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Os Pára-Raios na Igreja – ou a Subida da Tensão Estado-Igreja

Abril 13, 2011

O dia 13 de Abril de há cem anos foi marcado por muito mau tempo em diversas zonas do país. A actualidade religiosa invadia A Capital pois era Quinta-Feira Santa e o debate do projecto  de lei da separação estava a chegar ao final. Aquele vespertino republicano puxava o tema religioso para o destaque da primeira página.

A caricatura era muito reveladora do espírito da época: para o caricaturista, a chuva na Semana Santa sugeria que Deus, a existir, não apoiava os católicos; a legenda parece responder já a certas críticas católicas, que depois crescerão: a chuva fora «mais jacobina» do que o governo provisório. O desenho relevava da mesma lógica de um fado, então popular, que dizia numa das suas estrofes:

Os pára-raios na igreja

demonstram bem aos ateus

qu’o crente por mais qu’o seja

não tem confiança em Deus

A notícias da direita é o começo de uma reportagem assinada por F. da Silva Passos sobre os meios da emigração monárquica na Galiza; Tuy era o seu principal centro. O título revela que a propaganda republicana, parte dela pelo menos, começava a atacar a ligação entre os católicos e os monárquicos: «Além fronteira Tuy, feudo de Torquemada transformada em soalheiro de coscovilhice Igrejas, crucifixos, bentinhos, beatos e ‘conspiradores’». Silva Passos era um prestigiado republicano da propaganda, que recusara ser diplomata republicano para ser jornalista e político; morreu jovem e parece que a sua viúva era lésbica.

Mas havia ainda mais assuntos religiosos na primeira página d’ A Capital. Receando por certo que a Lei da Separação não chegasse a ser aprovada, republicanos de Belém anunciavam que iam festejá-la – mesmo antes de ela  existir.

Na página 2 do vespertino, prosseguia o noticiário religioso – que começava pela preocupação com a menor afluência às cerimónias nas igrejas de Lisboa; atribuia-a à chuva e não à mudança de regime; destacava as montras enfeitadas no Chiado e na Baixa. E acrescentava, na continuação, convocatórias para sessões de propaganda anticatólica que ocorreriam nesse dia à noite. O nosso conhecido Augusto José Vieira falaria sobre «o suplício com que o clericalismo de há 20 séculos se vingou de Cristo».

A Capital preocupava-se por as igrejas de Lisboa estarem vazias e por as do Porto estarem cheias, como o leitor de seguida verá; parecia consolar-se por o Adamastor continuar na capital do norte. Vale a pena transcrever a local, apesar de o original não ser perfeito.


A segunda página informava ainda que Sebastião Magalhães Lima, o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, continuava doente, mas conhecia melhoras. O republicano Ramada Curto fora falar a Tavira, onde tinha sido recebido por 500 pessoas: «o elemento feminino fez-se representar largamente, assistindo até mulheres do campo». Eram duas surpresas num comício republicano: mulheres, e mulheres do campo.

Não havia só Lei da Separação: tinha começado a venda de bilhetes para a temporada lírica do Coliseu dos Recreios, venda que ia a bom ritmo.

Longe das luzes da ribalta, nesse mesmo dia 13 de abril de 1911, Sir Edward Grey, chefe da diplomacia britânica, informava Villiers, seu representante em Lisboa, que  o ministro português em Londres,  Teixeira Gomes, visitara-o a anunciar as eleições e a pedir o reconhecimento depois delas; Grey respondeu-lhe que sim, mas acrescentou um caveat pesado e pouco explícito: só reconheceria um governo «constitucional confirmado»; aproveitou o ensejo para manifestar preocupação com o recrutamento de mão de obra para Angola e exigiu que fosse absolutamente livre. O leitor já sabe, por um post anterior, que o arcebispo de Westminter, dirigente máximo dos anglicanos, protestou contra a Lei da Separação o que veio a determinar ou a contribuir, em circunstâncias aliás mal esclarecidas, que o reconhecimento oficial britânico fosse diferido.

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