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A Actriz Delfina Vítor Julgada Por Desrespeito à Bandeira Verde-Rubra

Abril 1, 2011

Os cenários de teatro em 1911 eram mais decorativos do que realistas (cena da revista «Num rufo», extraída da Ilustração Portuguesa, de 13 Março de 1911 – e à qual já nos referimos).

Faz hoje precisamente cem anos, A Capital publicava com destaque uma extensa reportagem sobre um caso ocorrido nesse mesmo dia: a actriz Delfina Victor fora julgada na Boa Hora por ofensas à bandeira republicana. Parecia uma «mentira» do 1º de Abril – mas o leitor sabia que era mesmo um caso, pois o julgamento já antes fora anunciado. A Delfina representava no Teatro Apolo, à Mouraria (destruído nos anos 1950), uma cena, envolta na bandeira verde-rubra, contracenando com Lucinda do Carmo, envolta na bandeira azul e branca da Monarquia liberal; a Carmo, apesar de mais velha, era sempre mais aplaudida. A Delfina foi acusada de, depois de uma récita, ter espezinhado a nova bandeira. O Mundo, um jornal que começava a aproximar-se de Afonso Costa no radicalismo laicista, acusou-a.  Foi a julgamento. O público encheu a sala e aplaudiu como se estivesse num comício. Urbano Rodrigues,  redactor daquele jornal, secretário de Afonso Costa (e pai dos escritores Miguel Urbano Rodrigues e Urbano Tavares Rodrigues), prestou um depoimento hilariante para, citando Schopenhauer, Balzac, Tolstoi, concluir que mulheres são sempre mulheres – e por isso, ao que parece só por isso, a Delfina era culpada. Outra testemunha o Dr. Frigorífico de Figueiredo, apresentado como frequentador habitual dos teatros, revelou que os trapos atirados ao chão pela Delfina não tinham as cores da nova bandeira, o azul do trapo não era o azul do símbolo republicano, nem tão pouco o verde  – bandeira que, aliás, só a 30 de Junho seguinte viria a ser aprovada como a nova bandeira nacional.

O caso era hilariante mas mostrava a vigilância republicana – bem cedo denúncias como esta seriam atribuídas à Formiga Branca –  e os limites da tolerância. A cena, porém, podia ser interpretada como uma chacota em segundo grau da nova bandeira.

Ou mesmo como um «poisson d’avril»: a sessão do julgamento parece ter acabado depois de o jornal estar à venda, além de numerosas outras inexactidões que seria  menos óbvias para o leitor de há cem anos.

 

 

 

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