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Laicidade na Eira, Clericalismo no Nabal

Abril 4, 2012

Sol na eira e chuva no nabal – em regra é nas montagens fotográficas

A política externa dos Estados Unidos e da União Europeia tem sido atacar, pela paz ou pela guerra, os regimes árabes laicos e nacionalistas para pôr no poder o Islão, real ou supostamente moderado. Foi o que aconteceu na Líbia, no Egito e está a acontecer na Síria. Marrocos foi encorajado ou autorizado a adotar o Islão dito moderado.

Esta política nunca foi anunciada nem votada. Por isso, nunca nos foi explicada. É executada graças  a uma propaganda de lavagem de crânio. Os regimes nacionalistas árabes são apontados como violadores dos direitos humanos e os seus opositores como modelos de Estado de Direito. Ora os nacionalistas árabes nem sempre são ou foram flor que se cheirasse em matéria de liberdades públicas, mas os novos senhores da «Primavera Árabe» já revelaram fortes tendências autoritárias, apesar de estarem na infância da arte. A propaganda da Nato tem perdido a cabeça. Os recentes ataques à Mme Assad, da Síria, raiaram o caricato: parece que a senhora leva a sua crueldade ao ponto de comprar malas Gucci. Ao tratarem do Médio Oriente, a Bbc e a Cnn usam métodos nada pluralistas nem objetivos de tratamento da informação.

Como os nossos governos eleitos não nos explicam a sua política externa, estamos condenados a supô-la. Supomos que a razão imaginária desta política é isolar os extremistas muçulmanos sunnitas que estão na origem da real ou suposta Al-Qaida. A maior parte dos sunnitas é pachorrenta, pouco atreita a violências e não quer nada com o terrorismo. Aliàs, antes do 11 de Setembro de 2011, o dia do atentado contra as Twin Towers, a América governava o mundo em geral e o Médio Oriente em particular aliada aos sunnitas. O curioso nesta mudança da Nato é ser ela no geral comandada pelos mesmos cidadãos que mandaram a América enjeitar os sunnitas e passar a apoiar os xiitas, iranianos ou iraquianos, porque deles viria a democratização do mundo muçulmano. Washington pôs à bomba os xiitas no poder no Iraque; os quais hoje estão a correr os americanos do Iraque em grande estilo. Os derrotados renascem vencedores. Como? Sempre a favor da paz, preparam-se para bombardearem o Irão xiita. Apoiando agora… os sunnitas moderados. Será?  Ou será uma política de bonecas russas, na qual cada boneca tem lá dentro outra, mais pequena? Por enquanto, os israelitas detêm o fervor bélico de Obama – talvez porque alguém prefira que as bombas caiam no Irão mais em cima da eleição presidencial norte-americana.

Esta política tem efeitos nas relações Estado-Igreja no Médio Oriente: as minorias cristãs são perseguidas pelos novos regimes, com o aval da Nato. Um dos casos mais graves de perseguição atinge neste momento a minoria cristã na Síria, que já obrigou mais de mais de 50 mil cristãos a fugirem para o Líbano, revelava ontem na Rádio Renascença Catarina Martins, diretora nacional da fundação católica Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

Isto é: na Europa ocidental e nos Estados Unidos defendemos a separação do Estado e da Igreja, que quase todos preferimos. No Médio Oriente apoiamos o clericalismo islâmico, com dinheiro, com armas e com propaganda umas vezes verdadeira e outras mentirosa. O dinheiro dos impostos do leitor e o prestígio de Portugal e da República servem para, em nome dos direitos humanos, perseguir minorias nomeadamente cristãs no Médio Oriente.

O silêncio da Nato sobre esta extraordinária contradição foi agora quebrado por Henry Kissinger, o chefe da diplomacia do Estados Unidos que reconciliou  o mundo em geral e a Nato em particular com a China. Com efeito, o secretário de Estado do Presidente Nixon, publicou há dias no Washington Post um artigo contestando esta nova política. Nesse texto, diz o seguinte sobre o nosso tema:

The Arab League consensus on Syria is not shaped by countries previously distinguished by the practice or advocacy of democracy. Rather, it largely reflects the millennium-old conflict between Shiite and Sunni and an attempt to reclaim Sunni dominance from a Shiite minority. It is also precisely why so many minority groups, such as Druzes, Kurds and Christians, are uneasy about regime change in Syria

Os Estados Unidos e a União Europeia querem ser laicos em casa e clericais no estrangeiro. Não é novidade um Estado ser laico em casa e missionário… no ultramar. O francês Jules Ferry terá dito, no final do século XIX, que a separação do Estado e da Igreja era um produto demasiado requintado para ser objeto de exportação para as colónias; por isso, a 3ª República francesa combateu o catolicismo no seu Hexágono europeu e financiou-o nos seus territórios de África, para os civilizar depressa e em conta, dizia ela.

Assistimos hoje ao paradoxo de Estados de Direito cristãos ou pós-cristãos apoiarem com armas e dinheiros outros países para os ajudarem a combater a separação do Estado e da Igreja, aplicando os princípios persecutórios que rejeitam em casa – contra o cristianismo e todas as crenças que não sejam o Islão. Além de imoral, esta política é suicida: a 3ª República agia dentro do território francês, nós estimulamos os nossos vizinhos a serem muçulmanos clericais. Queremos sol na eira – a separação em Portugal – e chuva no nabal – o islamismo em Marrocos. Pensemos só no nosso caso. O leitor dá-se conta que, em voo de pássaro, Rabat fica mais perto de Lisboa do que Madrid. Aquela tática em breve se revelará impossível – em geral, não estamos a prever sobre Marrocos.

O apoio da Nato ao clericalismo muçulmano  é feito em nome de um pseudo-realismo: esse apoio separaria o Islão moderado da Al Qaida. Senhores realistas, podemos pedir-vos para aprenderem com Kissinger? Ou já classificaram Kissinger como idealista, apenas por  ele considerar que a Líbia pós-Kadafi não é um Estado de Direito Democrático? Senhores realistas,  laicos a norte do Trópico de Cancer e clericais abaixo, por favor, mostrem-nos a sede da Al Qaida e os cartões de sócio… Só pedimos isso porque sem a dita Al-Qaida não conseguis raciocinar: só nos recomendais que façamos o contrário do que essa desconhecida é suposta querer…

É que, convém lembrá-lo, há muçulmanos separatistas e respeitadores da democracia representativa, como os do partido islamita no poder na Turquia, que curiosamente se mantêm afastados, e  a Nato mantém-nos afastados,  destas aventuras médio-orientais.

*

Tratámos de perseguição, e é Semana Santa. Na quadra, é um bom tema para as relações entre o Estado e a Igreja. Tema cristão ou pós-cristão.

Páscoa Feliz.

*

Kissinger defende no seu artigo que os Estados Unidos estão a substituir uma política externa baseada na defesa dos seus interesses nacionais por uma política externa ideológica assente na defesa, real ou imaginária, dos direitos do homem. É um tema diferente do nosso mas, para quem se interessa pelo mundo em que vivemos,  vale a pena ler o texto integral, disponível em

http://www.washingtonpost.com/opinions/a-new-doctrine-of-intervention/2012/03/30/gIQAcZL6lS_story.html

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