preceito dominical. Era mesmo esse o seu código genético, pois nasceu para substituir a contagem das presenças na missa de domingo. Contudo, só em parte o terá conseguido. Por exemplo: as notícias da imprensa não referem que o estudo tenha medido as idas ao Santuário de Fátima, em peregrinação individual ou em grupo.  Assim, quem for com regularidade ao santuário de Fátima e não for à missa, não contará como católico a sério, ao que parece podermos deduzir das notícias publicadas. Há um outro aspeto que mostra não ser claro se o estudo mede um ser ou um dever-ser. Assim, confrontado com a queda do número de católicos revelada pelo estudo, o Pe. Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, «sublinhou que essencial para a Igreja é a qualidade e não a quantidade». Como o estudo era quantitativo, o comentário sugere que ele mede os bons católicos e não apenas os católicos, incluindo os maus. Ou melhor: que o estudo é lido assim pela hierarquia, ou pelo menos pelo Pe. Morujão. Algumas dúvidas expressas no presente parágrafo e as do parágrafo anterior só poderão ser esclarecidas pelo exame atento do estudo original e não pela exclusiva leitura das notícias da comunicação social.

A quantidade dos católicos e as suas relações com outras confissões religiosas são elementos decisivos da configuração das relações entre o Estado e a religião. Até há pouco, o catolicismo entre nós era de tal modo mais forte do que as outras confissões que bem podíamos considerar que estava em monopólio no campo religioso. O crescimento rápido  das confissões evangélicas, sugere que este panorama institucional está em vias de alteração. Mas mesmo sem ter em conta a questão de saber se os evangélicos geram uma elite capaz de os afirmar do ponto de vista sócio-político, a vantagem quantitativa do catolicismo mantém-se tão grande que falar em enfraquecimento é enganador. Se Fátima tivesse sido considerada, talvez nem enfraquecimento quantitativo houvesse. Se o leitor voltar a ver o gráfico na abertura do presente post, julgará que a Igreja Católica em Portugal enfrenta alguma concorrência institucional?

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