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Turquia: foi eficaz a ameaça de sanções aos violadores da liberdade religiosa

Outubro 14, 2018

TurquiaAndrewBrunson

O Presidente Trump ontem na Casa Branca, saudando o pastor protestante, libertado na Turquia após dois anos de cadeia – e ainda visivelmente abatido

A Turquia libertou ontem o pastor protestante estado-unidense Andrew Brunson, acusado de terrorismo, e que arriscava cerca de trinta anos de prisão. O pastor foi libertado depois do Presidente Trump ameaçar a Turquia com sanções. Como então Estado e Igreja assinalou, foi a primeira ameaça de sanções em defesa da liberdade religiosa.

A ameaça foi eficaz. Obrigado, Presidente Trump. Devemos generalizar as ameaças destas sanções? A Turquia está numa conjuntura particular, e não lhe convém multiplicar os inimigos. O que terá ajudado a ceder. Mas todos os países estão em situações particulares e, se o momento das sanções for bem escolhido, terão êxito. Devemos pensar sistematicamente em sanções políticas para defender a liberdade religiosa.

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O Papa na Coreia do Norte?

Outubro 14, 2018

KimJongUn

Kim Jong-un aspirando ao altíssimo?

O autocrata da Coreia do Norte, Kim Jong-un, convidou o Papa a visitar o seu território. Um bispo da Coreia do Sul, D. Lazarus You Heung-sik , defendeu a aceitação do convite e sustentou que a visita papal seria pastoral e um passo para a unidade da Coreia. É fácil de compreender que para um coreano a pastoralidade seja a união política do seu país. Menos liberdade religiosa no norte da Coreia parece impossível. Mas é certo o que o homem de Pyong-Yang ganha com a visita papal (ganha o fim do seu isolamento mundial) e é incerto o que o catolicismo e a liberdade religiosa ganharão com ela. Tanto mais que o monarca comunista nada prometeu a troco da visita. Qual seria o papel do Sumo Pontífice?

A Coreia do Sul é o país mais cristão da Ásia continental (cerca de 30% da população, contra 7% no Vietname). No norte  a perseguição religiosa nem deixa filtrar estatísticas.

Padres pedófilos: inquérito parlamentar pedido em França

Outubro 8, 2018

 

Aupetit

Cardeal Aupetit: uma surpresa nas relações Estado-Igreja

Era previsível e estava previsto: a pedofilia de muito clero católico teria por efeito que o Estado aumentasse a sua fiscalização dos procedimentos da Igreja católica. Estava previsto e já aconteceu: em França, um certo número de personalidades, entre as quais dirigentes do Témoignage Chrétien, propuseram a semana passada o estabelecimento de uma comissão de inquérito parlamentar à pedofilia no catolicismo daquele país. Os resultados são surpreendentes: o Estado desinteressa-se dela, a Igreja Católica, pela voz do novo cardeal de Paris, Aupetit, admite-a como uma possibilidade, se for necessária para sanear o ambiente: para criar «clareza»..

TC

O Témoignage Chrétien viveu sempre da sua herança da clandestinidade patriótica

O Témoignage Chrétien foi fundado durante os anos 1940 na Resistência ao ocupante alemão, que era tolerado, ou apoiado, pela maioria dos bispos franceses, por interposto marechal Pétain. Até há poucos anos foi um semanário em papel que nos anos 1960 se tornou conhecido entre nós por combater o Estado Novo. Já no nosso século, a sua edição em papel deixou de ser publicada, por falta de público e de dinheiro. Há quem acuse a sua atual responsável, Christine Pedotti, de criar um escândalo para regressar ao mercado, mas ela nega: diz querer pôr termo a um escândalo. Foi o único jornal católico a apoiar o casamento entre +pessoas do mesmo sexo, apesar de pouco tempo antes, o Osservatore Romano, o jornal da Santa Sé, lhe ter dado uma palavra de apoio.

As treze personalidades subscritoras do apelo incluem ainda o advogado Jean-Pierre Mignard, amigo do derrotado Presidente François Hollande; François Devaux, presidente de uma ONG dos pedofilizados, La Parole Libérée, Roselyne Bachelot, gaullista de sempre e ministra de assuntos sociais. O manifesto nasce à esquerda, floresce próximo de Hollande o mais anticatólico dos últimos presidentes franceses.

No esquema tradicional das relações Estado-Igreja em França, esperaríamos que os políticos agarrassem a oportunidade de perseguir o catolicismo e este atacasse o inquérito com unhas e dentes. Na realidade, só o enfraquecido grupo parlamentar socialista francês apoiou a reivindicação do inquérito parlamentar. O PCF aprova o princípio mas não quer restringir o inquérito ao catolicismo. O Presidente da Assembleia, Richard Ferrand, próximo do Presidente Macron, recusou a ideia. Os Republicanos, que tiveram François Fillon como candidato a Presidente, recusam-no terminantemente.

É também significativo neste ballet de passos trocados que o chefe da Igreja Católica em França, o cardeal Michel Aupetit, não recuse o inquérito. Até hoje, o catolicismo procura proteger as suas fronteiras institucionais e garantir a independência do seu claro face ao Estado. A própria Lei de Separação francesa, de 1905, reconhece o direito canónico. Ora o direito canónico simboliza aqui a independência da Igreja Católica como instituição e do clero como seu agente. Auupetit renuncia assim a uma garantia duramente conquistada. Terão os dados da Igreja Católica como instituição política não estatal sido ultrapassados pela post modernidade, mais tolerante do que a sua antecessora «a modernidade»?

Será que Aupetit reconhece a incapacidade de o catolicismo francês se autorregenerar no caso dos padres pedófilos? O relatório da Igreja Católica alemã, recentemente publicado, dá informações sugerindo que mais de um décimo do clero daquele pais praticou atos de pedofilia. É uma minoria demasiado grande para ser apenas marginal ou criminal.

BarbariunCardeal

Cardeal Barbarin, primaz das Gálias, acusado de encobrir a pedofilia sacerdotal

Em França o inquérito parlamentar suscita problemas jurídicos: os bispos não são obrigados legalmente a fornecer-lhe documentos pois ele só se impõe ao governo e seus órgãos. É fraco um dos argumentos a seu favor : a França teria feito menos esforços do que outros países para apurar as estatísticas da pedofilia (católica? Só católica?). É facto que a Igreja gaulesa não produziu um relatório semelhante ao alemão . talvez por ser menos vasta a sua pedofilia. Muitos franceses querem uma comissão de inquérito estatal com uma forte componente científica.

Veremos. O caso do Cardeal Barbarin será em breve julgado em França. O arcebispo de Lyon e primaz das Gálias, um pouco como era o nosso arcebispo de Braga antes do Patriarcado (e talvez depois), afirmou que tinha desenvolvido todos os esforços para combater os padres pedófilos – e a justiça parece mostrar que falhou. Se o juiz der por provado o falhanço do Cardeal Barbarin, o caso terá consequências.

 

Setembro 26, 2018

PapaDNChina

título do Diário de Notícias, de 25 de setembro de 2018

https://www.dn.pt/mundo/interior/papa-diz-que-acordo-feito-com-a-china-tem-precedentes-e-aponta-portugal-9908620.html

Abaixo, o post de Estado e Igreja de anteontem.

Acordo Vaticano/China: Papa Francisco segue Padroado português

Setembro 24, 2018

ChinaCatólicos

Sábado, a Santa Sé e a China rubricaram em Pequim um acordo sobre a nomeação de bispos católicos para aquele país. O acordo foi concluído no escalão de viceministros dos Negócios Estrangeiros. As duas partes afirmaram a vontade de continuarem a dialogar e acordaram na realização de revisões periódicas sobre a sua aplicação. O texto do acordo não foi divulgado. Como sinal de boa vontade, o Papa Francisco levantou a excomunhão a oito bispos chineses (um dos quais recentemente falecido) que tinham sido nomeados por Pequim sem o seu aval.

A notícia do acordo não foi surpresa pois há dias a revista Global Times, próxima do governo de Pequim, revelara estar iminente a sua assinatura. Alguns católicos chineses já o criticaram em termos vivos: «entrega o rebanho aos lobos», afirmou o cardeal José Zen, arcebispo resignatário de Hong.-Kong. Esta oposição não foi revelada pelo Vatican Insider, que dera em primeira mão a notícia que no acordo estava iminente

Com uns séculos de atraso, o Vaticano reconhece assim o bem fundado da política do Padroado português na China. Essa política consistia em sinizar a liturgia e criar um clero chinês. O nosso Padroado era apoiado nessa política pelos Jesuítas. A Santa Sé opôs-se: os católicos chineses deveriam rezar missa em latim e comungar numa hóstia de trigo e não de arroz. Foi a «querela dos ritos». A opção de Roma liquidou a possibilidade de evangelização da China durante séculos. O acordo anunciado marca de algum modo a aceitação pelo Vaticano de um certo grau de sinização do catolicismo chinês e por isso o reclamamos como relevando da antiga política do Padroado. É interessante anotar que o Papa Francisco é jesuíta e portanto integra a ordem que apoiou a política do nosso Padroado.

Manter o acordo secreto revela a delicadeza da questão. Aliás, não é esta a primeira tentativa de acordo: no ano 2009 já esteve para ser assinado um convénio sino-vaticano. Nunca se soube porque abortou. Mas o então Pe. Parolin, hoje Secretário de Estado, foi despachado para núncio em Caracas e as negociações foram interrompidas.

Para compreendermos o problema, temos que regressar a 1951, quando o novo regime comunista da China proibiu o Sumo Pontífice de nomear bispos e criou uma associação nacional de católicos chineses, de onde saíam bispos nomeados por Pequim. Era a Igreja oficial chinesa. Mas os comunistas chineses não conseguiram destruir a lealdade  ao Papa de muitos católicos chineses  e subsistiu na China comunista uma igreja católica clandestina. Com as inerentes perseguições, sofrimentos e dramas.  Depois das reformas económicas de Deng Xao Ping, operou-se uma aproximação subterrânea entre os católicos destas duas igrejas. Esta aproximação era estimulada pelos jesuítas e pela rica diocese de Macau, uma jóia que sobreviveu ao Padroado. O Papa Bento XVI referiu aliás a vontade de elementos da igreja oficial de entrar em comunhão com a Santa Sé. Mas continua a haver muitos católicos chineses veementemente anticomunistas. Pequim continua a perseguir os católicos chineses, embora em modo menor: muitos templos da igreja «clandestina» são destruídos por bulldozers todos os anos. Por exemplo. O catolicismo parece estar em expansão na China, beneficiando da grande procura de espiritualidade que atravessa este grande país.

Aliás a Santa Sé mantém relações diplomáticas com Taiwan (Formosa) , que continua a considerar-se a China, embora esteja cada vez mais isolada internacionalmente. Devido a estas oposições católicas, o Vaticano apresenta o novo acordo como «pastoral», destinado a dar mais liberdade aos católicos chineses, como disse o citado D. Pedro Parolin, secretário de Estado do Vaticano.

O direito de veto estatal aos novos bispos católicos é a questão central das relações entre os comunistas chineses e o Vaticano. O direito de veto aos novos bispos já fora concedido pela Santa Sé a França, nos anos 1920, e pela concordata de 1940, a Portugal, entre outros casos. A China não o ignora e por isso se considera discriminada, Mas do lado do Vaticano receia-se que oc comunistas chineses manipulem movimentos de massas para impor homens seus ao Papa. Pequim e o Vaticano acreditam agora na boa fé um do outro e estão dispostos a pô-la à prova. Teremos pois que ir vendo como a situação evolui no terreno. As dimensões provisória e secreta do acordo mostram os limites dessa confiança recíproca. A aplicação do acordo será por certo lugar de numerosos conflitos locais.

Assinalemos a concluir que o acordo é concretizado quando ambas as partes contratantes estão a sofrer ataques poderosos: a China enfrenta o protecionismo dos Estados Unidos, a Santa Sé é batida por uma nova crise em que os ataques à pedofilia começam a miscigenar-se com questões teológicas. Esses ataques terão enfraquecido os que, nas duas partes contratantes, são inimigas do acordo sino-vaticano.

Aborto depois da Argentina: os equívocos do presente e as certezas do futuro

Setembro 10, 2018

AbortoUSA

Legenda Lilás mais carregado: recusa financiamento pelo imposto e em planos de saúde privados em praticamente todos os abortos; Lilás intermédio:recusa financiamento pelo imposto em praticamente todos os abortos; Lilás mais claro: recusa inserção do aborto em todos ou alguns dos planos de saúde privados; Verde escuro: autoriza o pagamento do aborto pelo imposto e por planos de saúde privados; Verde claro: autoriza o pagamento do aborto pelo imposto quando ele está inserido num plano de saúde privado. Fonte https://nwlc.org/resources/state-bans-insurance-coverage-abortion-endanger-women%E2%80%99s-health-and-take-health-benefits-away-women/

O senado da Argentina recusou um projeto alargando o âmbito do aborto legal. Esta rejeição vai contra a maré e por isso merece alguma reflexão. O debate argentino foi dominado por duas retóricas que ambas deformam a realidade e nos impedem de prever o futuro. A retórica da legalização descreveu um «tragédia» e saúde pública por muitos abortos clandestinos acabarem nos hospitais. Mas não dão os números da suposta tragédia. As estatísticas do aborto clandestino variavam entre 350 mil e meio milhão, uma divergência tão grande que revela profundo desconhecimento do fenómeno que se pretende regular,

A retórica contra o alargamento da legalização apresentou-se a defender  a vida. Mas esqueceu que a pílula abortiva é de venda livre na Argentina. Queira o leitor atentar na seguinte frase da reportagem da BBC, a conceituada emissora britânica: «Quem tem meios usa os medicamentos que põem termo à gravidez mas as argentinas mais pobres recorrem a métodos menos sofisticados» (https://www.bbc.com/news/world-latin-america-45125687). A retórica contra o alargamento da legalização escondeu que o aborto químico é tolerado e não se propôs combatê-lo, preferindo pelo silêncio sugerir que a Argentina proíbe de facto todo e qualquer aborto.

Este silêncio é partilhado pelos legalizadores do alargamento do aborto: também eles não mencionam a tolerância da lei perante o aborto químico, pois convém-lhes apresentar uma Argentina ocultista e medieval. Esquecem que já não estamos no século XX e que aborto já não é sinónimo de cesariana.

Em termos filosóficos, não é indiferente que a lei criminalize ou não criminalize o aborto mas em termos de simbologia sociológica metalegal e de comportamentos efetivos já deveremos considerar mais relevante a realidade social do que a norma legal por ela revogada. O que está em causa na Argentina não é pois a liberdade efetiva de abortar, é a igualdade económica das mulheres perante o aborto. Como o leitor bem se recorda, este mesmo equívoco presidiu ao segundo referendo português sobre o aborto e possibilitou a vitória do sim. Os referendos apresentam-se como regulando a liberdade de abortar mas a sua novidade é obrigar o contribuinte a pagar cesarianas às mulheres que as requeiram nos hospitais públicos. Questão diferente é saber se é lícito que a lei favoreça o aborto como método desejável de controle da natalidade ou seja a que título favor (exsceto o sanitário).

Os Estados Unidos distinguem com clareza a liberdade e a igualdade económica do aborto. O aborto é livre em todos os Estados federados mas só é integralmente financiado pelo imposto numa ínfima minoria de Estados: no velho Sul, no Mid West, no Sun Belt mas este financiamento estatal é recusado, O mesmo acontece em larga medida na Nova Inglaterra. É o que mostra o mapa acima.

A liberdade de abortar é diferente do recurso ao dinheiro dos outros mas os referendos europeus e o argentino confundem-na. Esta confusão é demonstrada por uma das mas divertidas frases da campanha argentina: «o prazer é um direito humano», proclamou Pio Solanas, cineasta e o mais velho senador argentino. Por certo. Mas o direito ao prazer dos vizinhos não viola o direito do leitor de votar contra o Orçamento do Estado que usa o seu dinheiro para pagar … o prazer do vizinho.

Posta assim a questão, é lícito equacionar o que é duradouro na recente modificação da legislação internacional sobre o aborto. A liberdade internacional está para ficar. O que é reconhecido implicitamente pelo silêncio dos anti abortistas sobre o aborto químico. Com efeito, a filosofia política dominante é hoje individualista e contratualista, o que favorece a liberdade de abortar. As novas técnicas químicas também a facilitam: só um Estado totalitário poderia acalentar a pretensão de de proibir efetivamente o aborto. Quem preferir a família-instituição à família-contrato (para usar uma terminologia de filosofia e de ciência social) terá que deixar de contar com o Estado e deverá recorrer a meios voluntários, isto é, contratuais. Se a globalização continuar, como parece provável,, ela obrigará ao equilíbrio orçamental e punirá os orçamentos que financiam os prazeres, sejam estes sexuais ou outros.

Mas aquele mesmo contratualismo individualista contraria a confusão entre pagamento do prazer dos outros e a liberdade de abortar. Por aqui haverá muitas mudanças, de alcance variável.

Descredibilizadas as Acusações ao Papa, Catolicismo no Banco dos Réus

Setembro 2, 2018

Vigano

Quando o acusador elogiava o cardeal acusado (foto divulgada pelo Catholic News Serice e retirada do Vatican Insider)

Ao regressar da sua visita oficial à Irlanda, no último domingo de agosto, o Papa Francisco foi alvo de um pedido de demissão por ser acusado de encobrimento no caso do cardeal D. Theodore McCarrick, arcebispo de Washington, acusado de numerosos crimes sexuais. O acusador arrogava-se autoridade para proferir a acusação: era o antigo núncio papal em Washington, o arcebispo D. Carlo Maria Viganò. O Papa recusou comentar a acusação, sugerindo que a lêssemos, e afirmando: ela fala por si. Começava assim a mais grave crise do catolicismo atual e era provocada pelas relações dele com o Estado por causa da atitude em relação a crimes sexuais cometidos por eclesiásticos católicos.

Uma semana depois, as acusações do ex Núncio parecem pouco críveis. O próprio Viganò elogiou em público o cardeal acusado. Viganò insistia que o Papa Bento XVI castigara McCopr,ick mas as suas declarações provavam que essas alegadas sanções não tinham sido aplicadas, pois o cardeal yankee concelebrara com Bento XVI além de, como vimos, ter sido elogiado em público pelo próprio Verganò. Este remetera-se ao silêncio mas teve que o interromper para se defender. Disse em sua defesa não ter tido meios como núncio para aplicar as sanções do Papa Bento XVI o qual as queria secretas. O New York Times, um diário pouco simpático ao Papado, já apontou as contradições do antigo Núncio. Que quase não teve seguidores nos meios católicos, exceto alguns poucos bispos do Estados Unidos que recorrem à linguagem de código: devemos examinar as acusações de Verganò.

Assim, estas acusações deixam ileso o Sumo Pontífice, o primeiro Papa a p8unir publicamente o cardeal abusador. Aliás, já nas suas declarações iniciais, o ex Núnico, ao ser interrogado pelo Papa Francisco sobre o cardeal McCarrick, declarara (as aspas são do antigo Núncio); «Santo Padre, ignoro se conhece o Cardeal McCarrick mas se perguntar à Congregação dos Bispos há um grande dossier sobre ele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e padres e o Papa Bento ordenou-lhe que se retirasse para uma vida de oração e penitência». Como o leitor reparou, o antigo Núncio, além da má-criação de dar conselhos ao Papa, não lhe disse que considerava McCarrick autor de abusos sexuais pelos quais fora condenado por Bento XVI. O ex núncio aplicou ao Papa Francisco o princípio «enganar com a verdade»: disse que o cardeal tinha um grande processo na congregação, o que é verdade de todos os cardeais, mesmo os mais santos, e acusou-o de corromper os seus seminaristas, uma acusação standard aos bispos, mas não especificou como os corrompia. Por isso, o antigo Núncio em Washington acusou o Papa Francisco de lhe ter preparado uma «armadilha» quando o interrogou sobre um assunto de serviço. A acusação de armadilhar era uma projeção freudiana: ele é que armadilhara o Papa.

As acusações não tocam a pessoa de Bergoglio mas minam o catolicismo. Não está provado que Bento XVI tenha punido McCarrick. Se o puniu nas condições referidas  pelo ex Núncio, a situação é preocupante: o Papa puniu condenando ao isolamento e concelebra com o condenado? O Papa pune por um crime social (não por uma heresia) e mantém secreta a condenação? O Pa+a consente que uma punição secreta seja desrespeitada? Na verdade, as acusações do ex núncio Verganò deixam ileso o Papa Fraancisco mas ferem o catolicismo: mostram-no dividido por ódios mesquinhos, desorganizado, incapaz de combater os abusos sexuais e sem a vontade necessária para esse combate.

Alguns factos sugerem que já começou a reação anticatólica pelo lado do Estado. Esta reação será por certo mais forte nos países o onde os abusos sexuais do clero católico foram mais fortes (foram ou continuam a ser, ignoramo-lo) . Nos países latinos , como o nosso, estes desmandos terão sido mais fracos do que nos anglo-saxónicos. Eis três exemplos.

  • No Guardian, um respeitado diário londrino, Polly Toynbee, filha do grande historiador homónimo e apreciada opinion maker, escreveu que o Estado tem sido demasiado tolerante para os desmandos sociais das religiões (e especificou que não se referia apenas ao catolicismo);
  • Na Irlanda, as autoridades declararam que consideram insuficientes as medidas tomadas  pela Igreja Católica contra os autores clericais de abusos sexuais. É o esboço de um conflito mais grave;
  • Na Austrália, uma comissão estatal aprovou uma série de recomendações à Igreja Católica, na sequência da descoberta de numerosos crimes sexuais por ela cometidos e escondidos. Entre elas está abolir o segredo da confissão. O catolicismo australiano aceitou numerosas dessas recomendações mas recusou esta. Será possível defender a transparência e dar automaticamente a absolvição aos autores de crimes sexuais continuados? O Estado aceitará nestes casos o segredo da confissão que para ele é cumplicidade ou encobrimento de um crime hoje tido por particularmente repugnante?

 

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Primeiras declarações do antigo Núncio em Washington:

https://www.lifesitenews.com/news/former-us-nuncio-pope-francis-knew-of-mccarricks-misdeeds-repealed-sanction

Segundas declarações do antigo Núncio em Washington

http://www.lastampa.it/2018/09/01/vaticaninsider/vigan-benedict-did-not-want-public-sanctions-because-mccarrick-was-retired-MADPNcxY8kj7hUGzP355xJ/pagina.html

Texto de Polly Toynbee

https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/aug/28/religion-ireland-catholicism-abusers