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Judeus assassinados em Toulouse

Março 22, 2012

Segunda-feira passada, um indivíduo, que se deslocava de motorizada, matou a tiro três crianças e um rabi à porta de um liceu judeu em Toulouse, França. Pouco tempo depois, o suspeito destes assassinatos foi identificado como sendo Mohammed Merah, de 23 anos de idade, um francês de origem argelina, que é acusado de ter morto três soldados franceses, por influência salafista. Salaf em árabe significa antepassado ou antecessor; os salafistas são rigoristas que querem islamizar as sociedades; muitos deles, aliam-se ao terrorismo e à Al-Khaida; o termo não oferece um rigoroso significado tático, pois abrange tradicionalistas e modernizadores bombistas. O suspeito continuava a monte na hora de fecharmos a presente edição de Estado e Igreja.

Ontem, os representantes das religiões estabelecidas em França foram recebidos pelo respetivo Presidente da República, por causa do assassinato, e da reunião saiu um compromisso de unidade nacional. Se o leitor observar com atenção a fotografia desses dirigentes religiosos, à saída da reunião, verá o seu estado de espírito. A foto é reproduzida de Le Figaro.

Os dirigentes religiosos estão preocupados; receiam que a situação motive perseguições que tomam na religião o seu pretexto e o seu objeto. Os muçulmanos receiam serem amalgamados com o assassino. Os judeus receiam ser tomados como a causa do assassinato.

Que um assassino provoque receios tamanhos dá que pensar. Ou  está todo o mundo enganado a respeito das ameaças atuais à liberdade religiosa ou então a classe dirigente e os mass media têm-nos contado a esse respeito uma história linda mas falsa por ser demasiado otimista. O apelo unânime à unidade nacional francesa é uma prova de força, porque de momento funciona, e uma prova de fraqueza, porque sem ela os conflitos de incidência religiosa talvez fossem ingeríveis.

A unidade nacional exclui, excluirá, o exame social das causas desta violência assassina. Ao menos que não exclua esta evidência: continua a haver minorias que querem o ódio religioso e a sua vontade causa receio à imensa maioria, que receia que assim seja posto em movimento um fenómeno social incontrolável. No século XX, o nazismo e o fascismo matavam judeus para redimir a humanidade e o colonialismo, algum colonialismo, matava muçulmanos para redimir essa mesma humanidade. O comunismo  matava também para redimir a humanidade mas matava sem discriminações religiosas – talvez por discriminar toda e qualquer religião.

O eco provocado pelos assassinatos de segunda-feira sugere que a aparente concórdia religiosa dos nossos dias na Europa talvez assente num magma oculto que pode engolfar-nos de um momento para o outro, como um tsunami social. A evidente fragilidade da unidade nacional francesa pós violência assassina sugere que ela é chamada a existir para evitar que sejam espoletadas tensões culturais perigosas. Por isso, talvez a liberdade religiosa não esteja tão garantida quanto gostaríamos. Na dúvida, devemos agir, antes que  seja tarde. Por isso, uma das nossas primeiras prioridades deve ser a defesa da liberdade religiosa. Devemos ir mais fundo e mais rápido nessa defesa, sempre com o apoio da grande maioria dos cidadãos.

Talvez o leitor ache que em Portugal estamos imunes a esses males. De um modo subconsciente, achamos que quanto maior é a minoria religiosa, maior é o atentado à liberdade religiosa. Mas, em bom rigor,  não é assim. Além de as nossas minorias religiosas serem maiores do que o senso comum supõe.  Por outro lado,  o estabelecimento de um clima de perseguição religiosa na Europa não deixará de influenciar a nossa prática da liberdade religiosa. Também por nós, devemos ter cuidado.

Em tempo: quinta-feira, 22 de Março, já se sabia que um atirador da polícia matara o suspeito. É uma garantia que nunca conheceremos a fundo o crime. E  a leitura da imprensa francesa confirmava o que ontem escrevíamos sobre a fragilidade da unidade nacional francesa : Le Figaro elogiava a política dura do Presidente Sarkozy. Le Monde e Libération elogiavam a tolerância em relação ao Islão. O católico La Croix indignava-se com os cálculos eleitorais sobre os efeitos do assassinato. Era óbvio que, para toda a imprensa francesa, o assassinato era um problema com o Islão. Mas esta visão é muito simplificada e no fundo falsa. Convém ter em conta que foram assassinadas várias crianças judias – identificar o assassinato com o Islão é implicitamente qualificar este de anti-semita e atribui-lhe o monopólio do antisemitismo o que são duas óbvias falsidades. Considerar que os assassinatos relevam do Islão, e apenas do Islão, é esquecer que  o salafismo francês é um fenómeno francês, e não só muçulmano. O que é um gigantesco erro de análise social.

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