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O Funeral Religioso como Instrumento Antilaicista na 1ª República

Março 24, 2011

Vimos há dias o funeral católico de Augusto Fuschini, com a amável participação do Afonso Costa e Bernardino Machado. O caso interessava ao catolicismo: uma parte dos Republicanos queriam-no expulsar da esfera pública, e os funerais permitiam-lhe uma acrescida e prestigiosa  visibilidade. O caso de Fuschini não foi o primeiro.  A Ilustração Portuguesa, a 26 de Fevereiro de 1912, publicara uma desenvolvida reportagem fotográfica da missa por alma do barão de Rio Branco, o grande diplomata da República brasileira. O leitor medianamente informado identificava em baixo, à esquerda, o Dr. Sebastião de Magalhães Lima, grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido. A revista não lhe dava este título, aliás do domínio público,  talvez por ignorar que Rio Branco era maçon, ou pelo menos desfrutava dessa reputação; aliás, Lima era «brasileiro» e talvez  tivesse conhecido pessoalmente o chefe da diplomacia brasileira  – até para tratar do reconhecimento da República Portuguesa.

A mediatização do carácter católico da cerimónia mortuária – que parecia ir a contra-pêlo da «laicização da morte», tão finamente analisada por Fernando Catroga – prosseguiu até depois do 28 de Maio. O funeral de Sidónio foi o que mais impressionou a opinião pública, em Dezembro de 1918. As exéquias do Presidente foram religiosas, o que a muitos surpreendeu por decorrerem numa República laica e por Sidónio não parecer, aos que o conheciam, particularmente religioso. Estas bodas de sangue da Pátria e da Religião foram registadas na Ilustração Portuguesa.

O caixão leva Sidónio da Câmara Municipal de Lisboa, altar da República, para os Jerónimos, onde Cristo encontra a Pátria; é transportado aos ombros dos cadetes da Escola do Exército, os «cadetes de Sidónio»,  e anunciado por um jovem clérigo, que com o seu enorme crucifixo domina a imagem. As Forças Armadas e a Igreja parecem ter excluído o Estado do funeral do Presidente.

Os funerais religiosos mediatizados prosseguiram. Vemos a seguir a imagem que a Ilustração Portuguesa deu do do comandante Carlos da Maia, um revolucionário do 5 de Outubro, assassinado na «Noite Sangrenta» de 19 de Outubro de 1921, o epitáfio moral da 1ª República. A sua viúva, Berta da Maia, era muito religiosa e por certo foi ela quem decidiu que  o funeral seria religioso; mas certas fontes afirmam que Carlos da Maia começara então a converter-se ao catolicismo – o que aliás era outra moda da época. O chapéu romano com borla fazia estremecer os laicistas mais aguerridos – que, aliás talvez não tivesse sido estranhos a essa morte.

Houve numerosos outros funerais que a imprensa noticiava como levando acompanhamento religioso católico. Era o caso da maioria dos acidentes da incipiente aeronáutica militar portuguesa. Mas ater-nos-emos apenas a mais um, de um paisano: o de Guerra Junqueiro, o poeta cujos  versos tanto tinham contribuído para derrubar a Monarquia e, n’ A Velhice do Pai Eterno, para ridicularizar o cristianismo. A urna mortuária do vate, exposta na Basílica da Estrela, sinalizava aos portugueses que algo estava a mudar nas suas  almas (Ilustração Portuguesa, 14 de Julho de 1923).

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