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A Doutrina Social da Igreja Voltará Para Condenar os Derivados?

Março 15, 2012

Giulio Termonti, o antigo financeiro de Berlusconi, levará a Doutrina Social da Igreja à velha equidistância entre o capitalismo e o socialismo?

Giulio Tremonti, professor de Direito e três vezes ministro das Finanças e da Economia em governos Berluscioni, apresentou anteontem na Pontifícia Universidade Lateranense em Roma o seu livro Uscita di Sicurezza (Saída de Segurança), editado pela Rizzoli. O livro foi publicado o mês passado. Segundo a imprensa, Tremonti, um economista liberal, considera que está criada uma «assimetria»  entre a economia e as finanças. Assim, em 2011  o Pib mundial  foi 62.911 biliões de dólares e os derivados subiram a 707.569 biliões de dólares, mais do décuplo das trocas de bens e serviços. Os derivados sobem mais depressa do que as trocas e inviabilizam o Estado social. Tremonti declarou que para encontrar uma «via de saída» será preciso lançar um ano «sabático», ou seja,   suspender os débitos por uns tantos anos, pois «existe um volume de débitos e créditos que não tem reflexo na realidade e não são pagáveis», escreve a agência noticiosa Zenite.

É interessante que  Tremonti tenha afirmado anteontem que a saída de emergência da crise não está nem Karl Marx, nem em Adam Smith mas sim na encíclica Caritas in Veritate (2009), do Papa Bento XVI. Como o leitor sabe, a Concilium, revista internacional de teologia, acaba de publicar um número consagrado a «economia e religião, no qual Johan Verstraeten, um belga professor na Universidade Católica de Lovaina, critica o Compêndio de Doutrina Social da Igreja  e a Caritas in Veritate, por se terem aproximado demasiado do capitalismo liberal, contrastando com a tradicional «doutrina social da Igreja» que procurava manter um equilíbrio entre o capitalismo e o socialismo, defendendo o que muitos chamam o «capitalismo renano», um modelo social em que o mercado é suposto obedecer a normas morais e não apenas ao imperativo da maximização do lucro.

O artigo de Verstraeten provocou polémica. É difícil não relacionar as palavras de Tremonti com a crítica do belga: se se confirmar que propõe a severa restrição dos derivados, se for essa a nova orientação da doutrina social da Igreja, então regressará o bom, velho tempo da equidistância católica entre o liberalismo e o socialismo.

Aliás, a fórmula nem Adam Smith nem Karl Marx é típica dessa equidistância e foi muiton usada nos tempos áureos daquela «doutrina social» – quando em Portugal era discutido se o «corporativismo de Estado» do Estado Novo era compatível com o «corporativismo» católico, que no resto do mundo, excetuada a Espanha franquista, exigia a liberdade de associação. Corporativismo significava então a colaboração entre o capital e o trabalho. Esta cooperação  era a linha de demarcação da doutrina social da Igreja face ao liberalismo e do coletivismo, que se opunham um ao outro mas que ambos, cada um à sua maneira, recusavam a colaboração de classes.

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