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O outro lado das missões: o Islão no Moçambique colonial, século XX

Novembro 17, 2011


Moçambique: Memória Falada do Islão e da Guerra, um livro há pouco editado pela Almedina, é em primeiro lugar uma longa entrevista de ciência social na qual Abdoolkarim Vakil, do King’s College, em Londres, interroga Fernando Amaro Monteiro, na sua qualidade de impulsionador de uma táctica de reconhecimento do Islão moçambicano pelo colonialismo português, nos anos 1960 e começo dos anos 1970.

São cerca de 270 fascinantes páginas de perguntas e respostas, introduzidas por Mário Artur Machaqueiro, da Universidade Nova de Lisboa, e sucedidas por um curto e justificativo posfácio do entrevistado, fotografias documentais, cronologias de Portugal , das suas colónias africanas, do entrevistado e dos acontecimentos mundiais, concluindo por uma bibliografia geral. É uma obra a vários títulos significativa e por isso a recensearemos, ainda que com brevidade.

Fernando Amaro Monteiro não é tão conhecido que dispense apresentação.   Nasceu em 1935 em Luanda e licenciou-se na Universidade de Lisboa; monárquico e antisalazarista, entra no golpe da Sé com 24 anos, e é preso pela Pide em 1960; patriota, tem conflitos com o ministro do Exército, general Mário Silva, e decide ir para as colónias; situacionista não salazarista, entra no funcionalismo ultramarino como professor do ensino técnico e chega a Moçambique em 1962; ingressa depois como adjunto no Serviço de Centralização e Coordenação da Informação (Sccim), uma organização provincial de espionagem e informação, será durante vários anos director da Tribuna, o diário governamental em Lourenço Marques, hoje Maputo, e coroará uma carreira de eminência parda como director do Centro de Informação e Turismo, uma espécie de Secretariado Nacional da Informação provincial.   Algum tempo depois de ter chegado, Amaro Monteiro começa a defender que o Portugal colonial deve deixar de identificar os muçulmanos moçambicanos  com o inimigo terrorista, a Frelimo, e passar a reconhecê-los como portugueses; procura aprofundar o estudo rigoroso do Islão moçambicano, estruturado em negro-africano, asiático-hindustânico e nas confrarias; esse reconhecimento tem o confessado objectivo táctico de colocar o Islão ao serviço da unidade nacional portuguesa e culminaria na instituição de forças armadas islâmicas moçambicanas, que seriam pagas pela República Portuguesa em Moçambique.

Amaro Monteiro afirma que conseguiu persuadir da bondade daquela tese o ministro do Ultramar, Prof. Joaquim da Silva Cunha, e os três últimos governadores-gerais daquela colónia Baltasar Rebelo de Sousa, Eduardo Arantes e Oliveira e Manuel Pimentel dos Santos, embora este último seja por vezes criticado e outras elogiado. O apogeu desta táctica foi a ida do governador-geral a uma mesquita, transmitida pela rádio para Moçambique inteiro, e a edição estatal de uma tradução portuguesa de Hadith, frases atribuídas ao Profeta e decisivas para o sunnismo.

Monteiro veio para Portugal depois do 25 de Abril, ensinou em universidades privadas, publicou vária bibliografia académica sobre Moçambique colonial e é autor do livro Salazar e a Rainha.

A entrevista conserva os traços da oralidade, à qual alude o título do livro, apesar do «laborioso processo de reescrita levado a cabo pelo respondente»,  que Machaqueiro assinala na sua análise metodológica. O que contribui para o encanto da leitura. Amaro Monteiro é um personagem. Parece improvável que alguém o tenha acusado de falsa modéstia: não só  se autobiografa como se descreve na sua qualidade de demiurgo científico da política islâmica do colonialismo português em Moçambique.  é impiedoso para todos os que tenham alguma legitimidade para lhe contestarem esta paternidade.

O dispositivo da entrevista é também fascinante. Abdoolkarim Vakil revela um profundo saber sobre a bibliografia científica de Moçambique no final do período colonial e inquire Amaro Monteiro com extremo pormenor, pois andou na Torre do Tombo a vasculhar as informações de serviço que ele assinou em Moçmbique (a propósito: condenemos a Torre do Tombo que mudou as cotas deste fundo, uma prática arquivística unanimemente verberada); esta situação lembra o gato e o rato; Monteiro sai-se quase sempre bem; mas, contrastando Vakil com uma entrevistadora célebre, Ghita Sereni face a A. Speer, temos que salientar que ele não desconfia do seu entrevistado: vigia-o com rigor mas parece a contragosto revelar uma ponta de admiração por ele.

O entrevistado, porém desconfia de si próprio: apresenta-se como português e católico e fala por vezes em nome do Islão, pelo menos do moçambicano. O entrevistado é um minucioso racionalizador dos seus próprios comportamentos, mas nem sempre as suas justificações são convincentes; sumariemos dois exemplos, entre outros: os waabitas moçambicanos só por intervenção sua podem ter participado nas organizações reconhecidas pelo colonialismo português, mas nunca assume essa intervenção,  e apresenta-se como amigo dos sunnitas não waabitas; os waabitas são sunitas tradicionalistas e rigoristas, dominantes na Arábia Saudita. Monteiro declara-se partidário da aliança Portugal colonial-Islão moçambicano, para manter a unidade nacional portuguesa,  mas reconhece a prioridade neste terreno ao bispo de Vila Cabral, D. Eurico Dias Nogueira, e confessa que o combate, porque o   Estado tinha que ter o poder – o que equivale a reconhecer que os inimigos do Islão moçambicano na República Portuguesa eram tão fracos que não impunham a Monteiro uma aliança com D. Eurico. Mas se os inimigos do Islão eram tão fracos em Moçambique, sai diminuído o mérito avocado pelo nosso entrevistado. Acrescentemos que por várias vezes o entrevistado parece pedir a aprovação do entrevistador, o que aliás não é inédito na entrevista sociológica.

Um bom estudo de um personagem político de escalão inferior ao do governo é sempre interessante e faltam-nos livros desses em Portugal. As palavras de Amaro Monteiro são sempre reveladoras sobre ele próprio e serão ou não sobre o que aconteceu em Moçambique e na Guiné do general Spínola, que o entrevistado visitou para efeitos de estudo, como investigador da Universidade de Lourenço Marques.  Machaqueiro procede a alguma contextualização.  Mas a conversa tem um encanto próprio, fruto de muita informação original e de algum fantasismo da nossa administração colonial moçambicana: o leitor sabia, por exemplo, que ela pensou aliar-se ao Sultão de Zanzibar e mais tarde ao governo das Filipinas? Leu bem: Filipinas.

A entrevista é muito informativa sobre o Islão em Moçambique e, em menor grau, sobre a religião católica (é-o também sobre a fase final do colonialismo português, mas este aspecto deverá ficar para outro blog). O leitor toma ainda conhecimento de  inesperadas fontes sobre as missões  cristãs  naquela colónia, e por certo em Angola: a Pide e os serviços de informações.

Quem se interesse pela problemática das relações entre o Estado e a Igreja, lerá com interesse e proveito a entrevista de Abdoolkarim Vakil a Fernando Amaro Monteiro.

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6 comentários leave one →
  1. Fernando Amaro Monteiro permalink
    Junho 23, 2012 11:25 am

    Os comentários acerca do livro sobre o Islão moçambicano perante a guerra 1964-1974 revelam hostilidade “a priori” contra o entrevistado, leitura intoxicada por esse factor e por outros que não se descortinam, e manipulação com a intenção de informar erradamente. Crítica desonesta de alguém que não assina, mas cujo perfil transpira um azedume esquisito e estranhamente ressentido com algo indefinível.

    • Junho 24, 2012 6:14 pm

      Fernando Amaro Monteiro era comentado no post em apreço e por isso o blog Estado e Igreja dar-lhe-á sempre o direito de resposta – ainda que não lhe reconheça a menor razão nas afirmações/acusações produzidas. O leitor, se quiser, (re)lerá o que escrevemos e julgará. A acusação a «alguém que não assina» parece revelar ou precipitação ou menos familiariedade com os blogues – ou ambas.

  2. Mário Machaqueiro permalink
    Junho 23, 2012 5:29 pm

    Não se pode inferir da entrevista feita a Amaro Monteiro que ele alguma vez tenha pensado numa aliança com o governo das Filipinas, mas apenas em explorar, junto desse governo, a propaganda do que as autoridades portuguesas estavam a fazer relativamente aos muçulmanos de Moçambique. Amaro Monteiro sugeriu que se contactasse o Ministério dos Negócios Estrangeiros no sentido de que este endereçasse ao governo filipino cartas de dignitários muçulmanos de Moçambique protestando contra o tratamento dos muçulmanos por esse governo, e contrastando esse tratamento com a política amigável dos portugueses em relação aos muçulmanos. Só isso. Um erro (meu) de revisão da minha Introdução levou a que a frase «articulação com o governo das Filipinas» possa ser confundida com uma qualquer aliança, que nunca foi procurada (creio que a entrevista é clara a esse respeito).
    Como sou um investigador generoso, indico-lhe a fonte onde poderá saber mais sobre este episódio: Arquivo Histórico-Diplomático/MU/GM/GNP/RNP/0456/07170.

    • Junho 24, 2012 6:09 pm

      O blog Estado e Igreja agradece a interpretação do Prof. Mário Machaqueiro e está pronto a considerá-la mais adequada logo que à afirmação se suceda a demonstração. De momento, é apenas outra interpretação. O blog Estado e Igreja permite-se assinalar que não são os «investigadores generosos» que citam as suas fontes: todos os investigadores citam as suas fontes.

      • Mário Machaqueiro permalink
        Junho 24, 2012 7:49 pm

        Infelizmente, nem todos, como deverá saber. Quanto à demonstração, é muito simples: basta consultar a documentação por mim indicada e que sintetizo no comentário que deixei. Note que aqui não se trata sequer de uma «interpretação». Estou só a transcrever ou a citar documentos. A interpretação, qual ela possa ser, tem de vir depois.

  3. Fernando Amaro Monteiro permalink
    Junho 24, 2012 7:55 pm

    Não costumo ler blogues e muito menos aí deixar opiniões. Desta vez, porém, aconteceu. E este é o segundo e último comentário que deixo à prosa – acintosa – de Luís Salgado de Matos, que não conheço nem de nome. Não vou, portanto, aproveitar nenhuma outra vez a sua “disponibilidade” para lhe responder. Por princípio, não alimento conversas com quem pressinta incapaz de emendar a mão, sejam quais forem as motivações desse comportamento.É o caso.
    Rejeito ter entrado no “golpe da Sé”; essa é a designação usada para os civis católicos que lá estavam; preciso pois que entrei como Alferes, e os militares diziam “11 de Março de 1959”. Os SCCIM não eram “serviço de espionagem”, sim de análise : vocação completamente diferente. Fui perto de 4 anos Director do diário “Tribuna”, que não era nem nunca foi órgão do Governo; essa afirmação transporta carimbo de um certo esquerdismo oriundo do Moçambique pós-25/4. Nunca fui “eminência parda”; trabalhei, sim, por força de funções, com matérias classificadas ; isso impunha-me a evidente reserva de comportamentos e também a disponibilidade total para com a ideia de Portugal que defendia, nas metas a atingir,das Informações (pelas vias hierárquicas) à APSIC (aí em apoio directo e classificado) ao GG. Fui louvado em Portaria do Governador Geral Arantes e Oliveira, em “Boletim Oficial”, pela minha actuação nos SCCIM, prática que não se usava para eminências pardas. Diz o texto que o entrevistado “afirma” ter convencido, etc, etc. O que eu expliquei a vários investigadores portugueses e estrangeiros, que têm querido ouvir-me de há anos para cá, é o que está mais do que comprovado com documentação disponível, parte muito importante constando aliás já da minha tese de doutoramento em R.I. na Universidade Técnica de Lisboa, publicada em 1993 pela Universidade Portucalense. Ñão me “autobiografei” ; respondi concisa e detalhadamente às perguntas que o entrevistador me fez, e, é claro, isso forçou-me a falar de mim (como não ?!!). Não era “amigo dos sunitas”; não era minha função “ser amigo de” fosse quem fosse; eu servia um grande objectivo, e isso, é óbvio, punha-me atento às alianças necessárias. Não desconfio de mim próprio. Desconfio, sim, de pessoas que escrevem como o senhor.
    Teria bastante mais para lhe dizer. Mas repito que fico mesmo por aqui.

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