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A Separação Há Cem Anos: Afonso Costa Vai ao Enterro (religioso) de Augusto Fuschini

Março 21, 2011

Augusto Fuschini, que vemos abaixo, era um matemático e engenheiro distinto, que se demitira com escândalo de ministro das Finanças do  governo  regenerador de Hintze Ribeiro, o que causou surpresa pois começara a afirmar-se socialista; a demissão tornara-o simpático aos olhos dos republicanos; para mais, era um liberal.

Fuschini abandonara a política activa e consagrara os seus últimos anos ao restauro da sé de Lisboa; morreu e teve enterro religioso; ao folhear a 21  de Março de 1911, a Ilustração Portuguesa, publicada na véspera, o cidadão atento não deixou de reparar que nele participaram em lugar de destaque Bernardino Machado (à direita do sacerdote de costas) e Afonso Costa (de perfil, o terceiro a contar da direita, em primeiro plano), ministros do Governo Provisório. Vemo-los abaixo na fotografia.

A revista Portugal-Brasil, dias antes, a 16 de Março, foi ainda mais maldosa: mostrou Bernardino e Afonso Costa como auxiliares de um enterro católico, o que tinha o seu picante; vemos a seguir esta cena. O caixão é puxado por dois homens, em primeiro plano; à esquerda na foto, protegendo o rosto com o chapéu, vemos Bernardino Machado; à direita, com o mesmo sobretudo com gola de veluddo escura, está Afonso Costa, pegando na borla que enfeitava o caixão.

O leitor de 21 de Março de 1911 talvez pensasse, ao examinar estas fotografias, que o episódio da pastoral colectiva podia ser ultrapassado. Se lesse O Comércio de Guimarães, um jornal franquista nesse dia publicado, desiludir-se-ia: «com a maior reserva reproduzimos de um jornal de Lisboa» que o Vaticano está disposto a opor-se à destituição do bispo do Porto – o que revelava que alguns católicos confundia a demissão do prelado efectuada pelo governo com a demissão eclesiástica, confusão aliás legítima pois a separação do Estado e da Igreja ainda não fora decretada; o Vaticano espera para breve o rompimento definitivo, acrescentava o jornal vimaranense.

O cidadão menos atento estaria porém mais preocupado com uma inquietante novidade na indumentária feminina, a saia-calção, que fascinava a Ilustração Portuguesa: era mais uma ideia americana e estava a conquistar as espanholas, que não eram apresentadas como as mais amoráveis das criaturas.

«Saia-calção» era um eufemismo para designar calças num corpo feminino e por isso compreendemos o mal estar-dos nossos antepassados perante mais esta facécia da – e citamos da Ilustração – «deusa úbere da moda». Era uma facécia com futuro.

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